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Para que serviu a guerra? A pergunta inevitável levantada pelo acordo entre EUA e Irã

Embora o custo humano seja claro, o regime iraniano não apenas sobreviveu à guerra, como saiu fortalecido.

19 jun 2026 - 05h33
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Civis iranianos vivem sob a ameaça de ataques há meses
Civis iranianos vivem sob a ameaça de ataques há meses
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

O memorando de entendimento assinado pelos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Irã, Masoud Pezeshkian, deixou evidentes as consequências políticas, militares e econômicas da decisão mal calculada de atacar o Irã em 28 de fevereiro.

O custo humano já é claro. Milhares de pessoas morreram, muitas delas civis, no Irã e no Líbano.

Os EUA, e por extensão Israel, sofreram uma derrota estratégica. O regime em Teerã enfrentou seu pior pesadelo: uma operação militar conjunta para incapacitá-lo ou destruí-lo conduzida pelos EUA, a potência mais forte do mundo, e por Israel, a superpotência do Oriente Médio. O regime não apenas sobreviveu. Ele saiu fortalecido.

Sua estratégia de bloquear o estreito de Ormuz — e com isso um quinto do fornecimento mundial de petróleo e gás, além de outros componentes vitais da economia global — forçou Trump a concordar com uma série de concessões que enfureceram e alarmaram os críticos mais duros do Irã nos EUA e o governo israelense.

O memorando de entendimento — ou MOU, na sigla em inglês — prevê o fim da guerra no Líbano, mas Israel diz que isso não pode acontecer. Os israelenses querem ter liberdade de ação no Líbano, e essa questão pode provocar uma ruptura ainda maior entre Israel e os EUA, além de favorecer os setores mais radicais do Irã que se opõem a qualquer acordo com os americanos.

Em troca da reabertura do estreito, o texto do MOU afirma que os EUA irão suspender seu bloqueio aos portos iranianos, flexibilizar sanções permitindo ao Irã ganhar bilhões de dólares com exportações de petróleo e iniciar o processo de devolução de bilhões em dinheiro ao Irã, por meio do descongelamento de ativos mantidos no exterior.

Isso tudo antes mesmo de EUA e Irã entrarem no difícil processo de negociar um acordo nuclear. É o preço pago pelos EUA para se voltar à situação de 27 de fevereiro, o dia anterior ao lançamento da guerra pelos americanos e israelenses. Naquele dia, o estreito de Ormuz estava aberto à navegação e negociadores americanos e iranianos discutiam um acordo nuclear.

A assinatura do MOU significa que as negociações serão retomadas e os navios poderão transitar pelo estreito de Ormuz.

Erro de política externa

O secretário de Estado de Joe Biden, Antony Blinken, publicou no X: "o único 'resultado' do cessar-fogo é a provável reabertura do estreito de Ormuz — que já estava aberto antes do início da guerra. E aparentemente pagaremos ao Irã por isso."

A questão de para que exatamente serviu a guerra é inevitável e não desaparecerá. Trata-se do maior erro de política externa de Trump até agora.

Pode também significar o fim da longa carreira política do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Ele enfrenta eleições em outubro e um acerto de contas com os eleitores israelenses por seu papel nas falhas de segurança — as piores da história de Israel — que permitiram que o sistema militar e de inteligência do país não detectasse o plano do Hamas de invadir Israel a partir de Gaza em 7 de outubro de 2023.

As políticas militares de linha dura de Netanyahu e seu desprezo pela diplomacia foram concebidos, pelo menos em parte, para restaurar sua reputação como o "Senhor Segurança" de Israel.

Teerã sempre esteve ciente do potencial de poder de fechar o estreito de Ormuz. O mesmo ocorria com os militares dos EUA, seus diplomatas e seus serviços de inteligência.

Mas o antigo líder supremo do Irã, Ali Khamenei, um homem idoso e cauteloso, optava por não correr o risco de usar o estreito como arma.

Depois que Israel o matou, junto com seus conselheiros mais próximos, nas primeiras operações de bombardeio da guerra, seus sucessores acreditaram, corretamente, que estavam em uma luta existencial e não hesitaram em fechar o estreito.

A relação entre Trump e Netanyahu está tensa devido às ações militares de Israel no Líbano
A relação entre Trump e Netanyahu está tensa devido às ações militares de Israel no Líbano
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Eles descobriram o poder de controlar um ponto de estrangulamento da economia global. É uma arma muito mais utilizável, e muito mais barata, do que a rede de aliados e intermediários em que investiram décadas e bilhões para construir no Oriente Médio.

Com exceção do regime de Bashar al-Assad na Síria, que caiu no final de 2024, o chamado "eixo de resistência do Irã" ainda sobrevive, embora por pouco. Mas foi tão enfraquecido por Israel que já nem faz sentido discutir se ainda tem capacidade de "resistência".

O Irã também investiu recursos em um programa nuclear que continua negando ter como objetivo a construção de uma arma, mas que sem dúvida deu a Teerã uma opção e uma ameaça. No entanto, isso provocou uma guerra que, apesar da sobrevivência do regime, causou enormes danos ao Irã.

Fechar o estreito, em contraste, foi fácil e teve um impacto rápido e devastador, espalhando os efeitos para os Estados árabes produtores de petróleo e grande parte do restante do mundo.

O poder das forças aéreas dos EUA e de Israel garantiu uma série de vitórias táticas. Mas elas não foram suficientes para evitar uma derrota estratégica. Isso porque a estratégia EUA-Israel de mudança de regime se baseava em uma série de pressupostos simplistas e equivocados.

O Irã não era como a Venezuela, uma ditadura latino-americana corrupta, que entrou em colapso quando seu líder foi sequestrado e levado a julgamento nos EUA.

O regime iraniano é, sem dúvida, corrupto e altamente repressivo — seus agentes mataram milhares de manifestantes nas ruas do Irã em janeiro — mas também se baseia em uma ideologia, em convicções religiosas e em uma concepção de segurança nacional, martírio e sobrevivência que surgiu da devastadora guerra contra o Iraque de Saddam Hussein na década de 1980.

Quando os EUA deram início à guerra, Trump disse que o regime em Teerã cairia. Ele disse ao povo iraniano que se preparasse para uma oportunidade única em uma geração de recuperar seu país. Pouco depois, exigiu a rendição incondicional do regime.

Netanyahu, que tentou repetidamente, sem sucesso, convencer os antecessores de Trump na Casa Branca a entrar em guerra contra o Irã, usou linguagem bíblica para resumir a magnitude do que acreditava estar prestes a acontecer: "Essa coalizão de forças nos permite fazer o que tenho desejado fazer há 40 anos: destruir completamente o regime de terror."

Nenhum dos dois conseguiu cumprir seus objetivos.

O memorando de entendimento não é um acordo final. É um compromisso de negociar a maior questão entre as partes — o programa nuclear do Irã. Mas já inclui incentivos importantes para o Irã. Se as negociações avançarem, os EUA afirmaram que irão levantar as sanções.

Tudo depende do sucesso de 60 dias de negociações sobre um acordo nuclear — prazo que pode ser estendido e provavelmente será, já que as questões são complexas. Nenhum dos lados confia no outro. Muito pode dar errado. Setores mais radicais em Washington, Teerã e Israel não querem que o acordo funcione.

Se adotar posturas maximalistas nas negociações, o Irã corre o risco de exagerar sua posição e comprometer ganhos econômicos que poderiam aliviar sua economia fragilizada.

Mas este acordo é muito melhor do que uma guerra que matou milhares e ameaçou uma recessão econômica global.

Se um acordo nuclear for alcançado, satisfazendo os EUA e o Irã, e se ambos cumprirem suas promessas, o Oriente Médio poderá ser transformado. Esse é um grande "se", ao final de uma negociação que será longa e difícil.

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