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Em encíclica, papa pede regulação da IA para 'impedir que ela domine o ser humano'

Em seu primeiro grande documento, intitulado Magnifica Humanitas (Humanidade magnífica), publicado nesta segunda-feira (25) pelo Vaticano, o papa Leão XIV pediu um esforço coletivo para "impedir que a IA domine o ser humano". O pontífice também defendeu a regulação dos algoritmos e denunciou as "novas formas de escravidão" provocadas por sua expansão acelerada.

25 mai 2026 - 09h12
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A encíclica, de 130 páginas, aborda temas como ecologia, crise do multilateralismo e monopólios econômicos. Nela, o papa americano disserta sobre uma série de desafios contemporâneos e se coloca como defensor da dignidade humana na era da revolução digital.

A carta é dirigida a todos os fiéis e estabelece uma posição de referência sobre questões sociais, morais ou teológicas. Leão XIV pede a superação do conceito de "guerra justa", citando o governo de Donald Trump, e critica a delegação de "decisões letais" à tecnologia.

O papa participa pessoalmente de sua apresentação na manhã de segunda, ao lado de altos responsáveis da Santa Sé e especialistas em IA, entre eles o cofundador da startup americana Anthropic. Esta é a primeira vez que um pontífice está presente no evento, o que demonstra sua importância.

Como a IA não pode "ser considerada moralmente neutra", é preciso "desarmá-la" para "impedir que domine o ser humano", defende o papa, que insiste na necessidade de um código ético comum para a IA e no papel crucial da educação para aprender a controlar seus riscos.

Hoje, "o controle das plataformas, das infraestruturas, dos dados e da potência de cálculo não pertence aos Estados, mas a grandes atores econômicos e tecnológicos", que "definem as condições de acesso, as regras de visibilidade e as possibilidades de participação", lamenta.

Papa critica "novas formas de escravidão"

Segundo as Nações Unidas, a IA pode movimentar até US$ 4,8 trilhões até 2033 — um aumento de 25 vezes em uma década —, ao mesmo tempo em que seus benefícios ficam concentrados nas mãos de um número limitado de atores. Em 2025, a ONU já alertava para um "vazio perigoso" na regulação.

Citando Platão, J.R.R. Tolkien, Picasso e Beethoven, por suas contribuições contra a desumanização, o papa americano também critica as "novas formas de escravidão" ligadas à extração de recursos necessários para o uso da IA e pede "soluções tecnológicas mais sustentáveis para reduzir o impacto ambiental".

"Em algumas regiões do mundo, adolescentes e crianças trabalham em condições perigosas, triturando materiais dos quais se extraem terras raras. Corpos marcados, mutilados, desgastados para que o fluxo de processamento não seja interrompido", denuncia.

O bispo de Roma aproveita para pedir "sincero perdão" pelo atraso com que a Igreja condenou "o flagelo da escravidão" ao longo da história. Além das questões tecnológicas, o papa expressa preocupação com o risco de "desumanização", alertando contra uma visão do ser humano reduzido a seu desempenho ou a dados explorados por máquinas.

Desde sua eleição, há um ano, o primeiro papa norte-americano tem multiplicado alertas sobre os perigos da IA, destacando a necessidade de uma "alfabetização digital".

Especialistas estimam que o impacto de Magnifica Humanitas pode ser comparável ao da encíclica Laudato Si', manifesto do papa Francisco sobre ecologia integral que gerou forte repercussão mundial desde sua publicação, em 2015.

O papa Leão XIV participa da apresentação de sua primeira encíclica, onde comentou o impacto da inteligência artificial, no Vaticano.
O papa Leão XIV participa da apresentação de sua primeira encíclica, onde comentou o impacto da inteligência artificial, no Vaticano.
Foto: RFI

Crise do multilateralismo

Ao abordar a crise do multilateralismo, ele reafirma sua condenação ao uso da IA no campo militar. "Nenhum algoritmo pode tornar a guerra moralmente aceitável", escreve.

Sem citar nomes, o papa defende a superação da "teoria da 'guerra justa', frequentemente citada para justificar qualquer conflito", um conceito sustentado, entre outros, pela administração de Donald Trump, lamentando que "a humanidade esteja deslizando para uma cultura violenta de poder", que normaliza a guerra como "instrumento de política internacional".

Em abril, o papa havia recebido críticas da Casa Branca após afirmar que "Deus não ouve as orações daqueles que fazem a guerra", no contexto das tensões relacionadas ao conflito com o Irã.

Esse manifesto se insere na continuidade da doutrina social da Igreja: foi assinado em 15 de maio, data que marca o 135º aniversário da encíclica Rerum Novarum (1891), de Leão XIII, que estabeleceu as bases da doutrina social da Igreja diante da Revolução Industrial.

Magnifica Humanitas conclui vários anos de reflexão da Igreja sobre tecnologias ligadas à IA: já em 2020, a Santa Sé havia lançado, com empresas de tecnologia e instituições acadêmicas, o "Apelo de Roma por uma ética da IA", defendendo um desenvolvimento tecnológico que respeite a dignidade humana.

Com agências

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