'Início de apocalipse': nova onda de calor chega à França e incêndios continuam fora de controle
Após a onda de calor histórica que atrapalhou o cotidiano do país, as temperaturas voltaram a subir em toda a França nesta segunda-feira (6). O país registrou alerta laranja, um nível abaixo do máximo, em 16 departamentos, com máximas de até 40°C. Com as altas temperturas, os incêndios avançam no sul do país e moradores narram cenas de caos.
Durante a madrugada, a agência meteorológica Météo-France registrou temperaturas entre 20°C e 27°C no vale do Ródano, no litoral mediterrâneo e no sudoeste do país, onde eram esperados picos próximos de 40°C.
Cupson, de 40 anos, morador de um conjunto habitacional de Bordeaux, saiu com o filho por volta das 7h30 para buscar um pouco de ar fresco. "Moramos no 11º andar de um edifício. Fizeram obras de isolamento, mas, na prática, isso isola do frio. No verão, as paredes retêm o calor e a temperatura pode chegar a 34°C", relatou. Para ele, o ar-condicionado não é uma opção. "É caro demais e consome muita energia."
Segundo a Météo-France, o calor deve se intensificar na terça-feira (7) em direção ao norte do país, e outros departamentos podem entrar em alerta laranja. Atualmente, 46 estão sob alerta amarelo. Embora menos intenso que o anterior, o episódio deve durar vários dias.
A nova onda de calor ocorre após um período de temperaturas extremas que afetou centenas de milhões de pessoas na Europa no fim de junho. Na França, junho de 2026 foi o mês mais quente já registrado, após uma primeira onda de calor excepcional em maio.
Pressão política
Diante da situação, deputados do partido Ecologistas apresentaram uma moção de censura contra o governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu e acusam o Executivo de ter tornado o país mais vulnerável às mudanças climáticas.
Em junho, a oposição já havia criticado a falta de investimentos necessários para adaptar escolas e hospitais aos eventos climáticos extremos. O governo destaca a criação, em 2023, do Fundo Verde para financiar projetos ambientais de governos locais. No entanto, os recursos do programa vêm sendo progressivamente reduzidos.
No domingo (5), o primeiro-ministro anunciou que o Senado analisará um projeto de lei sobre adaptação às mudanças climáticas, mas sem ampliar o Fundo Verde, como defendiam os socialistas.
Em artigo publicado no jornal Le Monde, dezenas de cientistas franceses, acompanhados por economistas e personalidades públicas, pediram a aprovação de uma "lei de emergência climática". Eles denunciam a influência da indústria de combustíveis fósseis, considerada responsável pelo aquecimento global e pela multiplicação das ondas de calor.
Setores vulneráveis, como o sistema de saúde, já se preparam para enfrentar o novo episódio. Segundo o diretor-geral da Assistência Pública-Hospitais de Paris (AP-HP), Nicolas Revel, a situação exige vigilância permanente, já que o número de leitos disponíveis será reduzido durante as férias de verão.
Segundo a agência Santé Publique France, o número de mortes aumentou 30% na semana de 22 de junho, afetando principalmente idosos que vivem em casa. A seca também começa a afetar a agricultura. O presidente do principal sindicato agrícola francês, a FNSEA, Arnaud Rousseau, afirmou que as enchentes na primavera, somadas às ondas de calor precoces, criaram uma situação inédita.
Incêndio provoca retirada de 10 mil pessoas
As altas temperaturas, que afetam a saúde da população e alimentam o debate sobre a adaptação às mudanças climáticas, também aumentam o risco de incêndios. Nos Pirineus Orientais, o fogo continua fora de controle. Cerca de 700 bombeiros seguem mobilizados para conter as chamas.
Segundo o prefeito Pierre Regnault de la Mothe, o incêndio já destruiu 4.600 hectares. "Nosso objetivo hoje é conter a propagação na frente principal e nas laterais do incêndio", declarou.
Moradores descrevem cenas de caos. Vanessa Alted, de 43 anos, foi retirada de ônibus de Ille-sur-Têt com seus três filhos e passou a noite em um abrigo improvisado. "Estava tudo coberto de fumaça, as pessoas corriam para todos os lados. Parecia o início de um apocalipse", contou.
Cerca de 10 mil pessoas receberam ordem de evacuação na região do maciço de Aspres e na cidade de Ille-sur-Têt. O incêndio deixou cinco feridos, entre eles dois bombeiros, e atingiu cerca de 50 construções.
A terceira etapa do Tour de France, entre Granollers, na Espanha, e Les Angles, nos Pirineus Orientais, foi mantida nesta segunda-feira, mas sem público no trecho francês, especialmente na chegada, devido à mobilização dos serviços de emergência.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, deve visitar a área atingida ainda nesta segunda-feira. Outros incêndios também mobilizam equipes em diferentes regiões da França. Segundo a porta-voz do governo, Maud Bregeon, a situação é "muito preocupante".
"Mais de 11 mil hectares já queimaram na França neste ano, contra pouco mais de 5 mil no mesmo período de 2025", afirmou. Além da França, incêndios também atingem áreas da Catalunha, na Espanha, e o norte de Portugal.
Um homem suspeito de iniciar nove incêndios no domingo no departamento de Hérault, no sul da França, em uma planície vinícola entre Béziers e Pézenas, 750 quilômetros ao sul de Paris, foi detido pela polícia, nesta segunda-feira. Os bombeiros franceses lembram que 90% dos incêndios têm origem humana, mas seu avanço é favorecido pelo aumento das ondas de calor e das secas provocado pelas mudanças climáticas.
Com agências
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