Visita de príncipe saudita à França gera críticas e expõe desafios no contexto da crise no Oriente Médio
A visita do príncipe herdeiro da Arábia Saudita a Paris começou neste domingo (23) com a cerimônia de encerramento da Esports World Cup e prossegue na segunda-feira (24), quando devem ser assinados numerosos acordos econômicos entre França e Arábia Saudita. Diversos sindicatos de jornalistas franceses condenaram a visita de Mohammed bin Salman, que consideram uma "provocação" aos defensores da liberdade de imprensa.
A visita do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman a Paris busca fortalecer laços econômicos e energéticos com a França e debater as crises no Oriente Médio com o presidente Emmanuel Macron. Apesar da previsão de diversos acordos comerciais em setores estratégicos, a viagem gerou forte repúdio de sindicatos de jornalistas franceses, que classificaram o convite como uma provocação devido a violações aos direitos humanos e ao assassinato de Jamal Khashoggi em 2018.
A França deposita grandes expectativas na visita de dois dias do príncipe herdeiro saudita à capital francesa. Segundo o Palácio do Eliseu, sede da Presidência da República, a viagem será uma oportunidade para a assinatura de "numerosos acordos". A vinda de Mohammed bin Salman reflete o "dinamismo da relação franco-saudita em um contexto regional tenso". A visita ocorre em meio ao cenário complexo da guerra no Oriente Médio.
"Alguns projetos ainda estão em discussão, mas haverá muitos acordos econômicos em diferentes setores. Eles serão assinados na segunda-feira", informou o Eliseu. A presidência francesa cita áreas como transportes, energia e saúde.
No âmbito ministerial, também está prevista para segunda-feira uma reunião para discutir a diversificação das rotas de abastecimento energético, enquanto o Estreito de Ormuz, uma via marítima estratégica para o transporte de hidrocarbonetos, permanece bloqueado pelo Irã.
Há ainda expectativa sobre a possível concretização de um projeto entre autoridades francesas e uma empresa de investimentos saudita para implantar, na região de Paris, um parque temático inspirado na franquia Dragon Ball. No entanto, o projeto ainda não foi oficialmente confirmado.
Macron quer promover investimentos estrangeiros
O presidente Emmanuel Macron tem interesse em promover e fortalecer os investimentos estrangeiros na França e pretende incentivar um aumento dos investimentos sauditas no país.
A visita do príncipe herdeiro, anunciada pelo Eliseu na semana passada, começou neste domingo com a cerimônia de encerramento da Esports World Cup. A competição internacional de videogames é realizada pela primeira vez fora da Arábia Saudita.
No campo diplomático e de segurança, as conversas entre Macron e Mohammed bin Salman devem abordar temas como a crise entre Irã e Arábia Saudita, o fechamento do Estreito de Ormuz, o conflito israelo-palestino e a solução de dois Estados, além das situações no Líbano e na Síria. A cooperação cultural, especialmente em torno do sítio arqueológico de Al-Ula, também estará na pauta.
Segundo o Palácio do Eliseu, a visita é "um evento altamente simbólico, pois esta é a primeira viagem internacional do príncipe herdeiro em vários meses".
Sindicatos de jornalistas condenam a visita
Diversos sindicatos de jornalistas franceses criticaram a visita do príncipe saudita. "Após um primeiro convite em julho de 2022, este novo convite feito por Emmanuel Macron soa como uma provocação para os defensores da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão", afirmaram, em comunicado conjunto, o Sindicato Nacional dos Jornalistas (SNJ), o SNJ-CGT, a CFDT-Journalistes e o SGJ-FO.
As entidades lembraram que segue em andamento uma investigação baseada em uma denúncia apresentada em 2021 pelas organizações Trial International e Repórteres Sem Fronteiras (RSF) contra Mohammed bin Salman por supostos crimes de "tortura e desaparecimento forçado", relacionados ao caso do jornalista Jamal Khashoggi.
Khashoggi, que vivia nos Estados Unidos e era crítico do governo saudita, foi assassinado em 2018 no consulado da Arábia Saudita em Istambul. Seu corpo, esquartejado, nunca foi encontrado.
A Arábia Saudita enfrentou fortes críticas internacionais após o assassinato do jornalista. Na ocasião, serviços de inteligência dos Estados Unidos apontaram a responsabilidade direta de Mohammed bin Salman no caso.
Os sindicatos também destacaram que, segundo a RSF, atualmente 18 jornalistas estão presos na Arábia Saudita.
A presidência francesa não informou se a questão dos direitos humanos será abordada durante os encontros entre Emmanuel Macron e Mohammed bin Salman.
Com AFP
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