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Vala comum traz à tona sofrimento alemão após Segunda Guerra

8 mar 2009 - 10h48
(atualizado às 14h37)
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Nicholas Kulish

Polônia

O lodo úmido escorre com facilidade do longo fêmur espetado na parede lateral da fossa; basta um toque gentil com a ponta da pá. Para além da vala comum que abriga os restos mortais de cerca de duas mil pessoas, supostamente alemães mortos no final da Segunda Guerra Mundial, fica a fortaleza de tijolos vermelhos dos Cavaleiros Teutônicos, que no passado servia como um dos grandes marcos territoriais das Alemanha, até que esta se viu forçada a ceder o território à Polônia depois da guerra.

Radoslaw Gajc, funcionário da administração de Malbork, trabalha no local da vala comum em que foram encontrados cerca de 2 mil corpos
Radoslaw Gajc, funcionário da administração de Malbork, trabalha no local da vala comum em que foram encontrados cerca de 2 mil corpos
Foto: The New York Times

Até então, Malbork portava o nome alemão de Marienburg, e as autoridades acreditam que os corpos dos homens, mulheres e crianças enterrados na vala comum pertencessem a moradores da cidade e a refugiados de territórios mais a leste, como Königsberg, hoje Kaliningrado, fugitivos do devastador contra-ataque soviético que terminaria por capturar Berlim.

Dezenas dos crânios mostravam perfurações por balas, o que despertou especulações quanto a um massacre quando os primeiros esqueletos foram encontrados, em outubro; mas agora a discussão gira em torno do frio, da fome e do tifo, que grassava na região naquele inverno.

A Europa conta com mais valas comuns do que seria agradável admitir, em reflexo da escala extraordinária da violência no século passado. Mas ao longo do continente o público está mais acostumado a ver os alemães como perpetradores do que como vítimas, e talvez em nenhum outro país isso seja tão verdadeiro quanto na Alemanha mesma.

No entanto, há sinais em antigos territórios alemães, como Malbork, de que começa a surgir alguma compreensão quanto ao sofrimento humano, especialmente de civis, o que serve para compensar ao menos em pequena parte o fardo da culpa coletiva com relação aos agressores alemães que iniciaram a guerra.

"Não podemos ser indiferentes ao que aconteceu aqui", disse Radoslaw Gajc, 30 anos, nascido em Malbork e um dos funcionários da prefeitura encarregados de remover os corpos. "É evidentemente algo de muito importante, e abordamos a tarefa com seriedade e respeito", disse, acrescentando que vem estudando os estágios finais da guerra.

"O assunto realmente despertou muito interesse entre o público polonês, e até mesmo forte compaixão pelas pessoas que morreram", disse Fritz Kirchmeier, porta-voz da Comissão de Sepulcros de Guerra Alemães, que viajou com um colega a Malbork a fim de discutir com as autoridades locais os planos para transferir os corpos a um sepulcro existente ou criar um novo local de repouso para eles na cidade. As autoridades de sepultamento militar alemãs, que cuidam dos túmulos de mais de dois milhões de vítimas da guerra, em mais de 800 cemitérios, começaram em novembro a sepultar soldados alemães mortos em combate em Cheb, na república Checa, durante a Segunda Guerra Mundial.

Kirchmeier, que trabalha para a organização há 16 anos, diz que a simpatia dos moradores locais é um fenômeno novo. "Para nós, é um desdobramento a ser recebido de maneira positiva, e que não teria sido possível 10 anos atrás, por exemplo", ele afirmou.

Isso não significa dizer que a questão do sofrimento alemão tenha deixado de ser delicada em termos políticos. Os governos da Alemanha e da Polônia estão uma vez mais envolvidos em uma disputa pública sobre os planos para uma exposição permanente sobre o destino dos alemães expulsos de seus lares.

Depois da Segunda Guerra Mundial, mais de 12 milhões de pessoas de etnia alemã - ou mais de 16,5 milhões, de acordo com algumas estimativas - foram removidas de suas regiões no centro e leste da Europa, e acredita-se que mais de dois milhões tenham morrido ou sido mortas como parte desse processo muitas vezes violento. A vala comum aqui foi reportada pela imprensa alemã, mas à usual maneira discreta, porque a discussão sobre o sofrimento dos alemães desperta fortes respostas entre as vítimas da agressão de Hitler.

"Tudo depende do conceito de culpa universal, da idéia de que as atrocidades de Hitler foram tão imensas que não se poderia alegar coisa alguma em defesa dos alemães", disse Giles McDonogh, historiador britânico que escreveu um livro sobre o período do pós-guerra imediato e o sofrimentos dos alemães sob a ocupação militar dos aliados vitoriosos. "Continua a existir aquele sentimento bem definido de que não é respeitável, em termos sociais ou intelectuais, tratar desse tipo de assunto".

A vala comum em Malbork foi descoberta por acidente, quando operários estavam preparando o local para um hotel de luxo planejado. A construção é parte de um plano mais amplo de redesenvolvimento da área, que inclui a construção de uma fonte moderna, com música e luzes, e a reforma da pavimentação das ruas do centro da cidade, bem perto do local da vala comum.

Os corpos não estavam escondidos em uma floresta ou em uma fazenda qualquer bem longe da cidade, mas haviam sido sepultados bem no centro histórico, diante de uma das maiores atrações turísticas da Polônia. Inicialmente, os trabalhadores encontraram apenas cerca de 70 esqueletos, sepultados em um cemitério local. Mas um temporal removeu mais terra do local e revelou ossos adicionais, entre os quais mais um crânio. Uma busca sistemática de ossadas foi iniciada; os trabalhos continuam, e até agora mais de 1,9 mil corpos foram localizados.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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