Israel, Irã e países do Golfo impõem restrições à imprensa em meio à guerra
O conflito no Oriente Médio e o aumento das tensões regionais desencadearam uma onda de censura em países da região. Israel, Irã e monarquias do Golfo impõem restrições cada vez mais severas ao trabalho jornalístico e criminalizam a divulgação de imagens dos ataques.
Com informações do correspondente da RFI em Jerusalém, Michel Paul, e AFP
Desde junho de 2025, a censura militar israelense exige autorização por escrito para qualquer reportagem sobre zonas de conflito, sob alegação de que a mídia forneceria inadvertidamente informações a Teerã. Com o aumento dos lançamentos de mísseis iranianos, as regras para as coberturas foram drasticamente endurecidas. Além disso, as exigências agora são acompanhadas por ameaças de prisão e por um clima de extrema tensão para jornalistas.
Qualquer reportagem em áreas de impacto ou combate deve ser aprovada previamente por escrito. A censura ameaça processar criminalmente qualquer pessoa que documente os danos, enquanto uma lei de emergência em Israel prevê até cinco anos de prisão para a publicação de vídeos não autorizados, especialmente nas redes sociais.
O objetivo declarado do Exército israelense é técnico: impedir transmissões ao vivo, sobretudo por meio de câmeras fixas de agências de notícias. As imagens poderiam ser utilizadas em tempo real pelos serviços de inteligência iranianos para "corrigir os tiros", alegam os militares.
Na prática, porém, o resultado é mais severo. Os israelenses recebem apenas informações altamente filtradas sobre os danos reais causados pelos ataques do Irã ou do Líbano. O bloqueio vem acompanhado de um ambiente cada vez mais hostil para os repórteres. As autoridades já não são as únicas que impedem a liberdade de expressão. Militantes de extrema direita atacam fisicamente equipes de jornalistas em locais onde ocorreram impactos de mísseis na região de Tel Aviv.
Censura também no Irã
A censura não dificulta o trabalho jornalístico apenas em Israel. No Irã, o Ministério da Cultura e Orientação Islâmica controla a imprensa, e qualquer cobertura precisa passar por sua aprovação. Mesmo com permissões, jornalistas correm o risco de detenção. Muitos já foram presos e interrogados pelas forças de segurança.
A mídia estatal iraniana concentra as notícias em vítimas civis e danos materiais, evitando relatar perdas militares. O Ministério da Inteligência proibiu a divulgação de fotos de locais sensíveis, prédios e áreas atingidas. O governo pediu ainda que a população denuncie qualquer pessoa que fotografe essas áreas, e advertiu que os infratores podem ser classificados como "inimigos americano-sionistas".
Por isso, grande parte das imagens produzidas por agências em Teerã mostra apenas colunas de fumaça vistas à distância. Além da censura, os bombardeios constantes têm impactos físicos e psicológicos sobre os jornalistas, cujo sono é interrompido repetidamente por ataques aéreos noturnos.
Restrições no Golfo
As monarquias do Golfo também impuseram limitações severas ao trabalho da imprensa. No Catar, mais de 300 pessoas foram presas por publicar ou compartilhar imagens e "informações enganosas" durante os ataques iranianos. "Elas filmaram e divulgaram vídeos e publicaram informações enganosas e boatos", declarou o Ministério do Interior.
Nos Emirados Árabes Unidos, o procurador-geral Hamad Saif Al Shamsi alertou contra fotografar, publicar ou divulgar imagens dos danos causados por quedas de bombas ou destroços.
"Divulgar esse tipo de conteúdo ou informações imprecisas pode criar pânico e dar uma falsa impressão da situação real do país", afirmou.
As autoridades também expressaram preocupação com imagens geradas por inteligência artificial e alertaram que quem divulgar esse tipo de material será punido "sem clemência".
Na Arábia Saudita, a filmagem de instalações de energia e áreas diplomáticas — principais alvos dos ataques iranianos — já era rigidamente restringida mesmo em tempos de normalidade. A guerra intensificou ainda mais essas limitações. As autoridades costumam se recusar a comentar qualquer assunto além de comunicados oficiais. A assessoria de imprensa do tribunal saudita chegou a pressionar jornalistas a revelar a identidade de suas fontes.