'Nada justifica a violência', diz Starmer após protesto anti-imigração na Irlanda do Norte
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, classificou como "chocantes" e "completamente inaceitáveis" os episódios de violência anti-imigração que tomaram Belfast na noite de terça-feira (9). A reação ocorre após uma noite de caos na capital da Irlanda do Norte, marcada por incêndios, destruição e ataques direcionados a moradores estrangeiros.
Em declaração, o premiê afirmou: "Nada justifica a violência e a desordem que vimos". Keir Starmer destacou que pessoas foram alvo por causa de sua origem. "Não tolerarei isso", disse, prometendo que os responsáveis enfrentarão "todo o rigor da lei".
Casas, ônibus e carros foram incendiados por manifestantes mascarados, enquanto famílias tiveram de abandonar suas residências às pressas.
Os distúrbios foram desencadeados pela rápida disseminação de um vídeo extremamente violento nas redes sociais, que mostrava o momento de um ataque com faca ocorrido na segunda-feira (8). As imagens chocaram o país e mobilizaram protestos que rapidamente saíram do controle.
O ataque que levou à escalada de violência
O caso central envolve Hadi Alodid, um sudanês de 30 anos, acusado de tentativa de homicídio após esfaquear um homem de cerca de 40 anos em uma rua de Belfast.
De acordo com a investigação, o agressor atacou a vítima com golpes de faca no rosto, nas costas e nos olhos. O homem sofreu ferimentos gravíssimos e perdeu o olho esquerdo.
O ataque ocorreu por volta das 22h30 no norte da cidade e foi parcialmente contido por transeuntes que intervieram antes da chegada da polícia, o que ajudou a salvar a vida da vítima.
Alodid compareceu à Justiça, nesta quarta-feira, sem advogado e acompanhado por um intérprete. Ele foi mantido sob custódia e deverá voltar ao tribunal em 8 de julho.
Segundo o Ministério do Interior britânico, o suspeito entrou na Irlanda do Norte em 2023, após passar por Paris e Dublin, e recebeu status de refugiado com autorização de residência válida até 2028.
A polícia informou que, até o momento, não há indícios de motivação terrorista, e o caso segue sob investigação.
Noite de destruição e medo
Na noite seguinte ao ataque, centenas de manifestantes ocuparam diferentes áreas de Belfast. O que começou como protestos se transformou rapidamente em confrontos violentos.
Grupos mascarados incendiaram veículos, bloquearam ruas e atacaram imóveis, principalmente aqueles associados a imigrantes. Em alguns casos, moradores foram retirados de casas em chamas por equipes de emergência.
O clima nas ruas, na manhã seguinte, era de choque. Uma moradora relatou: "Estamos vivendo com medo agora", resumindo a sensação de insegurança generalizada nos bairros afetados.
"Não há outra palavra: racismo"
Autoridades locais também condenaram a escalada de violência, destacando o caráter discriminatório dos ataques.
A ministra da Justiça da Irlanda do Norte, Naomi Long, criticou a instrumentalização do caso e afirmou que o medo da população foi explorado. Em declaração, foi direta:
"Se você está expulsando pessoas de suas casas unicamente por causa da cor da sua pele, não há outra forma de chamar isso — é racismo".
A primeira-ministra regional, Michelle O'Neill, também reagiu, classificando os atos como "covardia" e alertando para tentativas de usar um crime grave como justificativa para atacar pessoas inocentes.
Tensão que se repete
O episódio ocorre em um contexto de crescente tensão em torno da imigração no Reino Unido. Nos últimos anos, protestos semelhantes vêm sendo registrados na Irlanda do Norte, frequentemente alimentados por discursos polarizados e pela disseminação de conteúdos nas redes sociais.
Nesta semana, manifestações também ocorreram em cidades como Glasgow, Edimburgo e Southampton, indicando que o clima de instabilidade se estende além de Belfast.
O caso atual evidencia o desafio das autoridades britânicas: conter tanto a violência criminal quanto a reação social que, em episódios como este, rapidamente se transforma em ataques racistas e desordem generalizada, uma combinação que, nas palavras de Starmer, "ameaça as nossas comunidades".
Com AFP
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