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Calor recorde na Europa tem origem 'inequívoca' nas mudanças climáticas, afirma estudo

Um estudo divulgado nesta sexta-feira (26) pelo grupo de cientistas World Weather Attribution (WWA) concluiu que as mudanças climáticas provocadas pelas atividades humanas são "inequivocamente" responsáveis pela intensidade da onda de calor que atinge a Europa Ocidental.

26 jun 2026 - 11h51
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Os pesquisadores, especializados em analisar o papel das mudanças climáticas causadas pela atividade humana em eventos meteorológicos extremos, concluíram que as temperaturas excepcionalmente elevadas registradas durante o dia e a noite teriam sido "praticamente impossíveis" nesta época do ano em 1976, outro período marcado por calor intenso.

Segundo os cálculos dos especialistas, uma onda de calor semelhante ocorrida naquela época teria sido 3,5°C mais amena durante o dia e 2,4°C mais fria durante a noite.

"Concluímos que, nos últimos 50 anos, período em que o planeta aqueceu 1,1°C, a probabilidade de uma onda de calor como esta aumentou muito", afirmou Theodore Keeping, do Imperial College London e um dos autores do estudo. "Este evento não teria sido possível em junho sem as mudanças climáticas", acrescentou durante uma entrevista coletiva.

A Europa Ocidental enfrenta temperaturas extremas há mais de uma semana devido a um fenômeno conhecido como "bloqueio ômega", nome inspirado no formato que lembra a letra grega Ω. O termo "bloqueio" refere-se ao fato de que essa área de alta pressão permanece praticamente estacionária.

Em condições normais, a corrente de jato transporta continuamente os sistemas meteorológicos de oeste para leste. Durante um bloqueio ômega, porém, esse fluxo é interrompido e pode desviar-se significativamente para o norte e para o sul, isolando os sistemas de pressão.

Ventos mais fracos e contrastes de temperatura na atmosfera favorecem a formação desses padrões persistentes e de deslocamento lento. Como resultado, o ar quente fica retido sobre uma mesma região. Os bloqueios ômega costumam durar entre três e dez dias, mas podem persistir por várias semanas.

Atualmente, uma vasta massa de ar quente proveniente da África permanece estacionada sobre a Europa, comprimida por sistemas de alta pressão em grandes altitudes.

"O fenômeno meteorológico em si não é particularmente incomum, mas as temperaturas são, ou pelo menos eram antes das mudanças climáticas provocadas pela ação humana", observou Friederike Otto, também do Imperial College London.

El Niño não contribuiu

Segundo os pesquisadores, esse aquecimento induzido pela atividade humana decorre principalmente do uso intensivo de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural, além do desmatamento. Para realizar o estudo, cientistas de diferentes países europeus compararam observações meteorológicas atuais e previsões para os próximos dias com registros históricos de 2003 e 1976.

Divulgado em caráter preliminar, o estudo ainda não passou pelo processo de revisão por pares, procedimento padrão das publicações científicas. Os autores destacam, no entanto, que a metodologia utilizada já foi amplamente validada pela comunidade científica.

Em termos estatísticos, a ocorrência de noites excepcionalmente quentes é atualmente cerca de 100 vezes mais provável do que durante a histórica onda de calor de 2003. Já os picos de calor durante o dia tornaram-se aproximadamente dez vezes mais prováveis, segundo os cálculos dos pesquisadores.

Os cientistas também descartaram qualquer influência significativa do fenômeno natural El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais das regiões central e oriental do Pacífico equatorial, que pode provocar secas, inundações e recordes de temperatura em diversas partes do mundo. Segundo eles, o fenômeno não desempenhou "nenhum papel" nesta onda de calor.

Friederike Otto ressaltou ainda que o chamado "estresse térmico", condição em que o corpo não consegue manter sua temperatura interna estável diante do calor ou do frio extremos, torna este episódio de calor particularmente perigoso.

De acordo com o estudo, quase 45% das 854 cidades analisadas em 30 países europeus já bateram, ou estão prestes a bater, seus recordes históricos de estresse térmico. Esse fenômeno ocorre principalmente quando as noites, período em que o organismo normalmente se resfria, permanecem quase tão quentes quanto os dias.

A conclusão baseia-se no índice de temperatura de globo e bulbo úmido (WBGT, na sigla em inglês), que considera não apenas a temperatura do ar, mas também fatores como umidade, radiação solar e cobertura de nuvens. Trata-se de um indicador amplamente utilizado para avaliar os riscos do calor extremo, especialmente em atividades esportivas e ocupacionais.

Com AFP

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