Contra aluguéis, ingleses vivem cada vez mais em barcos
Londres é a terceira cidade mais cara do mundo. Nos últimos anos, o preço da moradia tem batido recorde - motivo pelo qual os canais são inundados a cada ano com novos moradores
“Eu vivo em um barco porque é barato”, diz o dono de bar Paul Michelmore, 43 anos. O britânico é dono de um barco onde vive há pouco mais de um ano. “Eu paguei £ 14 mil por esse barco e gastei pouco mais de £ 30 mil para transformá-lo em uma casa”, diz, ao lado da namorada Rosie.
Londres é considerada a terceira cidade mais cara do mundo. Nos últimos anos, o preço da moradia tem batido recorde e, por isso, cada vez mais os canais da cidade são inundados com novos moradores à procura de soluções mais baratas.
O preço de um sala quarto na cidade custa entre £ 175 a £ 600 mil, dependendo da área, enquanto o aluguel no centro pode ultrapassar £ 2 mil (R$ 8 mil) por mês, mais contas e o imposto predial. Na contramão, um barco custa em torno de £ 20 mil e seus moradores pagam taxas equivalentes a £ 880 por ano para obter uma licença. A eletricidade, necessária para abastecer e se movimentar, é obtida através de baterias.
O Terra visitou o interior de um barco de tamanho padrão. O espaço é pequeno. Sala e quarto são no mesmo local, enquanto a cozinha, básica, fica ao lado do cockpit. O estilo não é aconselhável para pessoas que sofrem de claustrofobia ou náuseas.
Michelmore explica as regras. “Você pode ficar no máximo duas semanas no mesmo lugar, mas pode também pagar por vagas especificas. A maioria prefere se mover para outro lugar quinzenalmente”, explica. “Há vários canais pela cidade; só não somos permitidos parar no Tâmisa”, explica. “Eu acabo de retornar de Hackney e ontem estava em Clapham”, diz acrescentando. “Se você deixar o barco parado por mais tempo, pode receber avisos e correr o risco de ser processado, mas é muito raro”, admite.
Apesar de um preço mais em conta por moradia, os problemas podem não ser atraentes. “Eu já tive uma situação de ter o barco arrombado - acontece bastante. É preciso também limpar os dejetos que você acumula a cada três meses utilizando uma maquina especifica para sugar. Mas coisas simples como uma geladeira ou água quente são problemáticas. Geladeira gasta muita energia então a cerveja está sempre morna”, sorri.
Outro morador, ancorado na área do Regent's Canal, o músico William Self, confessa que achar espaço para ancorar o barco tem se tornado um problema. “O número de moradores dos canais aumentou seis vezes nos últimos três anos” diz. “Mas, contanto que haja transporte público e um posto para abastecer onde ancoramos, está tranquilo”, explica. Outro problema que moradores de barco enfrentam é a falta de endereço. “Para ver um médico ou um dentista você precisa ter um endereço e, por isso, as pessoas usam endereços de amigos”, completa o músico.
Vizinhos dos barcos ancorados na região de Limehouse, centro de Londres, não parecem satisfeitos com a companhia dos moradores de canais. Paul Strand, morador de um flat ao lado do canal, reclama da poluição. “Há o problema do barulho; a poluição do ar e da água. Há muitos barcos ancorados no momento”, reclama o britânico.
“Barcos utilizam serviços públicos, mas não pagam imposto à prefeitura por esses serviços. Alguns mandam seus filhos para escolas da região e até se registram para votar na área”, reclama um membro da prefeitura de Islington, Paul Convery.
O grupo CRT (Canal and River Trust), organização sem fins lucrativos que cuida dos canais da Inglaterra e Pais de Gales, emite licenças para os barcos e admite que o aumento no número de moradores de canais é alto e vai além de Londres. A estimativa é de que mais de 11 mil pessoas estejam vivendo em barcos estacionados em canais. O diretor Richard Parry confessa: “Comunidades estão crescendo ao longos dos canais e precisamos ter certeza de que aconteça conforme as regras”, disse.
No ultimo ano, a CRT tem acionado a ajuda de voluntários que circulam em barcos para inspecionar o tempo que pessoas permanecem ancoradas e instigar um bom relacionamento. A maioria dos moradores deste tipo de moradia é de casais (75%), mas houve um aumento significativo de pessoas mais idosas ou que optam pela residência alternativa após divórcios, problemas econômicos ou sociais e ex-soldados.
Michemore pondera o lado negativo: “Eu gosto da comunidade; há muitos músicos e pessoas bacanas vivendo dessa maneira”, diz. “Eu pretendo morar em um apartamento no futuro, mas eu gosto de morar em um barco. É uma aventura”.