Putin critica Otan e Ucrânia durante desfile fortemente reduzido do 'Dia da Vitória' em Moscou
A Rússia realizou neste sábado (9) seu tradicional desfile militar do "Dia da Vitória" - data em que o país celebra o triunfo da União Soviética sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Pela primeira vez em quase 20 anos, o 9 de maio é lembrado de forma sóbria no país devido ao temor de ataques da Ucrânia. Em discurso, o presidente russo, Vladimir Putin, criticou diretamente a Otan e Kiev.
Emmanuelle Chaze, correspondente da RFI na Ucrânia, e AFP
"A grande façanha da geração vitoriosa inspira hoje os soldados que conduzem a operação militar especial [na Ucrânia]. Eles enfrentam uma força agressiva, armada e apoiada por todo o bloco da Otan", declarou Putin, diante de centenas de soldados na Praça Vermelha.
O presidente russo também defendeu a guerra à qual deu início, há mais de quatro anos. "Estou firmemente convencido de que nossa causa é justa. Estamos unidos. A vitória foi nossa e será para sempre", acrescentou.
O desfile foi marcado pela ausência de equipamentos militares, como tanques e lançadores de mísseis - que normalmente atravessam o coração de Moscou nesta data - devido a ameaças de ataques de drones ucranianos para perturbar a cerimônia. O evento durou apenas 45 minutos e só foi mantido graças à entrada em vigor de uma trégua de três dias anunciada na sexta-feira (8) pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O número de representantes estrangeiros também foi reduzido. Apenas os líderes de Belarus, Malásia e Laos, além do primeiro‑ministro eslovaco, Robert Fico, viajaram a Moscou. Militares do Exército da Coreia do Norte, que ajudaram Moscou na primavera de 2025 a expulsar tropas ucranianas da região russa de Kursk, também participaram da comemoração.
Alta segurança
O desfile militar ocorreu sob um forte esquema de segurança, que contou com uma grande mobilização policial e da Rosgvardia, a guarda nacional russa. Na manhã de sábado, a internet móvel chegou a ser suspensa no centro de Moscou, completamente deserto.
As comemorações do 9 de maio são um evento altamente simbólico que permite a Vladimir Putin, no poder há 26 anos, mobilizar a memória da vitória soviética e reunir a população russa em torno da campanha militar na Ucrânia. No entanto, o evento em nada lembrou o aparato exibido no ano passado para o 80º aniversário da capitulação nazista, cerimônia à qual compareceram vários líderes estrangeiros, entre eles os presidentes chinês, Xi Jinping e o presidente Lula.
Para Cyrille Bret, especialista em questões de defesa e segurança do Instituto Montaigne, em Paris, a Rússia é obrigada a adotar um perfil discreto na cerimônia neste ano. "A estratégia da Rússia talvez esteja passando por uma recomposição. É uma grande interrogação essa postura, que contrasta com uma década de política externa e de ação militar estrondosa por parte da Rússia", observa.
Cessar-fogo oportuno
Após duas tentativas de tréguas — primeiro ucraniana, depois russa — desrespeitadas nesta semana, o presidente americano anunciou um oportuno cessar‑fogo de três dias entre a Ucrânia e a Rússia a partir deste sábado. "Esperemos que seja o começo do fim de uma guerra muito longa, mortal e difícil", escreveu Trump em sua plataforma Truth Social, especificando que a trégua seria acompanhada por uma "troca de prisioneiros de 1.000 detidos de cada país".
Logo após a publicação da mensagem, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, aceitou a pausa de três dias e ordenou a seu Exército que não atacasse o desfile em Moscou. "A Praça Vermelha é menos importante para nós do que a vida dos prisioneiros ucranianos que podem ser repatriados", declarou o presidente ucraniano.
Moscou também confirmou ter aceitado a trégua e a troca de prisioneiros ao término de uma reunião especial do Conselho de Segurança.
No entanto, em Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, os alertas aéreos soaram três vezes durante a noite, e a defesa aérea ucraniana anunciou na manhã deste sábado que a Rússia lançou um míssil balístico Iskander e mais de quarenta drones contra o território ucraniano ao longo da noite.
A região de Dnipropetrovsk, no centro‑leste, também foi atacada mais de 20 vezes por tiros de artilharia e drones, segundo o governador regional Oleksandr Hanza. Duas pessoas foram mortas nas localidades de Nikopol e Dubovyki.
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