Guerra no Irã causa série de protestos, tumultos e até morte em países muito dependentes do petróleo
Fechamento do Estreito de Ormuz desencadeou crise global nos preços de combustíveis e energia que se converteu em violência
Logo após os primeiros ataques americanos e israelenses ao Irã, Longas filas se formavam em um posto de gasolina de Sialkot, uma cidade no interior do Paquistão, quando um motorista desceu do carro e pediu para que o frentista enchesse dois galões de gasolina para ele. O funcionário se negou, pois é ilegal no país vender combustível em galão. O motorista foi embora furioso. Uma hora depois, retornou armado e matou o trabalhador.
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A morte do frentista paquistanês em 8 de março é um exemplo dramático do efeito dominó provocado pela guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã no consumo global de energia. A principal retaliação iraniana ao conflito — o fechamento do Estreito de Ormuz — tem ampliado os preços dos combustíveis em diversos países, com consequências que, em alguns casos, têm saído do controle.
Nos países que mais dependem do petróleo como fontes de combustível saques e protestos se espalham. Alguns já enfrentam desabastecimento. Os mais afetados são países da Ásia , altamente dependentes do petróleo do Golfo.
Nas Filipinas, o governo decretou emergência nacional pelo risco de desabastecimento de energia. Em Bangladesh, grupos criminosos invadem postos de gasolina à noite para roubar combustível. O Sri Lanka está fazendo racionamento de combustível por meio de QR Code. Mortes como a do frentista do Paquistão também foram relatadas na Índia e em Bangladesh.
Companhias aéreas da Europa, Índia, Nova Zelândia e Estados Unidos cancelaram voos por causa do exorbitante preço do combustível de avião. A União Europeia e o Reino Unido já temem um apagão aéreo pela crise. Só a alemã Lufthansa fala em cancelar 20 mil voos nos próximos meses.
Fazendeiros protestam dirigindo lentamente seus tratores para denunciar a falta de combustível para máquinas agrícolas na Irlanda, na França e na Noruega.
Na África e na Ásia, governos estão orientando as populações a desligar o ar condicionado, em países onde o calor pode chegar a 40 ºC. No inverno a situação pode ficar ainda pior sem gás para aquecimento. No Caribe, haitianos queimam pneus em protestos contra o aumento de preços. Na Oceania, Austrália e Nova Zelândia orientam a não fazer viagens longas ou, se for necessário, optar por ônibus.
O FMI projetou que o crescimento da economia mundial será muito menor do que o previsto por causa desta guerra. As idas e vindas sobre o destino do Estreito são mais um indício de que vai demorar para a situação se normalizar. Economistas estimam que a crise vai se agravar se o preço do barril de petróleo ultrapassar a barreira dos US$ 100.
Insatisfação que pode sair do controle
Medidas de racionamento, fechamento de comércios e limitação de deslocamentos que foram adotadas por alguns governos também têm elevado os ânimos em países mais vulneráveis.
A socióloga Naomi Houssain, professora da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres que estuda a correlação entre alta dos preços da energia e insatisfação popular explica que esse tipo de crise não se trata apenas de uma explosão de raiva popular, mas de sentimento de traição em relação ao governo, independentemente de qual tipo de regime a qual elas estão submetidas.
O que os governos estão fazendo, e o que eles deveriam fazer
É por isso que governantes olham para estes humores exaltados com bastante preocupação, pois são muitos os precedentes de caos político e até governos derrubados pela fúria causada por aumento de preços.
Casos recentes ocorreram no Haiti, no Paquistão e no Sri Lanka. Outros exemplos históricos envolvem a Alemanha durante a República de Weimar (1918 - 1933) e a Primavera Árabe de 2011.
Em uma tentativa de conter este cenário, a Agência Internacional de Energia (AIE) publicou em seu site um guia para que as nações adotem medidas que ajudem a mitigar os impactos, entre elas: trabalho e aulas remotos, redução de velocidade nas vias, promoção do transporte público, entre outros.
Subsídios, um remédio paliativo
Os governos têm adotado diferentes medidas de acordo com suas realidades. Desde o fechamento de escolas e universidades, como em Bangladesh; até determinar home office para servidores públicos, como no Peru, Egito, Laos, Camboja e outros.
A maioria, contudo, tem apostado em duas estratégias: redução de impostos para energia e combustíveis e ampliação de subsídios a esses mesmos produtos. Medidas que podem ser eficientes em tempos de crise como esta, explica o economista pela Universidade de Oxford Neil McCullouch, que é especialista em energia e subsídios. O problema, diz, é que estas não são políticas sustentáveis no médio e longo prazo.
"Os governos estão fazendo o que precisam fazer politicamente. Quando há um grande choque, confiamos em nossos governos para que tomem alguma atitude, por que é para isso que eles servem: para nos proteger", explica.
"Mesmo que as pessoas saibam que esta crise não é culpa de seus governos, elas esperam que eles as ajudem porque são eles que têm o dinheiro".
Promover subsídios e reduzir impostos permite um certo respiro aos governantes. Mas se a guerra se prolongar por muito mais tempo, essas políticas não serão suficientes para impedir a chegada da crise. Ou até mesmo se a guerra acabar em breve, remover os subsídios e voltar a aumentar os impostos tende a ser tão impopular quanto aumentos espontâneos de preço. No fim, pode ser que os países estejam apenas jogando o problema para o futuro.
"É por isso que são tão difíceis de remover os subsídios, porque causam dor quando são retirados, e as pessoas expressam essa raiva contra isso, considerando-a uma culpa direta do governo. Remover subsídios é uma ótima forma de cometer suicídio político", afirma o economista.
As políticas mais saudáveis, defende McCullouch, são as de racionamento de combustíveis para priorizar os serviços essenciais, como ambulância, polícia e transporte público. E, se optar por subsídios, aplicá-los somente às populações vulneráveis, para conseguir retirá-los depois em momentos de pouca turbulência.
Uma lição não aprendida
Esta não é a primeira vez que o mundo se vê diante de distúrbios por causa do aumento de preço de commodities. O mesmo cenário ocorreu em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia. Como punição, os países ocidentais impuseram sanções ao petróleo e ao gás russos, reduzindo drasticamente a oferta para Europa e Ásia.
O conflito também afetou a cadeia de suprimento de comida, disparando a inflação mundial e levando a tumultos por causa do preço dos alimentos, especialmente na Ásia e na África.
Naomi Houssain lista ao menos quatro ondas de protestos assim só neste século: 2022, em 2019 por preço da energia, durante a Primavera Árabe em 2011 e protestos contra escassez de alimentos em 2008.
"O preço da energia se tornou um dos assuntos politicamente mais sensíveis, e acho que os governos não perceberam a rapidez com que isso se tornou um tema tão delicado", diz Houssain. "Além disso, acho que eles estão tendo muita dificuldade para fazer algo a respeito. Muitos tentarão migrar para energias renováveis ??agora, mas esse é um processo longo. Não é algo que se possa fazer na semana que vem."
Para a pesquisadora, os países perderam uma oportunidade de aprender com as crises anteriores, especialmente a da Ucrânia, para repensar suas matrizes e dependências energéticas. Somente agora, após o fechamento do Estreito, a busca por energias renováveis se tornou uma corrida.
Em uma das mais importantes conferências de energia do mundo, a CERAWeek, que foi realizada em Houston em março deste ano, executivos alertaram que pensar em meios alternativos já não é apenas um tema das mudanças climáticas, mas uma questão de segurança.
"Acho que não foi totalmente compreendido antes deste conflito a nossa dependência dos combustíveis fósseis do Golfo", alerta Neil McCulloch. "Temos países africanos cuja fonte de abastecimento de combustíveis fósseis depende inteiramente disso, e o Golfo fica congestionado. Assim, países inteiros podem ficar sem reservas e suas economias podem parar completamente como resultado dessa crise. É uma crise muito séria."
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