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O que se sabe sobre suposto estupro coletivo de estudante em uma fraternidade da Universidade Cornell

Mulher, que tinha 20 anos na época, alega que foi drogada e estuprada em uma casa de fraternidade no campus em 2024 - e que a universidade não a protegeu nem puniu adequadamente os homens envolvidos.

1 out 2026 - 08h20
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Resumo
Promotores de Nova York reabriram a apuração sobre o estupro coletivo de uma aluna na Universidade Cornell em 2024, após a vítima processar a instituição, a fraternidade Chi Phi e sete estudantes. Ela alega ter sido drogada e abusada sem condições de consentir, acusando a universidade de negligência nas punições. Cornell refuta a omissão, citando expulsões, e aceitou uma investigação independente. A promotoria levará o caso ao grande júri após a revelação de novas provas e depoimentos.
Cornell, em Ithaca, no Estado de Nova York, é uma universidade americana de elite
Cornell, em Ithaca, no Estado de Nova York, é uma universidade americana de elite
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Promotores do Estado de Nova York reabriram uma investigação sobre o suposto estupro de uma mulher na Universidade Cornell em 2024.

A mulher entrou com uma ação civil contra a universidade — uma das mais prestigiosas dos EUA — em 16 de setembro, alegando que foi dopada e estuprada em uma casa de fraternidade da universidade. Casas de fraternidades são residências geridas por organizações sociais estudantis — fraternidades, para homens, ou sororidades, para mulheres — bastante comuns em universidades americanas.

Ela também alegou que Cornell não a protegeu nem puniu adequadamente os homens envolvidos.

Os homens foram apelidados de "Cornell Seven", e a mulher foi identificada como Jane Doe (nome fictício usado nos EUA pelas autoridades para se referir a uma mulher cuja identidade real é desconhecida ou precisa ser mantida em sigilo) nos documentos judiciais.

Cornell afirmou que apoia levar o caso a um grande júri, mas rejeitou as alegações de que não puniu os envolvidos. A universidade também concordou que o caso seja analisado por um investigador independente.

Veja o que sabemos até agora.

O que a mulher alega?

Em uma ação civil de 101 páginas, a mulher alegou que, na noite de 19 de outubro de 2024, sete homens da unidade da fraternidade Chi Phi da Universidade Cornell a abusaram durante horas, em um episódio que envolveu álcool e a droga cetamina.

Na época, ela tinha 20 anos e era estudante de graduação em Cornell.

Jane Doe afirmou na ação que estava embriagada durante o suposto episódio e não tinha condições de consentir.

Segundo a ação, naquela noite ela deixou as colegas de sua irmandade estudantil depois de beber e "cambaleou sozinha" até a casa da fraternidade Chi Phi, na cidade de Ithaca, para encontrar um amigo.

A ação acusa os envolvidos de agressão sexual e agressão física, negligência, quebra de contrato e violações da Lei de Direitos Humanos de Nova York.

O processo foi movido contra a universidade, a fraternidade e a irmandade estudantil, além dos homens envolvidos no suposto ataque.

A ação inclui uma imagem que seria de um grupo de mensagens da fraternidade, na qual um participante teria alertado outros membros, em termos vulgares, sobre a possibilidade de um encontro sexual com Doe.

O advogado dela afirmou que, nos dias seguintes à agressão, ela estava "traumatizada, anestesiada e incapaz de funcionar ou aceitar o horror do que havia acontecido". Ela comunicou o caso à polícia da Universidade Cornell em 8 de novembro de 2024.

A indignação aumentou nas últimas semanas depois que Doe alegou, na ação, que os homens tiveram "a oportunidade de atenuar sua conduta entregando redações".

O advogado de Doe afirmou que dois dos envolvidos foram expulsos. Ele disse à CBS que a mulher abandonou a universidade depois do suposto ataque.

Em 21 de setembro, o conselho editorial do jornal feito por estudantes da universidade, o Cornell Daily Sun, publicou os nomes dos réus mencionados no processo, em um texto intitulado "Cornell Won't, We Will" ("Cornell não vai fazer isso; nós faremos"), provocando uma onda de indignação nas redes sociais.

O que havia nas mensagens do Snapchat e no grupo da fraternidade?

A Polícia da Universidade Cornell forneceu aos promotores, em novembro de 2024, uma imagem do grupo do Snapchat, intitulado Chi Phi Actives, como parte das provas do caso, informou a universidade.

Os membros são identificados no grupo e, pouco antes das 2h da manhã, no horário local, em 20 de outubro de 2024, discutem um encontro sexual "de graça" com Jane Doe, usando linguagem vulgar.

A CBS News New York também publicou trechos de outras mensagens de texto que teriam sido trocadas entre um dos réus e uma mulher que aparenta ser a autora das acusações.

As mensagens teriam sido enviadas dois dias depois da suposta agressão.

Em uma delas, um dos homens parece pedir desculpas por "como as coisas aconteceram".

Ele disse que sua memória estava "meio confusa" e que ele e outro homem se sentiam mal por terem ficado bêbados demais para "interromper a situação e mandar as pessoas embora antes que saísse completamente do controle".

A mulher na conversa respondeu dizendo que sua memória também estava "muito confusa" e que todos estavam intoxicados.

Ela também escreveu que "nenhuma das coisas sexuais foi ilegal" e que gostava de estar com ele e com outro homem.

Doe sugeriu que eles fumassem juntos novamente, mas sem "os outros cinco bilhões de homens e a cetamina".

Como a universidade respondeu?

A mulher disse que denunciou o caso à Polícia da Universidade Cornell duas semanas depois do ocorrido.

Pouco depois, a Universidade Cornell divulgou um comunicado público sobre as "alegações graves e profundamente perturbadoras de abuso de drogas e violência sexual na casa da fraternidade Chi Phi".

A universidade informou que o departamento de polícia do campus estava investigando o caso e que havia suspendido a unidade local da fraternidade Chi Phi, assim como "um número de estudantes".

Cornell também disse que havia aberto uma investigação interna, além de uma apuração de direitos civis com base na lei Title IX, que proíbe a discriminação sexual em instituições de ensino que recebem financiamento do governo federal, incluindo a maioria das universidades.

Após a nova ação judicial, a universidade contestou a alegação de Doe de que não havia investigado ou punido adequadamente os supostos autores.

A universidade afirmou, em um comunicado, que o caso foi encaminhado a um "painel formado por professores e funcionários treinados", que aplicou "uma série de sanções, incluindo expulsões e suspensões de Cornell".

Cornell não negou que, para alguns dos envolvidos, a punição tenha incluído a redação de um texto. A universidade afirmou: "Nenhum dos indivíduos acusados recebeu a oportunidade de escrever redações como única consequência de seu envolvimento".

Em um comunicado divulgado na terça-feira, Cornell disse que "suspensões temporárias e outras medidas restritivas" foram aplicadas quando o caso foi denunciado.

A universidade também afirmou que os acontecimentos ocorridos em seu campus em 2024 "foram chocantes naquela época e continuam sendo agora".

"Estamos fazendo tudo o que podemos para promover uma cultura na qual a má conduta sexual nunca seja tolerada", afirmou.

Na quarta-feira, a governadora do Estado de Nova York, Kathy Hochul, disse que conversou com o presidente da universidade, que concordou em permitir "uma investigação independente e externa sobre o que aconteceu".

"Eles entendem a importância disso", disse Hochul em uma publicação no X, acrescentando que "essa cultura precisa acabar". Cornell confirmou à BBC a realização da investigação independente.

O capítulo Xi da fraternidade Chi Phi foi fechado em 2024 e continua proibido de funcionar no campus.

O que a fraternidade disse?

Jane Doe incluiu a fraternidade Chi Phi entre os réus de sua ação civil, alegando que sofreu danos físicos e emocionais como resultado das ações da organização.

Trey Robb, diretor-executivo interino da fraternidade Chi Phi, afirmou em um comunicado que a organização expulsou os membros acusados da unidade de Cornell.

"De acordo com nossos registros, apenas três dias depois de 'Jane Doe' registrar uma denúncia à polícia, a unidade Xi votou por unanimidade pela retirada dos membros acusados de seu quadro", disse Robb.

"A unidade também recomendou que nossa fraternidade nacional os expulsasse permanentemente, e nosso Grande Conselho fez isso em uma reunião posterior."

A fraternidade "não comentará questões que estejam diante dos tribunais ou sob investigação", disse Robb.

Por que o caso está sendo reaberto?

O principal promotor do condado disse na segunda-feira que seu escritório reabriria uma investigação criminal sobre o suposto estupro.

Depois de determinar quais seriam as acusações cabíveis, o caso seria levado adiante "da forma mais objetiva e imparcial possível" por meio de um grande júri, disse Matthew Van Houten, promotor do condado de Tompkins.

No sistema jurídico dos EUA, os promotores convocam grandes júris para analisar provas e depoimentos e, posteriormente, votar se há elementos suficientes para apresentar acusações criminais.

O promotor disse que, na época da agressão, dois anos atrás, seu escritório concluiu que as provas contidas no depoimento da mulher às autoridades não atingiam o nível exigido pela lei para que fossem apresentadas acusações.

Ele disse que entrou em contato com Doe e seus advogados para obter mais informações enquanto se preparava para levar o caso a um grande júri.

Em seu comunicado, Van Houten incluiu um resumo do que Doe contou à Polícia da Universidade Cornell em 2024 após o suposto ataque, observando que o relato era diferente das alegações apresentadas na ação civil.

"O depoimento prestado sob juramento por Jane Doe em novembro de 2024 não alegava que ela havia sido drogada contra sua vontade ou estuprada por vários homens", disse Van Houten em um comunicado na segunda-feira.

"Pelo contrário, o depoimento de Jane Doe descrevia sua participação no uso de drogas e em atos sexuais como voluntária, consciente e consensual."

Um porta-voz da Universidade Cornell disse à BBC que seu departamento de polícia compartilhou um "extenso relatório de investigação policial" com o gabinete do promotor do condado de Tompkins.

Novos relatos detalharam o que Jane Doe contou à polícia da Universidade Cornell após o incidente.

A CBS News New York obteve uma transcrição das entrevistas de Doe com a polícia do campus, que começaram em 14 de novembro — mais de três semanas depois do incidente.

Ao falar sobre o primeiro encontro sexual, ela disse à polícia: "Eu estava bastante de acordo com tudo aquilo".

Mas, segundo a emissora, ela afirmou sobre o que aconteceu posteriormente: "Posso dizer com 100% de certeza que fui estuprada".

A ABC News também obteve um relatório policial de 15 de novembro, no qual Doe afirmou que, durante um dos encontros posteriores naquela noite, "sentiu que não conseguia tomar nenhuma decisão por causa do quanto estava intoxicada".

"Para mim, isso pareceu coerção", disse ela em seu depoimento. "Também senti que, por causa da minha intoxicação, eles deveriam saber o quanto eu estava intoxicada, pelo modo como eu estava falando enrolado."

A BBC entrou em contato com o gabinete de Van Houten e com o advogado de Doe.

Van Houten disse à CBS News que nunca havia visto a transcrição da entrevista com a polícia do campus.

Ele também disse ao New York Times, na quarta-feira, que esperava conversar com Jane Doe "para discutir novas evidências que existem".

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