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Guerra no Irã: saiba como a China se prepara há anos para enfrentar crises planetárias do petróleo

Maior importadora de petróleo do mundo, a China vem se preparando há anos para enfrentar um choque no mercado global do produto, combinando aumento de estoques estratégicos, diversificação de fornecedores e mudanças estruturais em sua matriz energética. A estratégia busca proteger a 2ª maior economia do mundo contra crises geopolíticas, conflitos ou interrupções nas principais rotas de abastecimento - riscos que voltaram ao centro das preocupações com a escalada da guerra envolvendo o Irã.

11 mar 2026 - 11h09
(atualizado às 11h12)
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Muitos países asiáticos dependem da importação de petróleo. Com a ameaça de interrupções no Estreito de Ormuz, por onde passa uma parte essencial do petróleo mundial, o risco é elevado. Para a China, maior importador de petróleo do mundo, essa crise também representa um teste estratégico: avaliar sua capacidade de enfrentar um choque energético em um contexto geopolítico cada vez mais instável.

Veículos fazem fila para abastecer em posto de combustíveis na China, em 9 de março de 2026.
Veículos fazem fila para abastecer em posto de combustíveis na China, em 9 de março de 2026.
Foto: © Liu Zhankun / China News Service / RFI

A crise envolvendo o Irã funciona como um teste real para a estratégia energética chinesa. Há muito tempo, Pequim teme que um conflito no Oriente Médio interrompa seus suprimentos de petróleo, essenciais para sua economia. Para reduzir esse risco, a China vem construindo progressivamente uma verdadeira "armadura energética".

Um dos pilares dessa preparação é a formação de grandes reservas de petróleo. Estimativas citadas por analistas do setor indicam que os estoques chineses, que incluem reservas estratégicas estatais e estoques comerciais, podem ultrapassar 1,2 bilhão de barris. Esse volume permitiria ao país cobrir cerca de 100 a 120 dias de importações em caso de crise. Nos últimos anos, Pequim investiu na construção de novos complexos de armazenamento ao longo do litoral e ampliou sua capacidade de estocar petróleo quando os preços internacionais recuam.

Esse movimento tem sido acompanhado por uma política ativa de importações. Dados da alfândega chinesa mostram que as compras externas de petróleo aumentaram em determinados momentos recentes, justamente quando os preços estavam mais baixos ou quando havia expectativa de instabilidade no mercado internacional. Segundo pesquisadores, essa estratégia permite ao país reforçar os estoques e criar uma margem de segurança diante de eventuais choques de oferta, um cenário considerado plausível caso o conflito envolvendo o Irã continue a afetar o fluxo de petróleo no Golfo.

Outro elemento central da estratégia chinesa é a diversificação das fontes de abastecimento. A China importa petróleo de dezenas de países, incluindo produtores do Oriente Médio, da África, da América Latina e da Rússia. Essa diversificação busca reduzir a dependência de um único fornecedor ou de uma única região do planeta, diminuindo os riscos associados a conflitos ou sanções internacionais.

Petróleo mais barato com países que sofreram sanções ocidentais

Nos últimos anos, por exemplo, a Rússia se tornou um dos principais fornecedores de petróleo da China, em parte graças a descontos oferecidos após as sanções impostas por países ocidentais. Pequim também mantém relações energéticas com produtores que enfrentam restrições no mercado internacional, como o próprio Irã ou a Venezuela. Em alguns casos, esses acordos permitem à China adquirir petróleo a preços mais baixos, reforçando tanto a segurança energética quanto a competitividade econômica do país.

O Irã ocupa um papel particular nesse contexto. Mesmo sob sanções internacionais, o país continua exportando volumes significativos de petróleo para a China, muitas vezes por meio de canais indiretos ou embarques rotulados como originários de outros países. Analistas consideram que, em caso de agravamento do conflito na região, essas exportações poderiam ser definitivamente afetadas, o que teria impacto sobre o mercado global e sobre os fluxos energéticos que abastecem a economia chinesa.

Além do risco direto sobre as exportações iranianas, o principal temor está relacionado ao Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde transita cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo. O bloqueio ou perturbação nessa rota marítima, cenário frequentemente mencionado em momentos de tensão envolvendo o Irã, já vem provocando uma alta abrupta dos preços internacionais e comprometendo o abastecimento de diversos países importadores, entre eles a China.

Paralelamente à diversificação das importações, o governo chinês tem incentivado o aumento da produção doméstica. Empresas estatais do setor energético investem na exploração de novos campos e no desenvolvimento de tecnologias capazes de extrair petróleo de reservas mais difíceis, incluindo áreas offshore ou depósitos geológicos mais complexos. Apesar desses esforços, a produção interna ainda cobre apenas uma parte da demanda do país, que continua altamente dependente do petróleo importado.

Transformação da matriz energética

A transformação da matriz energética também faz parte da estratégia de longo prazo. A China lidera a expansão global das energias renováveis e tem promovido políticas para acelerar a eletrificação do transporte. O país se tornou o maior mercado de veículos elétricos do mundo e investe em infraestrutura de recarga, além de ampliar a produção de energia solar e eólica. A ideia é reduzir gradualmente o peso do petróleo no consumo energético e diminuir a vulnerabilidade da economia a choques no preço do barril.

Mesmo com essas medidas, especialistas destacam que a China continua exposta às turbulências do mercado internacional. O país é hoje o maior importador de petróleo do mundo, e grande parte de suas importações chega por rotas marítimas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela significativa do comércio global de energia. Qualquer crise que afete essas rotas, seja por conflitos, bloqueios ou tensões geopolíticas, pode ter impacto direto sobre o abastecimento.

Ainda assim, analistas consideram que o conjunto de políticas adotadas nas últimas duas décadas oferece à China uma margem de manobra maior do que no passado. A combinação de estoques elevados, fornecedores diversificados e uma transição energética em andamento tende a amortecer os efeitos de eventuais choques no mercado mundial de petróleo, mesmo que não elimine completamente os riscos associados à dependência externa de energia.

No contexto da guerra envolvendo o Irã, essa dependência energética explica a cautela de Pequim. A China tem defendido publicamente a necessidade de evitar uma escalada regional mais ampla e de preservar a estabilidade das rotas comerciais. Para analistas, a combinação de estoques elevados, fornecedores diversificados e uma transição energética em andamento oferece ao país alguma margem de manobra diante de uma eventual crise no Golfo, ainda que não elimine completamente os riscos associados a um conflito prolongado na região.

(Com agências)

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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