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Por que a africana Ceuta é uma cidade espanhola

Espanha mobilizou seu Exército para atuar contra a entrada de 60 mil migrantes em 24 horas no território, o que levou a morte de ao menos 34 pessoas.

31 jul 2026 - 14h52
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Gravura de Ceuta na obra Civitates Orbis Terrarum, de Braun e Hogenberg, feita em 1572
Gravura de Ceuta na obra Civitates Orbis Terrarum, de Braun e Hogenberg, feita em 1572
Foto: Domínio público / BBC News Brasil

História com fortes contornos de lenda, conta-se que o militar e nobre português Pedro de Meneses (1367-1437) jogava choca quando ouviu o então rei de Portugal, dom João 1º (1357-1433), às voltas com a decisão de quem seria nomeado primeiro governador da recém-conquistada Ceuta.

Choca, também chamada de aléu, era um esporte medieval semelhante ao hóquei, em que os jogadores usavam tacos de grossa madeira — o aléu — para empurrar uma bola pequena de madeira, a choca, até um buraco cavado no campo adversário.

Meneses teria se aproximado do rei e, empunhando o taco, dito: "Senhor, este pau basta-me para defender Ceuta de todos os seus inimigos".

Fato é que de setembro de 1415 até 1430 e, depois, de 1434 até a morte, três anos mais tarde, Meneses foi o governador português nessas terras do extremo-norte da África, separadas apenas 14 quilômetros da Península Ibérica.

O aléu lendário, com apreço de relíquia, é mantido na Igreja de Santa Maria de África, santuário católico inaugurado há 600 anos na cidade africana.

Mapa
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Foto: BBC News Brasil

Essa anedota é o ponto de partida que explica o domínio histórico de europeus ibéricos sobre o fragmento setentrional do continente africano. Ceuta é, ao lado de Melilla, enclave espanhol hoje na África.

"São fósseis histórico-políticos da Europa e do expansionismo do grande capital mercantil e industrial, a partir do século 15", afirma o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista. "Os pés de gigante no continente africano"

Pés europeus. Que, fincados ali, controlam não só os territórios — mas, como destaca Martinez, "acesso, navegação no mar Mediterrâneo, fluxo de mercadorias e, principalmente, de pessoas 'indesejadas' na margem norte daquele mar".

Ceuta tem uma particularidade: é a única fronteira terrestre entre África e Europa — em tempos de crise migratória, portanto, salta nítida sob os holofotes que escancaram o problema humanitário.

Além disso, foi a primeira colônia portuguesa dentro do que se convencionou chamar de Grandes Navegações — contexto do qual faz parte a conquista lusitana do território brasileiro. "O simbolismo de Ceuta é marco na cronologia da expansão europeia, pelos navegantes portugueses que conquistaram a localidade, em 1415", afirma Martinez.

A conquista portuguesa de Ceuta representada em azulejos na estação de São Bento, no Porto, em obra do artista Jorge Colaço (1864–1942)
A conquista portuguesa de Ceuta representada em azulejos na estação de São Bento, no Porto, em obra do artista Jorge Colaço (1864–1942)
Foto: HombreDHojalata/Wikimedia/Wikicommons / BBC News Brasil

Sucessão de domínios

Com pouco mais de 80 mil habitantes, Ceuta é área com ocupação humana milenar — a primeira civilização a ter assentamentos ali, acredita, tenha sido os fenícios, a partir do século 7 antes da Era Comum. Empreendedores marítimos, eles teriam fundado uma cidadela no local onde hoje fica a catedral cristã.

A cidade foi depois ocupada pelos gregos, pelos púnicos, pelos berberes da Numídia e, mais tarde, pelos berberes da Mauritânia. Sob o comando do imperador Calígula (12-41), provavelmente no ano 40 da Era Comum, Ceuta se tornou parte do Império Romano.

Acredita-se que nesta época ela já tivesse esse nome, ou algo muito parecido. Etimologicamente, a versão mais aceita é de que Ceuta deriva dos termos latinos Septem Fratres, que significam "sete irmãos" — e esta seria a maneira como os romanos haviam batizado os sete montes do entorno. Septem acabaria virando Ceuta. O antigo historiador romano Pomponio Mela, que viveu no 1º século, registrou o termo Septem Fratres para se referir ao relevo dessa região.

Com o declínio de Roma, Ceuta passaria novamente para outras mãos. Em 429, foi conquistada pelos vândalos. No século seguinte, passou a integrar o Império Bizantino Belisário.

Mas se o islã acabou se disseminando por toda essa região africana, não seria diferente com Ceuta. No início do século 8º, o califado omíada conquistou Ceuta. Mais tarde, a cidade faria parte do emirado Idríssida, que dominou todo o Magreb.

Houve dois pequenos hiatos em que Ceuta foi estado independente. Primeiro, entre 1061 e 1147: era a Taifa de Ceuta. O outro foi entre 1232 e 1236, em que o aglomerado urbano foi considerado cidade independente. De resto, em todo o período pré-conquista ibérica a região teve seu controle disputado por diversos reinos e principados islâmicos, entre taifas e califados.

Em seu auge nesse período, acredita-se que Ceuta tenha chegado a 30 mil habitantes, número considerável para a época.

Santo Antônio

A presença ibérica ali era constante, tanto pela proximidade geográfica como pelos impulsos cristãos que viam na maioria islâmica um inimigo a ser combatido em nome de uma conversão — havia o movimento conhecido como Cruzadas e toda essa "guerra santa" que era empreendida em nome da fé e do poder.

Nesse contexto, por exemplo, até mesmo figuras históricas que se tornariam importantes para o catolicismo ali estiveram. É o caso do religioso lisboeta que adotou o nome de Antônio (1195-1231) e depois se tornaria Santo Antônio de Pádua.

Como demonstro na biografia que publiquei a respeito dele, no segundo semestre de 1220, tão logo se tornou frade franciscano, ele aceitou a missão de ir pregar no norte da África.

Na companhia de outro religioso da mesma ordem, conseguiu uma carona em um navio mercante que saíra de Lisboa até Ceuta. Lá, a dupla teria passado "alguns dias em casas de cristãos", quando "aprenderiam mais sobre os costumes" locais, pontuo no livro.

Ceuta não foi o destino final da missão. Dali, ambos partiram para Marraquexe. Só na virada do ano seguinte Antônio seguiria para a península itálica, onde conheceria Francisco de Assis (1182-1226) e faria a carreira que fez dele um nome famoso e importante para a Igreja Católica. Mas isto é outra história.

Domínio ibérico

O primeiro passo ibérico em direção ao controle de Ceuta, esse ponto estratégico na "entrada" da África foi dado pelos então reinos de Castela e Aragão, hoje parte da Espanha.

Eles firmaram um acordo com lideranças locais, o Tratado de Monteagudo, de 1291, e, com isso, a cidade ficou sob a zona de influência castelhana. Oficialmente, Ceuta estava no tabuleiro político da elite da Península Ibérica.

No nascedouro do episódio histórico conhecido como expansão mercantilista, em que Portugal e Espanha disputaram a hegemonia comercial e política de boa parte do globo, tropas portuguesas desembarcaram na atual praia de Santo Amaro e conquistaram a cidade. Era agosto de 1415 e, a partir deste episódio, o português Meneses seria nomeado governador de Ceuta.

Naquele momento, a ideia portuguesa era estabelecer ali algo equivalente a uma base militar, um mero entreposto, não ainda uma colônia. Era um controle importante no sentido de então se alastrar pelo continente africano.

"É a região que, no princípio, serviu de suporte para a expansão marítima portuguesa", explica o historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie.

A conquista foi legitimada. Primeiro, graças a um acordo assinado em que o reino de Fez, no Marrocos, reconhecia o domínio português na região. Em 1417, o papa determinou a criação da diocese de Ceuta — em tempos de forte poder da Igreja, este status era mais do que religioso, político.

Igreja de Nossa Senhora da África, em Ceuta
Igreja de Nossa Senhora da África, em Ceuta
Foto: Diego Delso/Wikimedia/Wikicommons / BBC News Brasil

Professor na Universidade Federal Fluminense e criador do canal no YouTube e da revista Tema Livre, o historiador Fábio Ferreira lembra que Ceuta inaugura a ideia de Portugal como "um império que controla diversos pontos ao redor do mundo", com feitorias e colônias e "o controle das rotas" marítimas.

Na época dos tratados firmados entre Portugal e Espanha para "dividir" o mundo entre eles, do qual o mais célebre é o de Tordesilhas, Ceuta já era considerada uma colônia portuguesa.

A posse da região só passaria para o lado espanhol por conta da União Ibérica — entre 1580 e 1640, em que, devido a uma crise sucessória do lado lusitano, ambas as coroas ficaram sob o comando espanhol. Na restauração portuguesa que se seguiu, o território manteve-se sob a hierarquia espanhola. "Ao contrário de várias outras possessões portuguesas, Ceuta escolheu, optou permanecer junto aos espanhóis", diz Missiato.

O pesquisador Paulo Rezzutti, que tem um canal de divulgação de história no YouTube, comenta que a proximidade geográfica com a Espanha influenciou nessa opção. "Era da Espanha que vinham muitos produtos que eles usavam em Ceuta", ressalta.

"Essa decisão de permanecer sob o domínio espanhol foi regulamentada em tratado posterior", explica Rezzutti. Foi o Tratado de Lisboa, de 1668, que oficializou a restauração portuguesa.

Neocolonialismo

Mais recentemente, no contexto neocolonial do século 20, quando os franceses dominaram o Marrocos, houve um acordo e o governo espanhol criou um protetorado na região, compreendendo Ceuta.

"A Espanha conseguiu diplomaticamente permanecer com esse território", afirma o historiador Missiato. "E isso foi importante na divisão, com a Inglaterra, do controle da saída e da entrada do Mediterrâneo." No início do século 18, os ingleses já tinham tomado posse de Gibraltar.

Na independência marroquina, conquistada em 1956, Ceuta se tornou um conveniente ponto para a retirada das tropas francesas.

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