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Pela primeira vez, três mulheres lideram o projeto do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza

A edição de 2026 da Bienal de Arte de Veneza, que abre ao público neste sábado (9) na cidade italiana, marca um momento inédito para a arte brasileira. Pela primeira vez, três mulheres lideram o projeto do Pavilhão do Brasil. A participação nacional também é marcada pela estreia de uma curadora negra, a baiana Diane Lima, que reúne as artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão.

8 mai 2026 - 11h57
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Ana Carolina Peliz, da RFI, em Paris

A temática da Bienal de Veneza deste ano é In Minor Keys (Em tons menores), concebida pela curadora camaronesa Koyo Kouoh, primeira mulher negra a assumir o posto.

A proposta aposta em gestos sutis, afetos, ritmos lentos e atenção ao sensível, inspirando-se na ideia musical dos "tons menores" como espaços de nuance, vulnerabilidade e resistência silenciosa. Nesse sentido, a 61ª edição da Bienal privilegia improvisação, intimidade, memória, cuidado e reparação, abrindo espaço para vozes, histórias e formas de existência que frequentemente permanecem à margem das narrativas hegemônicas.

A exposição do Pavilhão do Brasil tem como título Comigo Ninguém Pode, que também é o nome de uma planta tropical conhecida na cultura popular por suas propriedades protetoras contra energias negativas.

"O título veio muito de uma intenção minha de propor não um título temático, mas que trouxesse uma energia — não só no sentido do que a planta é e carrega, na sua dimensão espiritual, mas também do ponto de vista discursivo de 'comigo ninguém pode'", explicou Diane Lima à RFI.

"O que significa ter um pavilhão do Brasil, uma representação nacional em um momento como o que vivemos, em que temos uma formação inédita, com o encontro entre duas artistas — algo inesperado — e também entre três mulheres? É a primeira vez que temos uma curadora negra e uma artista negra. Havia muito essa ideia de pensar uma união de forças que, de fato, só a coletividade e a disposição para o diálogo poderiam propor", acrescenta.

A parte externa do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza acolheu na edição de 2026 acolheu a obra "Casulos", de Rosana Paulino.
A parte externa do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza acolheu na edição de 2026 acolheu a obra "Casulos", de Rosana Paulino.
Foto: RFI

As artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão têm trajetórias consolidadas, mas repertórios e abordagens distintas, e nunca trabalharam juntas em um projeto. A exposição coloca em diálogo obras históricas de suas produções, nas quais ambas se dedicam a refletir sobre feridas e traumas coloniais, reunindo pinturas, esculturas e desenhos.

"O meu maior desafio nesse projeto foi ter coragem para propor um diálogo arriscado, porque nós três nunca havíamos trabalhado juntas. Eu já havia trabalhado com a Adriana e com a Rosana, conheço bem suas pesquisas e práticas, mas, em um projeto dessa envergadura, com essa responsabilidade e visibilidade, é preciso ter ainda mais convicção sobre o que se propõe", afirma a curadora.

"Foi muito interessante entender como conseguiríamos construir esse processo de criação. Acredito que isso só foi possível graças à extrema maturidade das duas artistas — muita experiência e domínio técnico, o que traz segurança — além da vontade de dialogar e trocar."

Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza de 2026. Obra "Tecelãs", de Rosana Paulino (esq.) faz parte do projeto "Comigo ninguém pode".
Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza de 2026. Obra "Tecelãs", de Rosana Paulino (esq.) faz parte do projeto "Comigo ninguém pode".
Foto: RFI

Adaptação

A edição deste ano da Exposição Internacional de Arte de Veneza vai até 22 de novembro e ocorre em diversos espaços pela cidade italiana. Entre os destaques do Pavilhão do Brasil estão 12 telas inéditas de Adriana Varejão, produzidas especialmente para a Bienal, além da instalação Tecelãs, de Rosana Paulino, criada em 2003 e agora adaptada para o espaço expositivo em Veneza.

A montagem, que contou com expografia desenvolvida por Daniela Thomas, também exigiu soluções técnicas, principalmente devido à umidade da cidade italiana, que pode comprometer parte dos materiais utilizados nas obras.

Segundo a curadora, o projeto dialoga diretamente com o tema da Bienal ao evidenciar o compromisso da arte brasileira com questões ligadas às minorias.

"Eu acho que o Brasil tem uma responsabilidade muito grande, uma dívida impagável em relação às comunidades indígenas e negras. Essa combinação de trabalhos novos e históricos das duas artistas mostra como a nossa arte sempre esteve comprometida com esse tema. Apesar das tentativas de apagamento e invisibilização, a arte esteve à frente do seu tempo, tentando apresentar à sociedade essas reflexões e possíveis caminhos de transformação", afirma.

"É uma oportunidade única, sobretudo considerando que o Brasil vive um momento importante no cenário artístico global, não só nas artes visuais, mas também no cinema e na música. É uma chance para o público que passou a se interessar — ou que já se interessa — pela cultura brasileira conhecer melhor a nossa história e entender o quanto esses temas nos inserem, desde sempre, em um contexto global", conclui.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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