O líder de seita apocalíptica que deixou quase 200 crianças morrerem de fome
O autoproclamado pastor Paul Mackenzie foi considerado culpado pela morte de 191 pessoas. Destas, todas, exceto uma, eram crianças.
O líder de uma seita apocalíptica no Quênia, Paul Mackenzie, e outros 28 membros foram condenados pelo assassinato de 191 pessoas, quase todas crianças. Preso em 2023 após a descoberta de mais de 400 corpos em covas rasas na floresta de Shakahola, o pastor ordenava que seus seguidores jejuassem até a morte para "encontrar Jesus", além de proibir a medicina moderna e a educação. Mackenzie, cujas vítimas sofriam abusos para cumprir a ordem, aguarda sua sentença prevista para o dia 6 de novembro.
Importante: esta reportagem contém detalhes que podem ser perturbadores para alguns leitores.
O líder de uma seita apocalíptica queniana, Paul Mackenzie, foi considerado culpado pelo assassinato de 191 pessoas. Todas elas, exceto uma, eram crianças.
Mackenzie ordenou que os membros da sua seita deixassem seus filhos passarem fome até a morte, para poderem "encontrar Jesus".
Sua doutrina proibia a educação e afirmava que a medicina moderna era "maligna".
Outros 28 líderes da seita também foram condenados por assassinato. Todos eles haviam se declarado inocentes e defenderam repetidamente que ninguém havia sido forçado a morrer.
Ao emitir seu julgamento por oito horas na cidade portuária de Mombasa, no Quênia, a juíza Diana Mochache afirmou que os seguidores de Mackenzie acreditavam que ele fosse "porta-voz de Jesus".
Um dos acusados declarou que Mackenzie havia dito aos seus seguidores que qualquer pessoa que "resistisse à ordem de jejuar deveria ser forçada a ir para o céu com socos e pontapés".
Os sepultamentos no interior da floresta onde ficava a seita eram chamados de "casamentos". Os mortos "eram homenageados como tendo se casado com Jesus", segundo a juíza.
Uma testemunha declarou que uma mulher grávida havia sido proibida de amamentar seu bebê recém-nascido, que morreu 12 dias depois. "Ela foi instruída a jejuar até a morte e seguir seus filhos", segundo a testemunha.
O ex-chefe de segurança de Mackenzie, Enos Amanya Ngala, foi inicialmente acusado, mas fez um acordo de confissão e se tornou testemunha da promotoria.
Mackenzie e outros líderes da seita também enfrentam vários outros processos judiciais, que incluem acusações de terrorismo, radicalização e negação de educação a crianças.
Mas esta é a primeira vez em que o pastor enfrentou o veredito pelas acusações mais sérias de assassinato. Ele deve receber sua sentença no dia 6 de novembro.
Mackenzie foi preso em 2023, após a descoberta de mais de 400 corpos em covas rasas na floresta de Shakahola, perto do litoral queniano, onde ele liderava seus seguidores vindos de todo o país.
Stephen Mwiti tem 48 anos. Ele conta que perdeu todos os seus seis filhos para a seita. Sua ex-esposa também foi condenada por assassinato, além de Mackenzie.
"Sou um homem feliz por todas as pessoas terem sido condenadas", contou ele à BBC, fora do tribunal.
"Todos os meus seis filhos morreram na floresta de Shakahola", declarou Mwiti antes do veredito. Visivelmente emocionado, ele segurava uma fotografia da sua família. "Só encontrei e enterrei os restos do meu filho Samuel.
Foram contratados 17 homens da cidade próxima para a terrível tarefa de escavar as covas rasas. Alguns deles receberam apenas US$ 8 (cerca de R$ 40) por dia.
"Cada cova que encontrávamos tinha pelo menos três corpos", conta James, um dos escavadores. "Alguns dos restos eram de crianças com poucas semanas de idade."
"Certa vez, encontramos 12 corpos de crianças enfileirados dentro de uma cova. Era enorme, os corpos estavam dispostos como se fossem roupas, um em cima do outro."
Os escavadores descreveram alguns dos corpos das crianças como tendo suas "mãos e pés amarrados e os corpos enrolados em lençóis".
Muitos dos seguidores de Mackenzie eram de outras partes do Quênia, mas alguns dos restos são de pessoas conhecidas da comunidade. O motivo é que os membros da seita, muitas vezes, visitavam a cidade próxima de Shakahola em busca de mantimentos e água do rio Galana, que atravessa o local.
"Às vezes, carregávamos pessoas na motocicleta em direção à floresta", conta outro escavador, Salim Karisa. "Mas era tão secreto e planejado que ninguém sabia dizer o que acontecia lá dentro."
Mackenzie fundou os Ministérios Internacionais da Boa Nova em 2003. Nos 16 anos seguintes, a popularidade da igreja aumentou, atraindo milhares de seguidores nas suas filiais por todo o Quênia.
Sua igreja mantinha uma estação de televisão chamada Times TV. Ela transmitia seus sermões, da sua igreja em Malindi, no sudeste do país.
Seus sermões dos Dias Finais incluíam teorias da conspiração que descreviam a educação como "maligna", a assistência médica como "contra a doutrina" e os documentos de identidade digitais como "marca do demônio".
O filho de Paul Mackenzie, Dan Paul Mackenzie, afirmou ter trabalhado como câmera na igreja. "As crianças se sentavam atrás, os adultos no meio e todos cantavam canções de louvor a manhã inteira", descreve ele.
O autoproclamado pastor começava seus ardentes sermões ao meio-dia. Alguns deles incluíam a "expulsão de demônios".
A igreja principal fechou em 2019 e Paul Mackenzie se mudou para a floresta de Shakahola, incentivando seus fiéis a segui-lo.
Peter Shukrani tem 23 anos. Ele conta que sua mãe se mudou para Shakahola com ele naquela época.
Ele começou a frequentar a igreja de Mackenzie quando tinha oito anos de idade e o descreve como seu "pai espiritual". Ele destaca que "nunca fala mal dele".
Na floresta, Shukrani ficou doente e sua condição se deteriorou porque as medicações eram proibidas.
"Minha mãe jogava fora todos os remédios que eu deveria tomar porque ela acreditava que apenas Deus poderia me curar", relembra Shukrani.
A comunidade foi descrita como composta por casas de barro espalhadas pela vasta floresta.
"Vivíamos uma vida normal, calma, jejuando por alguns dias e, depois, tendo uma pequena refeição", ele conta.
Os criadores de animais da região descobriram os primeiros restos mortais em março de 2023. Àquela altura, centenas de pessoas haviam morrido.
"Nós carregávamos alguns para fora da floresta, mas eles eram tão frágeis que morriam nos nossos braços", explica Salim Karisa, um dos escavadores.
Shukrani foi um dos homens resgatados da floresta. Ele estava doente e acamado há semanas, mas sua condição havia se agravado porque sua mãe jogava fora todas as medicações necessárias para sua recuperação.
"Minha mãe acreditava na doutrina do pastor Mackenzie, de que a medicina era maligna", explica ele. "Eu teria morrido se não tivesse sido resgatado da floresta de Shakahola."
Muitos dos corpos ainda não foram identificados, devido ao seu avançado estado de decomposição.
Nos documentos judiciais, vários deles são indicados como "meninos desconhecidos" e identificados pela localização do seu túmulo e data da descoberta.
Mesmo com o sofrimento imposto aos seguidores de Mackenzie — homens, mulheres e crianças que morreram de fome, estrangulamento ou foram espancados até a morte —, sem falar no seu próprio sofrimento, Shukrani acredita que Mackenzie é "uma pessoa boa, que se importa comigo".
"Mackenzie não forçou ninguém a jejuar. As pessoas fizeram estas escolhas por si próprias devido às suas crenças", declarou ele, antes do anúncio do veredito.
"Eu ainda o amo e ele continua sendo meu pastor."
Já Dan Mackenzie acreditava que seu pai deveria ser considerado culpado de assassinato.
"Ele foi o líder, ele era alguém que eles procuravam. Por isso, ele é um assassino em massa", declarou ele, antes do veredito.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.