Onda de calor transforma ar-condicionado em pauta política na França
A corrida por uma solução para o calor extremo divide a classe política na França. Enquanto alguns líderes defendem o ar-condicionado como uma ferramenta indispensável de adaptação às mudanças climáticas, outros alertam que sua adoção em larga escala pode agravar o problema ao aumentar o consumo de energia e contribuir para o aquecimento global. Diante da intensidade das ondas de calor, porém, muitos têm sido obrigados a rever suas posições sobre o tema.
Por muito tempo desprezado pelos franceses, o ar-condicionado passou a ocupar o centro do debate no país nos últimos meses. Com os termômetros ultrapassando os 40°C em algumas regiões, um assunto que normalmente se limitava à escolha de marcas e modelos transformou-se em pauta política.
Na França, o ar-condicionado continua sendo raro nas residências e praticamente inexistente em hospitais, estabelecimentos de ensino e outros edifícios públicos. A onda de calor dos últimos dias levou o governo a fechar escolas, colocar hospitais em estado de alerta e recomendar que as empresas permitissem o trabalho remoto sempre que possível.
A situação é particularmente difícil para pacientes e profissionais de saúde, que, em muitos casos, permanecem em prédios mal isolados e sem sistemas de refrigeração adequados. Em diversos setores, os trabalhadores também tiveram jornadas adaptadas, com interrupção de obras durante as horas mais quentes do dia, e sofrem com maior desgaste físico, além dos impactos econômicos provocados pelas altas temperaturas.
Nesse contexto, a procura por aparelhos de ar-condicionado e ventiladores disparou. O grupo Carrefour informou ter vendido, na última segunda-feira (22), "mil vezes mais" unidades do que o habitual na França.
Oposições
Com o governo sob pressão por medidas para enfrentar a onda de calor, a questão chegou à classe política.
"A questão não é ser a favor ou contra o ar-condicionado, mas sim a favor ou contra sua adoção em larga escala", declarou Manuel Bompard, coordenador nacional do partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI), à rádio RTL no domingo (21). Segundo ele, a prioridade deveria ser equipar residências de idosos, hospitais e escolas que atendem populações vulneráveis.
Ao mesmo tempo, o deputado ressaltou que os aparelhos intensificam o calor nas cidades e utilizam gases com efeito estufa mais potentes do que o CO₂. "Instalá-lo em todos os lugares agravaria justamente o problema que pretendemos resolver", argumentou.
Na direção oposta, o partido de extrema direita Reunião Nacional defende um amplo programa de instalação de ar-condicionado. Marine Le Pen apresentou a proposta há cerca de um ano, embora ainda não tenha detalhado sua implementação nem os custos envolvidos. "Se eu for eleita presidente, implementarei um plano massivo de ar-condicionado", afirmou recentemente durante uma feira de tecnologia em Paris.
A proposta recebeu críticas dos ecologistas. A secretária nacional dos Verdes, Marine Tondelier, declarou no domingo à emissora LCI que o ar-condicionado não deve ser tratado nem como um tabu nem como uma solução universal. Ela reconheceu, porém, que já existem locais onde é difícil viver sem ele. "Se você climatizar casas que não são isoladas, não vai chegar muito longe", afirmou. Para ela, a prioridade continua sendo adaptar as cidades a um clima cada vez mais quente.
A mesma linha é defendida por Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa e potencial candidato à Presidência, que sustenta que a instalação generalizada de aparelhos tende a ampliar os impactos ambientais associados às mudanças climáticas.
O governo procura adotar uma posição intermediária. Como o ar-condicionado consome grandes quantidades de energia, "a ideia não é instalá-lo em todos os lugares em detrimento de qualquer outra solução, mas utilizá-lo apenas quando for necessário e possível", afirmou Vincent Jeanbrun, ministro da Habitação e dos Assuntos Urbanos, na Assembleia Nacional. Segundo ele, o tema deve ser tratado "sem dogmatismo".
Os especialistas, no entanto, concordam que adaptações devem ser feitas de maneira urgente e para isso são necessários investimentos. "Se adaptar é também antecipar com investimentos nas construções, nas infraestruturas, nas redes para que possam ser resilientes a estas temperaturas", disse à RFI Robert Vautard, meteorologista do IPCC, o grupo de especialistas sobre o clima da ONU.
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