Papa vai a bairro carente em Montevidéu e diz que 'ninguém deve dormir sem comer'
Leão XIV também doou, por meio da Fundação Papal, 12 casas para famílias locais
Em visita a Casavalle, periferia pobre e violenta de Montevidéu, o papa Leão XIV fez um duro alerta contra a indiferença social e a desigualdade, afirmando que ninguém no Uruguai deveria dormir com fome ou sem educação. O pontífice cobrou união entre Estado e sociedade contra a violência e entregou 12 casas financiadas pela Fundação Papal para substituir barracos precários. A passagem marca a primeira visita papal ao país desde 1988, integrando um giro que inclui Argentina e Peru.
O papa Leão XIV visitou neste sábado (7) o bairro de Casavalle, situado na periferia de Montevidéu e tido como um dos mais pobres da região, e usou o encontro com os moradores locais para fazer um duro alerta contra a indiferença social.
Em um país com um dos PIBs per capita mais altos da América do Sul, o pontífice afirmou que "nenhum filho desta terra, tão rica em recursos, deveria dormir sem ter comido nem renunciar a receber educação e um futuro digno por causa da insegurança que reina nas ruas".
Casavalle reúne cerca de 30 mil pessoas e, segundo o governo do Uruguai, metade delas vive em pobreza absoluta. O bairro é marcado pela violência ligada ao tráfico de drogas, sobretudo da pasta base da cocaína, e pela precariedade das moradias, em grande parte barracos de metal, papelão e madeira conhecidos como "cantegriles".
Em discurso na paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe, Leão XIV cobrou ação firme da sociedade contra a desigualdade. "Não podemos seguir em frente quando sabemos que há crianças no Uruguai que não vão à escola por medo de não voltar. Não podemos silenciar nossa consciência quando constatamos que uma mãe não tem meios para alimentar os próprios filhos. Não podemos ignorar que há muitas pessoas ao nosso redor que sofrem, que estão sozinhas e vulneráveis", disse.
O líder católico também denunciou a insegurança que afeta o cotidiano de Casavalle. "Há numerosos casos de violência que, infelizmente, ameaçam a paz de nossos bairros e até a vida de nossos entes queridos, e aos quais a sociedade responde frequentemente com indiferença", afirmou Robert Prevost, que ainda pediu união entre Igreja, sociedade civil e Estado: "Devemos nos sacudir da inércia e nos comprometer com o bem comum".
Além das palavras contundentes, Leão XIV levou uma contribuição material. Com recursos da Fundação Papal, entidade com sede nos Estados Unidos e voltada a apoiar projetos humanitários da Igreja em países em desenvolvimento, foram construídas 12 casas para famílias em situação de vulnerabilidade, em um projeto da paróquia local para substituir os "cantegriles".
"Que estas moradias sejam muito mais do que um simples teto para suas famílias: uma verdadeira casa onde possam crescer na dignidade, na paz e na esperança", afirmou.
Durante a visita, o pontífice ouviu depoimentos como o de Katherine Silva, que relatou ter sofrido abusos e violência desde a infância, ter ido para a rua aos 15 anos e quase ter perdido a vida nas mãos de um companheiro.
"Por muito tempo vivi cheia de raiva, medo e tristeza, com raiva de todos, de mim mesma e de Deus. Não conseguia querer bem a mim mesma nem à minha filha. Até pensei em deixá-la. Mas hoje sei que foi Deus que me segurou", contou. Katherine encontrou apoio no Movimento Tacurú, uma das obras da Igreja no bairro.
"Hoje posso abraçar minha filha, brincar com ela e me sentir mãe. Não está tudo resolvido, continuo lutando, mas tenho paz no meu coração", salientou.
Já o pároco local, Pablo Coimbra, explicou que o povo de Casavalle "sempre foi excluído e sempre se sentiu à margem" da sociedade. "O fato de o Papa vir aqui, de a Igreja colocar seu olhar nesta área, faz com que, pela primeira vez, muitos não estejam à margem, mas no coração, no centro, no ventre materno da Igreja", destacou.
A passagem por Casavalle ocorreu após Leão XIV visitar Paysandú, cidade marcada pela presença de imigrantes italianos, onde celebrou uma missa e falou sobre a importância de "construir pontes e fortalecer laços". Ao voltar a Montevidéu, o pontífice foi a uma casa de sacerdotes idosos, onde saudou cerca de 20 religiosos e destacou "o valor absoluto da vida, mesmo quando fragilizada pela idade ou pela doença".
O Uruguai não recebia um papa desde 1988, com São João Paulo II. A primeira viagem apostólica de Prevost na América do Sul inclui ainda a Argentina, que não tem uma visita pontifícia desde 1987, e o Peru, onde Leão XIV foi bispo e missionário por mais de duas décadas. .
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