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Imigrantes se arriscam em barcos ilegais rumo à Europa

Série de fotos mostra o drama de refugiados que fogem da guerra em busca de um futuro melhor em terras europeias. Travessia se dá em barcos lotados e com pouca segurança; centenas de pessoas já morreram em alto-mar.

2 set 2014
13h29
atualizado às 13h30
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Eles são conhecidos como os “barcos da morte” pela quantidade de vítimas que já deixaram na travessia pelo Mar Mediterrâneo, entre o norte da África e a Europa. Pessoas pagam entre mil e dois mil euros cada uma para fugir da realidade em seus países de origem, quase sempre de conflitos armados, fome, perseguição étnica, políticas ou religiosas.

<p>Refugiados tentam vida nova em países da Europa</p>
Refugiados tentam vida nova em países da Europa
Foto: UNHCR/ A.DAmato

A maioria dos passageiros são refugiados sírios, mas há também africanos e asiáticos, que buscam cruzar o mar para tentar uma vida nova em países europeus. A jornada dura várias horas e é recheada de incertezas, já que não há garantias de que o destino será alcançado.

“Tudo que fazíamos era rezar a Deus para que chegássemos com vida à Europa. Muitas crianças choravam, homens ficávam em silêncio ou tentavam acalmar os mais abalados emocionalmente”, disse uma mulher síria à repórter da Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

Segundo a agência da ONU, 1.200 pessoas já perderam a vida em barcos superlotados que sucumbiram ao mar agitados e tempestades ou devido à doenças e desidratação. Muitas das vítimas eram mulheres e crianças, famílias inteiras cujos sonhos se perderam no fundo do mar.

Países como Itália, Grécia, Espanha e Malta são os destinos preferenciais pela proximidade com o norte africano, o que levou os governos destes países a mobilizarem seus militares para operações de interceptação e salvamento.

Foto: Divulgação

Pontos laranjas
Na imensidão do mar azul, helicópteros e navios da Marinha italiana patrulham em busca do que eles chamam de “pontos laranjas”, em referência aos coletes salva-vidas usados pelo passageiros dos “barcos da morte”.

“Você sente o impacto quando eles chegam. Não é algo que você pode estar sempre preparado. Cada vez é diferente da anterior”, disse o capitão do navio militar italiano à repórter da Acnur enquanto faziam a aproximação a um barco com refugiados em alto-mar.

Em um período de seis horas, o navio italiano San Giorgio resgatou 1.171 homens, mulheres e crianças de quatro barcos diferentes. Outro navio, o Etna, trouxe à bordo 1.023 pessoas. Muitos carregavam poucos pertences, outros apenas traziam as roupas que vestiam, desesperados para subir à bordo.

A Acnur descreveu as cenas dos passageiros ao desembarcarem no navio militar como de “alta carga emocional”, em que homens, mulheres e crianças se abraçavam em felicidade pela fim da jornada perigosa. Famintos e cansados, os passageiros são levados para serem examinados por médicos – incluindo jovens mulheres ainda grávidas.

A Acnur diz que dezenas de barcos atravessam o mar em direção à Europa, levando, em média, 200 pessoas em barcos com condições precárias, mas já houve casos de 300 ou mais passageiros à bordo.

Dados da ONU mostram que nos primeiros seis meses de 2014, a Itália foi o país europeu que mais recebeu refugiados, com quase 64 mil pessoas, seguida de Grécia (10.080), Espanha (1.000) e Malta (227). A Itália, aliás, viu um aumento de 500% em chegadas de refugiados neste período em relação ao mesmos primeiros seis meses de 2013.

Do total de 1,2 mil mortos na travessia no mar, o mês de agosto sozinho registrou 300 mortes em  naufrágios ou até mesmo sufocamento à bordo devido à superlotação.

Fugas

Militares italianos disseram à Acnur que o barco trazia gente de nacionalidades diferentes e bastante distintas, como República Centro-Africana e Caxemira. Além destes, havia pessoas do Sudão, Eritrea, Paquistão, Somália e, a grande maioria, da Síria.

Falando à Acnur, uma mulher disse, com lágrimas nos olhos, que era síria e que vinha da “cidade onde a revolução começou”. “Sou de Daara e agora minha cidade se foi”, disse ela.

Um homem vindo da Caxemira, no lado paquistanês, disse que seu nome era Khan, 54 anos, e que foi forçado ao exílio após as operações militares na região terem criado uma situação de “inferno”para viver. “Um contrabandista em Lahore (Paquistão) me prometeu uma vida melhor no Ocidente”, disse ele que teve que usar todo o dinheiro que havia guardado para pagar pela jornada.

Outro homem, Mamadou, 25, explicou que era de Mali e que ficou desalojado após um levante e um golpe de Estado em 2012, e que o levou a uma viagem perigosa até a Líbia. “Eu sabia que a Líbia era muito perigosa, mas eu ouvi falar dos barcos que levavam pessoas até a itália. Eu tive que arriscar, já que estava em fuga por mais de um ano”.

As histórias são quase sempre muito parecidas e de argumentos para arriscarem suas vidas. Alguns fugiram de conflitos armados, outros de perseguições políticas ou religiosas. Mas havia casos de fuga de trabalho escravo e também de vítimas de gangues criminosas.

Afwerki, 25, pagou 900 euros pela viagem no mar. O preço cobrado pelos contrabandistas tirou dele todas as suas economias. Anos atrás, ele fugiu de sua terra natal, a Eritrea, para evitar o serviço militar, indo parar na Etiópia como refugiado, onde ele sentia que “não poderia viver livre e seguro”.

“Eu sou de um lado errado da fronteira (Etiópia e Eritrea têm relações tensas e rivalidade histórica)”, revelou Afwerki, esperançoso de que sua vida realmente terá início na Europa.  Segundo a ONU, os sírios se tornaram na maioria dos refugiados que buscam uma vida melhor na Europa para fugir d conflito, que iniciou em 2011, e já matou mais de 190 mil. De acordo com a organização, o número de refugiados sírios na região do Oriente Médio e fora dele já chegou à marca de 3 milhões de pessoas, com outros 6,5 milhões desalojados dentro da Síria.

É o caso de Anwar, 76, que tentou aguentar o quanto pôde até ter que deixar sua casa ancestral na Síria. “Eu não sei o que vou fazer. Depois de 75 anos em meu país, fomos forçados a fugir, eu e meus filhos. Como isso é possível?”, salientou ele enquanto olhava para seu neto.

Sentada em uma sala lotada com famílias de refugiados, Thurayya, da cidade síria de Latakia, fugiu de sua terra natal com seus dois filhos, o marido e outros seis parentes. Professora de inglês em uma escola de ensino fundamental na Síria, ela se mostrava ansiosa para chegar à Itália. “Quando você acha que chegaremos à Itália?”, perguntou para a repórter da Acnur.

Horas depois, o navio italiano atracava no porto, e para estes viajantes, famintos e exaustos, a vida iniciava de novo.

*Este texto foi compilado em parceria entre Terra e a Acnur, as entrevistas foram cedidas pela agência da ONU.

Fonte: Especial para Terra

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