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Falta de liderança clara no Irã e sinais contraditórios dos EUA ampliam impasse no Oriente Médio

A decisão do presidente dos Estados Unidos Donald Trump de manter um cessar‑fogo sem prazo definido, mas ao mesmo tempo preservar o bloqueio aos portos iranianos no Estreito de Ormuz, agrava a instabilidade no Golfo Pérsico e dificulta qualquer avanço diplomático com Teerã. Essa é a opinião do diplomata francês Gérard Araud, ex‑embaixador da França nos Estados Unidos, em Israel e junto às Nações Unidas, em entrevista à RFI. O cenário se tornou ainda mais tenso após três navios porta-contêineres terem sido alvo de disparos, nesta quarta-feira (22), no entreito.

22 abr 2026 - 12h32
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De acordo com Gérard Araud, o momento atual é marcado por uma combinação perigosa: ausência de interlocutores claros no regime iraniano e mensagens contraditórias vindas da Casa Branca. 

Navios no Estreito de Ormuz, em 22 de abril de 2026.
Navios no Estreito de Ormuz, em 22 de abril de 2026.
Foto: REUTERS - Stringer / RFI

O diplomata explica que mesmo em períodos de estabilidade, a República Islâmica do Irã sempre funcionou com vários centros de poder. "Durante as negociações do acordo nuclear, quem exercia o papel de árbitro final era o líder supremo. Hoje, porém, o país vive uma situação inédita: sob bombardeios, sem uma liderança claramente capaz de tomar decisões estratégicas", diz o diplomata. 

O antigo líder supremo foi assassinado, e seu sucessor estaria gravemente ferido, sem condições de exercer plenamente o poder. Desde então, nenhuma aparição pública ocorreu, o que reforça a percepção de um vácuo decisório. Nesse contexto, forças que já existiam — como a Guarda Revolucionária, altamente ideológica e com forte controle econômico, os círculos religiosos e os tecnocratas mais pragmáticos — passaram a disputar influência sem um comando central. 

Esse desequilíbrio interno, explica Araud, tende a gerar tensões profundas dentro do regime iraniano, especialmente sobre o caminho a seguir: ceder às pressões internacionais ou prolongar o confronto, apostando no desgaste político de Donald Trump

"Dois vencedores"

Para o diplomata, "o principal entrave às negociações é que ambos os lados se veem como vencedores". Do ponto de vista militar, Estados Unidos e Israel detêm ampla superioridade aérea e capacidade de bombardear alvos iranianos quando desejarem. Já o Irã sustenta que obteve uma vitória estratégica ao deslocar o conflito para o Estreito de Ormuz, ameaçando não apenas adversários diretos, mas a economia global. 

Em um cenário no qual cada parte acredita ter vantagem, negociar se torna extremamente difícil. "É complicado chegar à mesa quando nenhum dos dois admite que precisa ceder", avalia Araud. 

Esse impasse ajuda a explicar a decisão iraniana de não enviar representantes para negociações anunciadas no Paquistão. Para Teerã, aceitar dialogar enquanto o bloqueio americano ao estreito segue em vigor seria uma humilhação.

"O Irã valoriza profundamente o prestígio nacional e exige ser tratado como um ator soberano em pé de igualdade", acrescenta Araud. 

A postura de Donald Trump, ao anunciar publicamente que havia "vencido" e, ao mesmo tempo, manter sanções e bloqueios, foi vista como inaceitável pelos iranianos. "Eles são negociadores meticulosos, que discutem palavra por palavra. Esse tipo de contradição pública não funciona com Teerã", observa o ex‑embaixador. 

"É possível confiar nos EUA?" 

Araud destaca ainda o que chama de "inconsistência americana" — um presidente que anuncia acordos e, pouco depois, os desmente. Um exemplo citado é o caso do Líbano: enquanto mediadores afirmavam que havia um cessar‑fogo envolvendo Israel, Irã e Estados Unidos, Trump negava publicamente que tal trégua existisse. 

Esse padrão mina a confiança internacional nos Estados Unidos. "Qualquer país acaba se perguntando: posso confiar nos americanos?", resume o diplomata. 

Questionado se essa imprevisibilidade poderia ser uma estratégia calculada para explorar divisões internas no Irã, Araud é cético. Para ele, procurar coerência onde não há pode ser um erro analítico. Na avaliação do ex‑embaixador, os discursos de Trump tornaram‑se cada vez mais erráticos, a ponto de gerar preocupação dentro do próprio sistema de defesa norte‑americano. Segundo ele, já é de conhecimento público que setores militares tentam restringir o acesso do presidente às decisões estratégicas, por receio do que ele possa fazer — ou declarar publicamente. 

"Coerência iraniana" 

Enquanto isso, o Irã segue agindo de forma que Araud classifica como "coerente e eficaz" dentro de uma lógica de país militarmente mais fraco. O fechamento do Estreito de Ormuz afeta diretamente o comércio global e pode provocar uma crise econômica internacional. E, sempre que é atacado, o Irã responde rapidamente na mesma moeda: bombardeios a infraestrutura energética do país foram seguidos por ataques a campos de gás no Catar; a apreensão de um petroleiro por forças americanas foi respondida pela interceptação de navios no Golfo. 

Na visão do diplomata, essa estratégia de retaliação simétrica tem sido aplicada com consistência tanto no plano militar quanto político. 

Com eleições presidenciais previstas para novembro nos Estados Unidos, Trump enfrenta um contexto doméstico desfavorável. A guerra é impopular, e o impacto econômico do fechamento do Estreito de Ormuz tende a pesar ainda mais sobre o eleitorado americano. O diplomata avalia que a trégua prolongada indicada pela Casa Branca pode representar uma pausa, mas "dificilmente significa o fim do conflito". 

"O risco é o prolongamento do conflito sem uma solução real", alerta Araud. Para ele, enquanto o Estreito de Ormuz permanecer fechado, a pressão econômica continuará crescendo — inclusive nos Estados Unidos. A aposta iraniana, segundo o ex‑embaixador, é clara: a tolerância de Donald Trump ao custo político e econômico da crise seria menor do que a do regime iraniano. 

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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