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Lula segue inspirando esquerda francesa, mas comparação com Mélenchon encontra limites pragmáticos

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial brasileira voltou ao centro do debate político francês nesta semana. Em reportagens publicadas pelas revistas Le Point e L'Obs, o presidente brasileiro aparece como referência para setores da esquerda francesa, mas também como contraponto ao projeto defendido por Jean-Luc Mélenchon. As duas revistas analisam a proximidade entre os líderes e questionam até que ponto a experiência brasileira pode ser reproduzida na França.

7 nov 2026 - 09h14
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Resumo
Embora a vitória de Lula anime a esquerda francesa e Jean-Luc Mélenchon para a eleição de 2027, analistas apontam limites nessa comparação. Diferente da postura de ruptura radical e do plano econômico intervencionista da França Insubmissa, Lula venceu apoiado em uma ampla frente política e em um histórico pragmático e reformista. Especialistas avaliam que a contenção da extrema direita no Brasil reflete mais uma mobilização do eleitorado do que um alinhamento direto com o projeto francês.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial brasileira provocou entusiasmo entre aliados de Jean-Luc Mélenchon e recolocou o Brasil no centro das discussões da esquerda francesa. Para parte dos apoiadores da França Insubmissa, da esquerda radical, o resultado obtido por Lula reforça a ideia de que uma candidatura situada à esquerda do espectro político também poderia vencer a disputa presidencial francesa de 2027.

O deputado Jean-Luc Melenchon, líder da esquerda francesa visita Lula em Curitiba.
O deputado Jean-Luc Melenchon, líder da esquerda francesa visita Lula em Curitiba.
Foto: Heuler Andrey / AFP / RFI

O semanário Le Point mostra como esse raciocínio se espalhou entre dirigentes e militantes do partido de Mélenchon. Nas redes sociais, multiplicaram-se mensagens sugerindo que a experiência brasileira poderia servir de inspiração para a França. A legenda também passou a observar mais atentamente algumas iniciativas de mobilização digital utilizadas durante a campanha do presidente brasileiro.

Mas a reportagem dedica grande parte de seu espaço justamente a relativizar essa comparação. Segundo a historiadora Silvia Capanema, que integra tanto a França Insubmissa quanto o Partido dos Trabalhadores, há contatos entre as duas organizações, mas Lula reúne apoios muito mais amplos do que aqueles normalmente associados à esquerda radical francesa. Ela lembra que o presidente brasileiro recebe apoio de diferentes setores políticos e mantém relações que vão além do campo representado por Mélenchon.

O Lula que a esquerda francesa redescobre

O principal questionamento apresentado por Le Point vem da historiadora Armelle Enders, especialista em Brasil. Para ela, existe uma distância considerável entre a imagem de Lula construída por parte da esquerda francesa e a trajetória política que permitiu ao brasileiro chegar ao poder.

A pesquisadora lembra que, quando assumiu a Presidência pela primeira vez, em 2003, Lula apresentou-se como um dirigente reformista. Seu compromisso era preservar os acordos internacionais firmados pelo Brasil e manter o equilíbrio das contas públicas.

Essa postura, afirma Enders, "difere do projeto de ruptura normalmente associado a Mélenchon". Le Point lembra ainda que Lula declarou apoio a Mélenchon em eleições francesas recentes, apresentando-o como o candidato mais bem posicionado para enfrentar a extrema direita.

Para Armelle Enders, o dirigente francês foi um dos primeiros nomes da esquerda do país a reconhecer a dimensão histórica de Lula, muito antes de parte de seus contemporâneos. Ainda assim, a historiadora considera arriscado utilizar o resultado brasileiro como um indicador do que poderá ocorrer na eleição presidencial francesa.

Convergência contra a extrema direita

Na avaliação de Enders, a eleição brasileira guarda mais semelhanças com as eleições legislativas francesas de 2024 do que com a disputa presidencial prevista para 2027. A pesquisadora observa que, nos dois casos, pesquisas e previsões apontavam um avanço significativo da extrema direita. O resultado final, porém, foi diferente do esperado.

Segundo ela, "a contenção desse avanço decorreu sobretudo da mobilização dos eleitores, e não necessariamente da ação dos partidos políticos". Essa interpretação afasta a ideia, difundida entre alguns apoiadores de Mélenchon, de que a vitória de Lula representaria automaticamente um sinal favorável para a esquerda francesa na próxima eleição presidencial.

Programa econômico

As diferenças entre o lulismo e a estratégia defendida por Mélenchon aparecem de maneira ainda mais clara em uma segunda reportagem, publicada nesta semana por L'Obs. A revista examina as propostas econômicas apresentadas pela França Insubmissa para a eleição presidencial de 2027 e concentra sua atenção no projeto de ruptura defendido pelo partido.

Entre as medidas estão a neutralização de parte da dívida pública francesa detida pelo Banco Central Europeu, a recriação de um imposto reforçado sobre grandes fortunas, a aplicação da chamada taxa Zucman sobre patrimônios superiores a € 100 milhões, o aumento da tributação sobre heranças e o fim da chamada flat tax.

Segundo a França Insubmissa, essas medidas permitiriam arrecadar € 106,4 bilhões adicionais. Os recursos seriam utilizados para revogar a reforma da Previdência, elevar o salário mínimo para € 1.700, aumentar a remuneração dos servidores públicos e criar uma "garantia de autonomia" destinada aos jovens.

L'Obs destaca, porém, que economistas questionam as projeções apresentadas pelo partido. Mathieu Plane, diretor-adjunto do departamento de análise e previsão do Instituto Francês de Economia, afirma que o plano representa "um choque tributário de grandes proporções".

Segundo ele, os cálculos da França Insubmissa partem da premissa de que o país funcionaria quase como uma economia fechada. Em um contexto de livre circulação de capitais, afirma o economista, a arrecadação efetiva poderia ser significativamente inferior àquela anunciada pelo partido. A revista menciona ainda o risco de que uma política baseada na expansão do consumo gere pressões inflacionárias, reduzindo parte dos efeitos esperados sobre o poder de compra da população.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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