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França: milhares de estudantes do ensino médio realizam '3° ato' de mobilização nacional

Dezenas de milhares de estudantes do ensino médio saem às ruas das principais cidades da França nesta terça-feira (6), após duas semanas de mobilização marcadas por violência e confrontos com a polícia. A terceira jornada de protesto nacional, convocada pela União Sindical dos Estudantes Secundaristas e pela União Estudantil, é apoiada também por universitários, sindicatos de professores e de agricultores.

6 out 2026 - 10h45
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Resumo
Milhares de estudantes secundaristas mobilizaram-se na França nesta terça-feira, paralisando quase 900 escolas em protesto por mais recursos, melhores condições de ensino e oportunidades. O movimento, apoiado por sindicatos e partidos de esquerda, reuniu cerca de 86 mil pessoas e gerou tensões com a polícia, marcada por denúncias de violência contra jovens. Diante da crise e de negociações frustradas, o governo determinou a retomada das aulas e prometeu apresentar medidas até o fim do mês.

Em um clima social tenso, a pouco mais de seis meses da eleição presidencial francesa, um quarto das escolas de ensino médio (891 de 3.700) teve as aulas "suspensas, seja total ou parcialmente" nesta terça-feira, segundo o Ministério da Educação do país.

"Hoje estou protestando porque temo pelo meu futuro e quero reivindicar meus direitos", explicou à AFP a estudante Selma, de 15 anos, dizendo-se "um pouco revoltada", enquanto participava da grande marcha em Marselha, no sul do país.

Uma mobilização semelhante ocorre em Nantes, no oeste, onde os manifestantes, em sua maioria adolescentes, caminhavam sob uma faixa com os dizeres: "Escolas sem dinheiro, país sem futuro".

Em Toulouse, no sudoeste, Anne, uma psicóloga aposentada de 68 anos, participava do protesto por solidariedade aos estudantes. "O movimento deles me parece totalmente legítimo e tão mal compreendido, pelo menos por enquanto, pelo governo", avaliou ela.

Durante a manhã, as manifestações reuniram cerca de 86 mil pessoas em várias regiões, segundo dados do Ministério do Interior. Uma marcha está prevista para esta tarde em Paris, para a qual foram destacados 2 mil policiais.

Até o momento, nenhum incidente grave foi registrado, mas os danos materiais e os confrontos violentos com as forças de segurança nos últimos dias geram receio de novos tumultos.

Estudantes se reúnem antes do início de uma manifestação contra a falta de recursos nas escolas, em Paris, nesta terça-feira, 6 de outubro de 2026.
Estudantes se reúnem antes do início de uma manifestação contra a falta de recursos nas escolas, em Paris, nesta terça-feira, 6 de outubro de 2026.
Foto: RFI

Preocupações em comum

A imprensa francesa cobre em peso as manifestações estudantis. O jornal Le Monde dá destaque a depoimentos de estudantes que participam dos bloqueios em centenas de escolas francesas. Apesar da grande quantidade de reivindicações, há preocupações em comum, como a falta de professores e profissionais de saúde nos estabelecimentos de ensino, salas degradadas, turmas lotadas, pressão do sistema de seleção universitária e um sentimento crescente de insegurança em relação ao futuro.

Os depoimentos recolhidos em Paris, Marselha, Toulouse e Lyon revelam também uma demanda por mais igualdade de oportunidades e por serem ouvidos pelo governo. A reportagem ressalta ainda a rejeição dos estudantes à violência e sua indignação com a atuação policial, após milhares de detenções e investigações abertas sobre possíveis excessos das forças de segurança.

Na segunda-feira (5), um estudante de 15 anos de Lens, no norte da França, teve uma mão arrancada por uma granada atirada por um policial, em circunstâncias que ainda estão sendo investigadas. Em Metz, no leste, as autoridades abriram uma investigação depois que viralizou nas redes sociais o vídeo de um policial assediando sexualmente uma menina de 14 anos imobilizada por ele no chão.

Desde o início da mobilização estudantil, em 29 de setembro, cerca de 190 estudantes ficaram feridos, a maioria em decorrência de acidentes, segundo o Ministério da Educação da França. O governo contabiliza ainda 24 estabelecimentos incendiados ou vandalizados e 78 membros do corpo docente e administrativo feridos, em casos atribuídos, na maior parte das vezes, a pessoas externas às escolas envolvidas nos protestos.

As irregularidades das operações policiais intrigam o jornal Libération, que concentra a sua cobertura na crescente tensão em torno da mobilização. A reportagem descreve o que considera uma "repressão sem precedentes", denunciada pelos sindicatos estudantis e apoiadores do movimento. 

Embora reconheça episódios de violência, depredações e confrontos, a publicação destaca as críticas ao uso desproporcional da força pelas autoridades e dá espaço a sociólogos que apontam a repressão policial como um dos fatores que alimentaram a escalada dos protestos. O jornal também observa que a maioria dos estudantes rejeita os atos de vandalismo e teme que eles desviem a atenção das reivindicações centrais, como melhores condições de ensino e mais recursos para as escolas.

Estudantes entoam slogans durante uma manifestação contra escolas com falta de recursos, em Paris, na terça-feira, 6 de outubro de 2026.
Estudantes entoam slogans durante uma manifestação contra escolas com falta de recursos, em Paris, na terça-feira, 6 de outubro de 2026.
Foto: RFI

Falta de diálogo com o governo

O jornal Le Figaro enfatiza o crescimento da mobilização antes da jornada nacional de protestos deste 6 de outubro. O diário destaca que os sindicatos estudantis convocaram um "ato III" da mobilização após considerarem infrutíferas as negociações com o ministro da Educação, Édouard Geffray.

O jornal chama atenção para o amplo apoio recebido pelo movimento, que reúne sindicatos da Educação, além de partidos de esquerda como França Insubmissa (LFI), Partido Socialista (PS) e Partido Comunista Francês (PCF). Outro ponto ressaltado é a tentativa de ampliar a mobilização por meio da convergência de lutas, com a participação anunciada de agricultores, que pretendem se juntar aos protestos com tratores.

Diante da crescente mobilização, o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, encaminhou, na noite de domingo (4), uma carta de orientação aos integrantes do governo, determinando que as aulas sejam retomadas "em todos os locais onde for possível". O documento também estabelece um calendário de medidas destinadas a responder, ao menos parcialmente, às demandas do movimento.

Como parte dessa resposta, o premiê encarregou diferentes áreas do governo de desenvolver cinco frentes de trabalho baseadas nas principais preocupações apresentadas pelos Conselhos Acadêmicos da Vida Estudantil. Segundo o governo, as primeiras decisões concretas deverão ser anunciadas antes do fim do mês. 

RFI com agências

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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