Líbia "suspende" relações diplomáticas com a França
A Líbia anunciou nesta sexta-feira a suspensão das relações diplomáticas com a França, o único país ocidental a reconhecer oficialmente o conselho rebelde que luta para tirar Muammar Kadafi do poder.
"Hoje foi tomada a decisão de suspender as relações diplomáticas com a França", disse o vice-chanceler líbio, Khaled Kaim, a jornalistas em Trípoli.
"Está claro que o governo francês está concentrado em dividir a Líbia." A França e outros líderes da União Europeia concordaram nesta sexta em analisar todas as opções para tentar retirar Kadafi do poder, mas evitaram um endosso a alternativas militares, como bombardeios ou a imposição de uma zona de exclusão aérea.
O plenário de líderes da UE não seguiu a proposta feita pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, de reconhecer o conselho nacional, sediado em Benghazi, como legítimo governo líbio.
Líbios enfrentam repressão e desafiam Kadafi
Impulsionada pela derrocada dos presidentes da Tunísia e do Egito, a população da Líbia iniciou protestos contra o líder Muammar Kadafi, que comanda o país desde 1969. As manifestações começaram a tomar vulto no dia 17 de fevereiro, e, em poucos dias, ao menos a capital Trípoli e as cidades de Benghazi e Tobruk já haviam se tornado palco de confrontos entre manifestantes e o exército.
Os relatos vindos do país não são precisos, mas a onda de protestos nas ruas líbias já é bem mais violenta que as que derrubaram o tunisiano Ben Ali e o egípcio Mubarak. A população tem enfrentado uma dura repressão das forças armadas comandas por Kadafi. Há informações de que aeronáutica líbia teria bombardeado grupos de manifestantes em Trípoli. Estima-se que centenas de pessoas, entre manifestantes e policiais, tenham morrido. Muitas dezenas de milhares já deixaram o país.
Além da repressão, o governo líbio reagiu através dos pronunciamentos de Saif al-Islam , filho de Kadafi, que foi à TV acusar os protestos de um complô para dividir a Líbia, e do próprio Kadafi, que, também pela televisão, esbravejou durante mais de uma hora, xingando os contestadores de suas quatro décadas de governo centralizado e ameaçando-os de morte. Desde então, as aparições televisivas do líder líbio têm sido frequentes, variando de mensagens em que fala do amor da população até discursos em que promete vazar os olhos da oposição.
Não apenas o clamor das ruas, mas também a pressão política cresce contra o coronel. Internamente, um ministro líbio renunciou e pediu que as Forças Armadas se unissem à população. Vários embaixadores líbios também pediram renúncia ou, ao menos, teceram duras críticas à repressão. Além disso, o Conselho de Segurança das Nações Unidas fez reuniões emergenciais, nas quais responsabilizou Kadafi pelas mortes e indicou que a chacina na Líbia pode configurar um crime contra a humanidade. Mais recentemente, o Tribunal Penal Internacional iniciou investigações sobre as ações de Kadafi, contra quem também a Interpol emitiu um alerta internacional.