Irã adverte Washington contra 'exigências excessivas' em negociações
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, advertiu nesta sexta-feira (27) que os Estados Unidos devem evitar "exigências excessivas" nas negociações em curso, esfriando o otimismo demonstrado no dia anterior após mais uma rodada de conversas em Genebra. Enquanto isso, a população iraniana sente no cotidiano o peso das ameaças norte-americanas e da incerteza que paira sobre o país.
As discussões, conduzidas de forma indireta e que devem continuar nos próximos dias, são vistas como a última oportunidade de evitar um confronto militar após o envio de um grande contingente de tropas norte-americanas ao Oriente Médio. Washington deslocou dois porta-aviões para a região, entre eles o Gerald Ford — o maior do mundo — que deixou uma base naval em Creta na quinta-feira (26).
Depois de seis horas de conversas indiretas com Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Donald Trump, Araghchi chegou a mostrar um cauteloso otimismo:
"Creio que fizemos um progresso importante. Conseguimos identificar os principais elementos de um possível acordo", declarou o chanceler iraniano.
Os dois países também decidiram enviar seus especialistas a Viena na segunda-feira (2), onde devem discutir detalhes do acordo na sede da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), com apoio técnico da organização. Uma nova rodada de negociações está prevista em seguida — e, desta vez, há possibilidade de encontros diretos.
Para afastar o risco de uma guerra, o ministro das Relações Exteriores de Omã viaja nesta sexta-feira a Washington, onde se reunirá com o vice-presidente dos EUA numa tentativa de reforçar a via diplomática.
Incerteza afeta economia e cotidiano no Irã
Em um pequeno bazar de Teerã, Behrouz, um comerciante de cerca de 40 anos, conta que o movimento despencou nas últimas semanas, deixando o negócio praticamente parado.
"O bazar está esvaziado. Todo mundo está esperando. Vamos entrar em guerra ou vai sair um acordo? Ninguém quer correr riscos", disse à RFI.
Tradicionalmente, o período que antecede o Ano Novo Iraniano é um dos mais movimentados. "Normalmente, temos muitos clientes e fazemos grandes encomendas para abastecer a loja. Este ano, pedimos só 10% do que costumávamos comprar", afirma.
Ele lembra ainda a tensão vivida durante a guerra de 12 dias em junho:
"Eles atacavam à noite, e tivemos que fechar as lojas por quase duas semanas. Hoje, as pessoas só pensam em proteger suas famílias. A incerteza virou parte do nosso dia a dia."
Embora muitos iranianos desejem um acordo para evitar a guerra, há aqueles — especialmente entre os que protestaram no início de janeiro — que veem uma eventual intervenção norte-americana como única saída.
A tensão é sentida por todos, e a sensação de incerteza aparece de forma marcante nos depoimentos da população.
Uma moradora, emocionada, resume o desejo de muitos: "Que cheguem a um acordo. Que todos façam concessões. Não sei... os políticos sabem mais. Mas nós dizemos: chega de guerra e chega de mortes. Todos sentimos o perigo, e isso está afetando nosso dia a dia".
Outro iraniano acredita que o conflito não deve acontecer — e vê estratégia por trás do aumento militar dos EUA: "Na minha opinião, não haverá guerra. Eles só querem fechar o acordo. O objetivo de Trump, ao enviar todas essas forças, foi pressionar o Irã. Mas ele viu que não estava funcionando. Os norte-americanos queriam que abandonássemos nosso programa de mísseis ou limitássemos o alcance a 300 quilômetros. Ou seja, que nos rendêssemos... para depois sermos atacados. Já vimos isso no Iraque, na Líbia e até na Síria."
Há também quem defenda a convivência pacífica e rejeite tanto o discurso de guerra quanto a demonização do Ocidente:
"Seria muito melhor se não usássemos navios de guerra nem ficássemos nos ameaçando. Em vez de fazer guerra, podemos fazer paz. Quando estou estressado, as pessoas em Israel, nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha também estão. Ninguém gosta de ver mísseis caindo e gente morrendo. Mas quando é a nossa pátria que está em jogo, é claro que queremos defendê-la."
As opiniões variam, mas todas revelam uma população exausta — e ciente de que qualquer decisão tomada em Genebra ou Washington pode transformar drasticamente suas vidas.
EUA recomendam saída de funcionários não essenciais de Israel
Em meio a ameaças de um ataque norte-americano ao Irã, os Estados Unidos recomendaram, nesta sexta-feira, que funcionários "não essenciais" deixem a embaixada em Israel. A embaixada em Jerusalém citou "riscos de segurança" e orientou que a saída seja feita "enquanto houver voos comerciais disponíveis".
O anúncio veio um dia após a terceira rodada de negociações entre Irã e EUA, mediada por Omã — considerada uma última tentativa de evitar uma guerra.
Segundo o New York Times, o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, enviou um e-mail ao corpo diplomático recomendando que quem desejasse partir deveria "fazê-lo HOJE".
A China também orientou seus cidadãos a evitarem viagens ao Irã devido ao "aumento significativo dos riscos externos à segurança".
Em junho, durante a curta guerra desencadeada por uma ofensiva israelense contra o Irã, Teerã respondeu com ataques em território israelense.
Washington afirma buscar impedir que o Irã desenvolva armas nucleares, algo que Teerã nega repetidamente. Em 19 de fevereiro, o presidente Donald Trump estabeleceu um prazo de "10 a 15 dias" para decidir se um acordo é possível ou se recorrerá ao uso da força.
Nesta sexta-feira, o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, afirmou estar "alarmado" com o risco de uma "escalada militar regional e suas consequências para a população civil".
Com RFI e AFP