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Revolta estudantil na França é resultado de 'décadas de abandono' por parte do governo, avalia sociólogo

Um dia após a promessa de mobilização urgente de 3 mil professores substitutos, o movimento estudantil na França apresenta uma "desaceleração nítida", segundo avaliação feita nesta sexta-feira (9) pelo governo. Em entrevista à RFI, o sociólogo Patrick Vassort, professor da Universidade de Caen e especialista em movimentos sociais, avalia que a revolta estudantil no país "vem de longa data", resultado de "décadas de abandono das escolas", alimentada "por uma ansiedade ligada à situação global".

9 out 2026 - 15h55
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Resumo
Milhares de estudantes franceses protestam contra a precariedade do ensino, turmas superlotadas e falta de professores, reflexo de décadas de abandono estatal agravadas pelo crescimento demográfico. Marcadas por confrontos e forte repressão policial — com mais de 6.800 detidos e alerta da ONU sobre o uso da força —, as manifestações pressionam o governo, que prometeu 3 mil docentes substitutos. Contudo, especialistas apontam que a saída real exige verbas que o Estado hoje não dispõe.

Nas últimas semanas, dezenas de milhares de estudantes do ensino médio, em sua maioria entre 15 e 18 anos, articulam protestos para denunciar a falta de substituição de professores ausentes, horários sobrecarregados e salas de aula deterioradas, uma mobilização marcada também por confrontos violentos com a polícia.

"Acredito que essa revolta dos estudantes vem de muito tempo. Ano após ano, geração após geração, a juventude denuncia as dificuldades presentes na sua formação (educacional), seja no ensino médio ou na universidade. E não há reação da parte do governo, independentemente de quem esteja no poder, atualmente e no passado", analisa Patrick Vassort.

"Essa indignação, sem dúvidas, é alimentada hoje por uma espécie de angústia relacionada a uma situação nacional e internacional muito pouco estável. Então, é o futuro dessa juventude que está em questão por meio dessa mobilização".

O sociólogo traça um paralelo com o movimento estudantil de 1998, quando jovens tomaram as ruas para reivindicar pautas semelhantes, como a falta de professores e turmas superlotadas. Entretanto, segundo ele, "nada mudou e, sem dúvidas, a situação piorou".

"Porque, depois de 1998, houve uma escalada demográfica nas escolas de ensino médio. Sabemos que os anos 2000 e 2010 foram anos de pleno crescimento demográfico. E hoje são os estudantes nascidos nessa época que formam a geração que está nas ruas atualmente; são eles que estão pagando uma certa decadência orçamentária para a educação", sublinha Vassort.

Em resposta às reivindicações do movimento, o ministro da Educação, Edouard Geffray, visitou uma escola em Cachan, na região de Paris, para detalhar o anúncio feito na noite de quinta-feira na emissora TF1 sobre a mobilização de 3 mil professores substitutos nas escolas onde a situação é mais crítica.

Eles "estão sendo contatados diretamente pelas diretorias regionais de ensino", resumiu. Também está em andamento a contratação de professores temporários.

Caminho para sair da crise

Apesar da medida emergencial anunciada pelo Ministério da Educação, a saída para amenizar a crise no longo prazo passa principalmente pelo plano orçamentário, na avaliação de Patrick Vassort. Cenário que pressiona o governo francês a meses das eleições presidenciais, em 2027. 

"É muito difícil (para o governo sair desta situação). Porque estamos em uma conjuntura evidentemente muito desfavorável, uma vez que seria necessário ter um orçamento, mas, atualmente, o Estado não dispõe desse orçamento. Essa é a maior dificuldade. Nesse caso, precisariam de tempo, mas também não há tempo, temos apenas seis meses até as eleições presidenciais", lembra o especialista.

ONU demonstra "preocupação" com a violência

Des manifestants participent à un blocage de rue lors d'une manifestation de solidarité avec les lycéens près de Sciences Po Paris, le 7 octobre 2026.
Des manifestants participent à un blocage de rue lors d'une manifestation de solidarité avec les lycéens près de Sciences Po Paris, le 7 octobre 2026.
Foto: RFI

A mobilização estudantil, que começou em 17 de setembro, vem sendo marcada também por alguns episódios de violência e pela repressão policial.

O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos declarou, nesta sexta-feira (9), que acompanha com "preocupação" os "incidentes" relacionados às manifestações na França.

"Pedimos a todos que garantam que as manifestações permaneçam pacíficas e que não haja recurso desproporcional à força por parte das forças de segurança. O direito de reunião pacífica deve ser respeitado", declarou uma porta-voz do Alto Comissariado, Shabia Mantoo, durante uma coletiva de imprensa em Genebra.

Por sua vez, sindicatos de estudantes do ensino médio e universitários pedem a continuidade dos protestos. Desde o início da mobilização, mais de 6.800 pessoas foram detidas, das quais 86% são menores de idade, de acordo com o balanço judicial divulgado nesta sexta-feira.

RFI com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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