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Falsos rumores, mortes reais: Por dentro da crise de desinformação sobre saúde no Congo

7 mai 2026 - 12h29
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Em Tshopo, uma província do nordeste congolês coberta pela floresta tropical, rumores se espalharam pelos vilarejos no final do ano passado alegando que ‌uma doença misteriosa havia causado a atrofia dos órgãos genitais masculinos.

Em poucos dias, multiplicaram-se depoimentos nas redes sociais que amplificaram a ameaça imaginária, desencadeando um pânico na vida real que se tornou mortal antes que o governo pudesse reagir.

Em outubro, multidões enfurecidas atacaram e mataram quatro profissionais de saúde que realizavam pesquisas de vacinação, segundo quatro funcionários e um sobrevivente disseram à Reuters -- um exemplo do crescente perigo mortal representado pela desinformação online sobre saúde na África.

Desde então, a violência se espalhou para outras partes da República Democrática do Congo. Ao todo, foram registrados pelo menos 17 assassinatos relacionados ao boato da atrofia, incluindo os profissionais de saúde, de acordo com a Aliança de Resposta à Infodemia da África (AIRA), que monitora informações falsas sobre saúde sob a liderança da Organização Mundial da Saúde (OMS). A Reuters não conseguiu verificar de forma independente as outras mortes.

No Congo, a desinformação "realmente ⁠levou à morte e ao assassinato", disse Elodie Ho, diretora da AIRA, que tem sede em Nairóbi. "Começou nas comunidades. Espalhou-se pelas redes sociais e pela mídia local. Foi amplificada por esses atores".

Uma análise de mais de uma dúzia ‌de depoimentos revelou que as igrejas ajudaram a espalhar os boatos em Tshopo. Contas no exterior e a imprensa local também.

Para entender os eventos de outubro em Tshopo e a disseminação de desinformação em outros lugares da África, a reportagem examinou estudos médicos e conversou com pelo menos 20 pessoas, incluindo autoridades locais e regionais, profissionais de saúde e especialistas.

Em resposta à Reuters, o porta-voz do governo de Tshopo disse que as autoridades locais ‌levaram o boato a sério, investigando as alegações de cinco supostas vítimas, e não encontraram nenhuma evidência de que a doença fosse ‌real.

O governo tomou medidas para punir os responsáveis por alimentar o pânico. Um tribunal local condenou um homem que acusou outro de espalhar a doença a 12 meses de prisão, e cerca de uma ⁠dúzia de pessoas foram presas, disseram o porta-voz e outra autoridade local.

DESCONFIANÇA BASEADA NO PASSADO COLONIAL

Prevalecente em muitas partes do mundo, inclusive nos Estados Unidos, a falta de fé na medicina estabelecida em partes da África está parcialmente enraizada tanto na era colonial quanto nos testes clínicos ocidentais mais recentes.

Essa desconfiança é incentivada pela inteligência artificial e pelo uso generalizado das redes sociais, de acordo com o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (África CDC). O acesso desigual à saúde, o estado de direito frágil e o uso das redes sociais contribuem para a proliferação de boatos.

O Dr. Jean Kaseya, diretor-geral do África CDC, disse que as informações falsas estavam afastando as pessoas de tratamentos que salvam vidas.

"Quando a população não confia nas vacinas, nos profissionais de saúde ou nas políticas governamentais, isso significa que ela não tem acesso aos serviços que podem ajudá-la a sobreviver", disse.

Assim como no Congo, ‌foram registrados ataques a líderes comunitários e profissionais de saúde em Moçambique e Malauí, ligados a informações falsas relacionadas à cólera.

Uma linha telefônica da OMS para combater a desinformação sobre saúde e fornecer orientações confiáveis viu as chamadas aumentarem de ‌3.331 no primeiro trimestre de 2025 para 31.636 no seguinte.

Outro projeto da ⁠OMS, que acompanha as interações com as comunidades, registrou cerca ⁠de 500 incidentes desde seu lançamento no ano passado, todos relacionados a rumores, teorias da conspiração e outras informações falsas.

IGREJAS E A CURA

O Dr. Bavon Tangunza, gerente da AIRA no Congo, recebeu um aviso sobre a falsa doença em ⁠Tshopo no início de outubro, segundo ele, quando um colega sinalizou que o boato estava se espalhando na província.

Os depoimentos em vídeo das supostas ‌vítimas logo apareceram online.

Um deles mostrava um motorista de táxi em ‌uma reunião cristã em Tshopo, contando como o pastor da megaigreja Jules Mulindwa, da Igreja Pentecostal Luz do Mundo, localizada em Kisangani, o havia curado com orações.

O homem não apresentou provas, e a Reuters não o identificou pelo nome. A reportagem não conseguiu determinar quem filmou o vídeo, que traz o logotipo da igreja e teve grande alcance nas redes sociais. 

Autodenominado profeta e com milhares de seguidores no TikTok, Mulindwa não respondeu aos pedidos de comentário da Reuters.

Outro vídeo, postado online por uma igreja local chamada Assemblée Chrétienne de Kisangani em 3 de outubro, mostra o pastor Christophore Kabamba na igreja alegando ter uma ⁠cura milagrosa. A instituição também não respondeu aos pedidos de comentário.

James Baka, um estudante universitário de Kisangani que aparece na filmagem, disse à Reuters em uma mensagem no Facebook que viu outras pessoas serem curadas milagrosamente pelo pastor.

O TikTok e o Facebook, que proíbe informações prejudiciais à saúde, mas encerrou os programas de verificação de fatos que ajudavam a detectar esse tipo de conteúdo nos EUA, não responderam imediatamente às perguntas da Reuters.

A Tshopo Kwetu, uma agência de notícias local, também compartilhou publicações sobre a falsa doença. O diretor Gaston Mukendi disse à Reuters que seu veículo publicou informações de fontes diversificadas, de acordo com suas obrigações jornalísticas.

ATAQUES EXPÕEM VULNERABILIDADE DO SISTEMA DE SAÚDE

A violência eclodiu em 6 de outubro, quando os profissionais de saúde chegaram aos vilarejos da área de Isangi, ‌em Tshopo, para realizar pesquisas sobre vacinação.

No vilarejo de Ilambi, jovens os acusaram de espalhar secretamente a falsa doença quando viram pessoas de fora usando coletes de alta visibilidade e carregando tablets, de acordo com as autoridades locais e Jean-Claude Kengefuku Mbatu, um membro da equipe de profissionais de saúde que escapou.

Dois outros membros do grupo, Placide Mbungi e John Tangakeya, ambos médicos, tentaram explicar sua pesquisa sobre vacinas, mas foram ⁠mortos no local.

"Eles o queimaram vivo, sem deixar qualquer sinal dele para mim", disse à Reuters a viúva de Tangakeya, Justine Tangakeya Basekauke.

No vilarejo vizinho de Yafira, seus pares Mathieu Mosisi e Kevin Ilunga buscaram ajuda de um policial próximo, mas uma multidão enfurecida também os matou, disse à Reuters a oficial de saúde de Tshopo, Marie Jeanne Lebe, após a conclusão de uma análise do incidente.

A Reuters não pôde verificar de forma independente todos os eventos que envolveram as mortes.

FALSO E PERIGOSO

No dia seguinte às mortes, em 7 de outubro, o gabinete do governador emitiu uma declaração impressa e publicada online declarando que os rumores eram falsos e perigosos.

No mês seguinte, Tangunza, da AIRA, ajudou a elaborar mensagens para serem transmitidas nos idiomas locais pelo rádio, online e por meio de agentes comunitários, e realizou workshops para preparar respostas a futuras crises de desinformação.

Mas os boatos continuam a ressurgir, meses depois.

Em um incidente ocorrido em março, uma mulher na província de Lualaba, no Congo, foi acusada de espalhar a doença e linchada, enquanto uma segunda pessoa sobreviveu ao ataque, disse a AIRA, citando notícias da mídia local. A Reuters não conseguiu verificar os relatos de forma independente.

Para complicar ainda mais os esforços de combate às informações falsas, os cortes na ajuda externa dos EUA e de outras nações no ano passado deixaram a AIRA com poucos recursos, disse a diretora Ho à Reuters.

Um dos financiadores da AIRA, a Fundação Gates, disse que uma doação para a AIRA estava ativa até dezembro, mas não informou se outras doações estão sendo consideradas.

A AIRA agora tem equipe em apenas três países, incluindo Tangunza, no Congo, em vez de cinco.

Uma plataforma de IA criada para rastrear conversas online a fim de monitorar informações falsas está fora do ar porque não há dinheiro para as assinaturas mensais com os provedores, disse Ho.

O escritório regional da OMS disse que estão em andamento negociações para garantir financiamento para sustentar e ampliar o trabalho da AIRA.

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