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Incêndios florestais na Espanha já queimaram três vezes e meia a superfície de Madri

A nova onda de calor que atinge a Espanha mantém o país em alerta para os incêndios florestais. Com os maiores focos já estabilizados na região central, as autoridades concentram esforços em áreas próximas à fronteira com Portugal, no noroeste do país e na costa mediterrânea, onde o fogo ainda avança.

30 jul 2026 - 08h31
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Ana Beatriz Farias, correspondente da RFI em Madri

Uma estimativa por satélite do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais, o EFFIS, aponta cerca de 210 mil hectares queimados desde o início do ano. Essa área equivale a aproximadamente três vezes e meia a superfície do município de Madri.

Já o balanço administrativo provisório do Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico da Espanha (Miteco) contabilizava 173.651 hectares até 28 de julho, quase seis vezes o registrado no mesmo período de 2025. Os dois levantamentos utilizam métodos diferentes e não são diretamente comparáveis, mas mostram a dimensão excepcional da temporada.

Situação continua instável

Com os incêndios de Ávila e da região de Madri tecnicamente estabilizados, a maioria dos moradores já pôde voltar para casa. Os bombeiros, no entanto, continuam nos perímetros para combater pontos quentes e impedir a reativação das chamas.

No leste do país, o incêndio de La Vall d'Uixó, na província de Castellón, queimou cerca de 9.300 hectares. Depois de manter aproximadamente 10 mil pessoas afastadas de suas casas, o incêndio permitiu o retorno dos moradores de seis municípios na manhã desta quinta-feira (30). As equipes, porém, continuavam enfrentando reativações e tentando conter o avanço do fogo.

A preocupação mais recente concentra-se no noroeste. Em León, três incêndios obrigaram mais de 300 pessoas a deixar suas casas. Em Zamora, perto da fronteira com Portugal, o fogo avançou pelo Parque Natural de Arribes del Duero, uma área protegida conhecida pelos cânions escavados pelo rio Douro. Oitocentas pessoas foram deslocadas preventivamente. 

A Unidade Militar de Emergências foi enviada a Zamora. Temperaturas elevadas, vento forte e grande quantidade de vegetação seca são fatores que colaboram para que o fogo se espalhe mais rápido. A região também sofre com o despovoamento e o abandono de atividades rurais, fatores que favorecem a acumulação de material combustível.

A previsão meteorológica para os próximos dias não traz alívio, já que a Agência Estatal de Meteorologia da Espanha, a Aemet, mantém o aviso de onda de calor até domingo (2). As temperaturas elevadas, a baixa umidade e o vento podem levar o risco de incêndio a níveis extremos em grande parte do país.

Julho tem incêndio mais letal em 42 anos

A Espanha enfrentou ao longo de julho vários incêndios independentes, ocorridos em momentos e regiões diferentes. O mais trágico começou no dia 9, em Los Gallardos, na província de Almería, no sul do país.

O fogo permaneceu ativo durante 16 dias, queimou cerca de 5.200 hectares e deixou 14 mortos. Foi o incêndio florestal mais letal já registrado na Andaluzia e o mais letal da Espanha em 42 anos. A investigação sobre a origem continua aberta, e a principal hipótese é a queda de um cabo elétrico.

Outro grande incêndio atingiu Guadalajara, no centro do país, e queimou cerca de 33 mil hectares. No momento mais crítico, dezenas de localidades tiveram de ser evacuadas ou confinadas. Agricultores da região também participaram da resposta, mobilizando cerca de 50 tratores para abrir faixas de defesa e tentar conter o avanço das chamas.

Na última semana de julho, a emergência concentrou-se principalmente em Ávila e Madri. Os incêndios eram distintos, mas ficaram sob comando coordenado devido à proximidade das frentes.

Em Ávila, mais de 50 mil hectares foram queimados, no maior incêndio em extensão da história recente da Espanha. A investigação atribui o início do fogo ao uso de uma escavadeira que estaria trabalhando sem autorização num período em que máquinas capazes de produzir faíscas estavam proibidas devido ao risco extremo. O processo ainda não foi concluído.

Na região de Madri, as estimativas variam entre 27 mil e 34 mil hectares queimados. Pelo menos cem moradias usadas como residência principal foram destruídas. As chamas não chegaram à capital espanhola, mas os efeitos dos incêndios foram sentidos na cidade.

O vento transportou a fumaça das áreas atingidas até o centro de Madri. Combinada a uma intrusão de poeira de origem africana, a fumaça deixou a cidade durante várias horas sob um céu amarronzado, com cheiro de queimado, partículas em suspensão e piora da qualidade do ar.

Diante desse cenário, as autoridades recomendaram que a população permanecesse em casa sempre que possível, fechasse portas e janelas e evitasse exercícios ao ar livre. Para quem precisasse sair, a orientação era utilizar uma máscara FFP2, correspondente à PFF2 brasileira.

No auge da emergência, cerca de 90 mil pessoas ficaram sob ordens de evacuação ou confinamento em Ávila, Madri e Toledo.

Emergência nacional e ajuda internacional

A dimensão dos incêndios provocou uma ampla mobilização. Moradores ajudaram no combate às chamas, organizaram doações e se uniram para levar água, alimentos, máscaras e ferramentas aos voluntários. Em algumas áreas, agricultores utilizaram tratores para abrir faixas de proteção, enquanto associações atuaram no resgate e na alimentação de animais.

A Espanha também recebeu ajuda internacional. Por meio do Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia, Grécia, Itália e Turquia enviaram seis aviões de combate a incêndios. Portugal mobilizou 134 profissionais e 41 veículos.

Frente à gravidade da situação, o governo espanhol declarou uma emergência de interesse nacional. Foi a primeira vez que esse mecanismo foi acionado no país por causa de incêndios florestais.

O ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, assumiu a direção da emergência, enquanto a Unidade Militar de Emergências (UME) ficou responsável pela direção operacional. Mais de 3 mil profissionais de diferentes equipes foram mobilizados.

Fatores que favorecem a propagação das chamas

A crise começou mais cedo em 2026. Em 2025, a maior parte da área queimada se concentrou em agosto. Neste ano, a Espanha já havia registrado 17 grandes incêndios apenas nos primeiros 24 dias de julho, quase o dobro da média histórica para o mês.

Isso não significa necessariamente que tenha havido mais focos. Segundo uma análise da ONG WWF citada pelo jornal espanhol El País, o número de incêndios ficou 33% abaixo da média da última década, mas uma proporção maior escapou do controle inicial e se transformou em eventos extensos e difíceis de combater.

As sucessivas ondas de calor ressecaram a vegetação, reduziram a umidade e mantiveram as temperaturas elevadas inclusive durante a noite. As chuvas do inverno e da primavera também favoreceram o crescimento de plantas e arbustos que, posteriormente, secaram e passaram a alimentar as chamas.

O abandono de atividades agrícolas e pecuárias contribui para a acumulação de vegetação, enquanto a expansão de casas e urbanizações próximas às florestas aumenta a exposição da população.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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