Irã adverte EUA sobre risco de impasse militar em Ormuz e diz que confronto ainda 'nem começou'
Um dia após novos confrontos armados no Estreito de Ormuz, autoridades iranianas endureceram o discurso contra os Estados Unidos e alertaram para o risco de um impasse militar prolongado na principal rota de escoamento de petróleo do mundo. As declarações ocorreram após operações militares simultâneas de Washington e Teerã no Golfo, ataques atribuídos ao Irã pelos Emirados Árabes Unidos e novas restrições à navegação. Apesar da escalada, o Irã afirmou que uma saída diplomática ainda é possível.
Siavosh Ghazi, correspondente da RFI em Teerã, e AFP
A tensão em torno do Estreito de Ormuz voltou a subir após Estados Unidos e Irã realizarem, nesta segunda-feira (28), intervenções militares no Golfo Pérsico. Washington afirmou tentar reassumir o controle da navegação na passagem estratégica, enquanto Teerã declarou reagir ao que classificou como bloqueio marítimo norte-americano ao atingir, entre outros alvos, uma infraestrutura petrolífera nos Emirados Árabes Unidos.
O agravamento da crise ameaça a trégua anunciada há quase um mês com mediação do Paquistão. Nenhum avanço foi registrado desde o impasse das negociações realizadas em Islamabad, nos dias 11 e 12 de abril.
Dois dias depois de afirmar ao Congresso dos Estados Unidos que a guerra havia terminado, contornando o calendário que exigiria autorização dos parlamentares para a operação militar contra o Irã, o presidente Donald Trump anunciou no domingo à noite o chamado "Projeto Liberdade". A iniciativa tem como objetivo permitir a saída de navios comerciais retidos no Estreito de Ormuz.
Passagem essencial para o abastecimento energético global, o estreito foi, na prática, fechado pelo Irã após o início da campanha de bombardeios conduzida por Estados Unidos e Israel, em 28 de fevereiro.
Navios comerciais que operam na área relataram, nesta segunda-feira, explosões ou incêndios a bordo. O Exército norte-americano afirmou ter destruído seis pequenas embarcações militares iranianas e declarou que dois navios comerciais norte-americanos cruzaram o Estreito de Ormuz. As informações foram negadas por Teerã, que lançou drones e mísseis contra os Emirados Árabes Unidos, provocando um incêndio no porto petrolífero de Al‑Fujairah, um dos mais importantes do país.
Mesmo com o anúncio de trégua feito por Donald Trump em 16 de abril, os combates também prosseguiram no Líbano, onde Israel e o Hezbollah continuam trocando ataques. O Exército israelense, que invadiu o sul do Líbano no início de março, mantém operações terrestres e a destruição de localidades. Nesta segunda-feira, as Forças de Defesa de Israel emitiram novas ordens de evacuação, em uma estratégia de deslocamento forçado semelhante à aplicada na Faixa de Gaza.
As principais Bolsas europeias passaram a precificar um cenário mais adverso, com expectativa de queda, diante do afastamento da perspectiva de uma trégua duradoura entre Estados Unidos e Irã. O mercado de petróleo, porém, registrou leve recuo após ter subido quase 6% na véspera, após a Marinha norte-americana conseguir escoltar um navio da empresa Maersk pela passagem de Ormuz.
"Nem começamos"
Nesta terça-feira (29), o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o Irã ainda "nem começou" seu confronto com os Estados Unidos, em referência aos choques ocorridos no dia anterior no Estreito de Ormuz.
"Sabemos muito bem que a continuação da situação atual é insustentável para os Estados Unidos, enquanto nós ainda nem sequer começamos", escreveu Ghalibaf em persa na rede social X. Ele é uma das figuras mais influentes do regime e lidera o grupo iraniano nas discussões destinadas a encerrar a guerra.
O parlamentar acrescentou que os Estados Unidos e seus aliados colocaram em risco a segurança do transporte marítimo e energético e avaliou que a "presença nociva" dessas forças no Oriente Médio está em declínio.
Saída diplomática em aberto
Apesar do discurso de confronto, o Irã não descartou completamente uma solução negociada. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, afirmou em sua conta na rede X que os acontecimentos no Estreito de Ormuz demonstram que crises políticas não têm solução militar.
Segundo Araghchi, graças à mediação do Paquistão, as negociações continuam avançando, ainda que sem resultados concretos até o momento. Ele advertiu que os Estados Unidos precisam agir com cautela para não cair novamente em uma armadilha preparada por atores que classificou como mal‑intencionados — alerta que também dirigiu aos Emirados Árabes Unidos.
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