Por que a africana Ceuta é uma cidade espanhola
Espanha mobilizou seu Exército para atuar contra a entrada de 60 mil migrantes em 24 horas no território, o que levou a morte de ao menos 34 pessoas.
História com fortes contornos de lenda, conta-se que o militar e nobre português Pedro de Meneses (1367-1437) jogava choca quando ouviu o então rei de Portugal, dom João 1º (1357-1433), às voltas com a decisão de quem seria nomeado primeiro governador da recém-conquistada Ceuta.
Choca, também chamada de aléu, era um esporte medieval semelhante ao hóquei, em que os jogadores usavam tacos de grossa madeira — o aléu — para empurrar uma bola pequena de madeira, a choca, até um buraco cavado no campo adversário.
Meneses teria se aproximado do rei e, empunhando o taco, dito: "Senhor, este pau basta-me para defender Ceuta de todos os seus inimigos".
Fato é que de setembro de 1415 até 1430 e, depois, de 1434 até a morte, três anos mais tarde, Meneses foi o governador português nessas terras do extremo-norte da África, separadas apenas 14 quilômetros da Península Ibérica.
O aléu lendário, com apreço de relíquia, é mantido na Igreja de Santa Maria de África, santuário católico inaugurado há 600 anos na cidade africana.
Essa anedota é o ponto de partida que explica o domínio histórico de europeus ibéricos sobre o fragmento setentrional do continente africano. Ceuta é, ao lado de Melilla, enclave espanhol hoje na África.
"São fósseis histórico-políticos da Europa e do expansionismo do grande capital mercantil e industrial, a partir do século 15", afirma o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista. "Os pés de gigante no continente africano"
Pés europeus. Que, fincados ali, controlam não só os territórios — mas, como destaca Martinez, "acesso, navegação no mar Mediterrâneo, fluxo de mercadorias e, principalmente, de pessoas 'indesejadas' na margem norte daquele mar".
Ceuta tem uma particularidade: é a única fronteira terrestre entre África e Europa — em tempos de crise migratória, portanto, salta nítida sob os holofotes que escancaram o problema humanitário.
Além disso, foi a primeira colônia portuguesa dentro do que se convencionou chamar de Grandes Navegações — contexto do qual faz parte a conquista lusitana do território brasileiro. "O simbolismo de Ceuta é marco na cronologia da expansão europeia, pelos navegantes portugueses que conquistaram a localidade, em 1415", afirma Martinez.
Sucessão de domínios
Com pouco mais de 80 mil habitantes, Ceuta é área com ocupação humana milenar — a primeira civilização a ter assentamentos ali, acredita, tenha sido os fenícios, a partir do século 7 antes da Era Comum. Empreendedores marítimos, eles teriam fundado uma cidadela no local onde hoje fica a catedral cristã.
A cidade foi depois ocupada pelos gregos, pelos púnicos, pelos berberes da Numídia e, mais tarde, pelos berberes da Mauritânia. Sob o comando do imperador Calígula (12-41), provavelmente no ano 40 da Era Comum, Ceuta se tornou parte do Império Romano.
Acredita-se que nesta época ela já tivesse esse nome, ou algo muito parecido. Etimologicamente, a versão mais aceita é de que Ceuta deriva dos termos latinos Septem Fratres, que significam "sete irmãos" — e esta seria a maneira como os romanos haviam batizado os sete montes do entorno. Septem acabaria virando Ceuta. O antigo historiador romano Pomponio Mela, que viveu no 1º século, registrou o termo Septem Fratres para se referir ao relevo dessa região.
Com o declínio de Roma, Ceuta passaria novamente para outras mãos. Em 429, foi conquistada pelos vândalos. No século seguinte, passou a integrar o Império Bizantino Belisário.
Mas se o islã acabou se disseminando por toda essa região africana, não seria diferente com Ceuta. No início do século 8º, o califado omíada conquistou Ceuta. Mais tarde, a cidade faria parte do emirado Idríssida, que dominou todo o Magreb.
Houve dois pequenos hiatos em que Ceuta foi estado independente. Primeiro, entre 1061 e 1147: era a Taifa de Ceuta. O outro foi entre 1232 e 1236, em que o aglomerado urbano foi considerado cidade independente. De resto, em todo o período pré-conquista ibérica a região teve seu controle disputado por diversos reinos e principados islâmicos, entre taifas e califados.
Em seu auge nesse período, acredita-se que Ceuta tenha chegado a 30 mil habitantes, número considerável para a época.
Santo Antônio
A presença ibérica ali era constante, tanto pela proximidade geográfica como pelos impulsos cristãos que viam na maioria islâmica um inimigo a ser combatido em nome de uma conversão — havia o movimento conhecido como Cruzadas e toda essa "guerra santa" que era empreendida em nome da fé e do poder.
Nesse contexto, por exemplo, até mesmo figuras históricas que se tornariam importantes para o catolicismo ali estiveram. É o caso do religioso lisboeta que adotou o nome de Antônio (1195-1231) e depois se tornaria Santo Antônio de Pádua.
Como demonstro na biografia que publiquei a respeito dele, no segundo semestre de 1220, tão logo se tornou frade franciscano, ele aceitou a missão de ir pregar no norte da África.
Na companhia de outro religioso da mesma ordem, conseguiu uma carona em um navio mercante que saíra de Lisboa até Ceuta. Lá, a dupla teria passado "alguns dias em casas de cristãos", quando "aprenderiam mais sobre os costumes" locais, pontuo no livro.
Ceuta não foi o destino final da missão. Dali, ambos partiram para Marraquexe. Só na virada do ano seguinte Antônio seguiria para a península itálica, onde conheceria Francisco de Assis (1182-1226) e faria a carreira que fez dele um nome famoso e importante para a Igreja Católica. Mas isto é outra história.
Domínio ibérico
O primeiro passo ibérico em direção ao controle de Ceuta, esse ponto estratégico na "entrada" da África foi dado pelos então reinos de Castela e Aragão, hoje parte da Espanha.
Eles firmaram um acordo com lideranças locais, o Tratado de Monteagudo, de 1291, e, com isso, a cidade ficou sob a zona de influência castelhana. Oficialmente, Ceuta estava no tabuleiro político da elite da Península Ibérica.
No nascedouro do episódio histórico conhecido como expansão mercantilista, em que Portugal e Espanha disputaram a hegemonia comercial e política de boa parte do globo, tropas portuguesas desembarcaram na atual praia de Santo Amaro e conquistaram a cidade. Era agosto de 1415 e, a partir deste episódio, o português Meneses seria nomeado governador de Ceuta.
Naquele momento, a ideia portuguesa era estabelecer ali algo equivalente a uma base militar, um mero entreposto, não ainda uma colônia. Era um controle importante no sentido de então se alastrar pelo continente africano.
"É a região que, no princípio, serviu de suporte para a expansão marítima portuguesa", explica o historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie.
A conquista foi legitimada. Primeiro, graças a um acordo assinado em que o reino de Fez, no Marrocos, reconhecia o domínio português na região. Em 1417, o papa determinou a criação da diocese de Ceuta — em tempos de forte poder da Igreja, este status era mais do que religioso, político.
Professor na Universidade Federal Fluminense e criador do canal no YouTube e da revista Tema Livre, o historiador Fábio Ferreira lembra que Ceuta inaugura a ideia de Portugal como "um império que controla diversos pontos ao redor do mundo", com feitorias e colônias e "o controle das rotas" marítimas.
Na época dos tratados firmados entre Portugal e Espanha para "dividir" o mundo entre eles, do qual o mais célebre é o de Tordesilhas, Ceuta já era considerada uma colônia portuguesa.
A posse da região só passaria para o lado espanhol por conta da União Ibérica — entre 1580 e 1640, em que, devido a uma crise sucessória do lado lusitano, ambas as coroas ficaram sob o comando espanhol. Na restauração portuguesa que se seguiu, o território manteve-se sob a hierarquia espanhola. "Ao contrário de várias outras possessões portuguesas, Ceuta escolheu, optou permanecer junto aos espanhóis", diz Missiato.
O pesquisador Paulo Rezzutti, que tem um canal de divulgação de história no YouTube, comenta que a proximidade geográfica com a Espanha influenciou nessa opção. "Era da Espanha que vinham muitos produtos que eles usavam em Ceuta", ressalta.
"Essa decisão de permanecer sob o domínio espanhol foi regulamentada em tratado posterior", explica Rezzutti. Foi o Tratado de Lisboa, de 1668, que oficializou a restauração portuguesa.
Neocolonialismo
Mais recentemente, no contexto neocolonial do século 20, quando os franceses dominaram o Marrocos, houve um acordo e o governo espanhol criou um protetorado na região, compreendendo Ceuta.
"A Espanha conseguiu diplomaticamente permanecer com esse território", afirma o historiador Missiato. "E isso foi importante na divisão, com a Inglaterra, do controle da saída e da entrada do Mediterrâneo." No início do século 18, os ingleses já tinham tomado posse de Gibraltar.
Na independência marroquina, conquistada em 1956, Ceuta se tornou um conveniente ponto para a retirada das tropas francesas.
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