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Barcelona: Sagrada Família se torna igreja mais alta do mundo para marcar centenário da morte de Gaudí

A Sagrada Família terá a torre central concluída antes da missa que o papa Leão XIV celebrará nesta quarta-feira (10), em Barcelona, marcando uma nova etapa de uma obra iniciada há mais de 140 anos. Com 172,5 metros, a basílica se tornará a igreja mais alta do mundo. O marco coincide com o centenário da morte do arquiteto Antoni Gaudí e reforça o papel do monumento, financiado inteiramente por doações privadas e ingressos, como símbolo arquitetônico e religioso ainda em construção.

9 jun 2026 - 12h37
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Com informações de Elise Gazengel, correspondente da RFI em Barcelona

O papa Leão XIV celebrará nesta quarta-feira (10), em Barcelona, uma missa na basílica da Sagrada Família que marcará a conclusão da torre central dedicada a Jesus Cristo, etapa decisiva de um projeto iniciado há mais de 140 anos e ainda em andamento. O pontífice chegou à capital catalã na véspera, após compromissos em Madri, onde participou de uma agenda institucional que incluiu discurso no Parlamento e uma missa com grande presença de fiéis. Em Barcelona, além da celebração prevista na Sagrada Família, ele deverá participar de uma vigília no estádio olímpico de Montjuïc, encontrar detentos e visitar a abadia de Montserrat.

A missa na basílica é tratada como o ponto central da viagem do pontífice à Espanha. Durante a celebração, o papa abençoará a torre principal, recém-concluída, que eleva a altura do templo a 172,5 metros. Com isso, a Sagrada Família ultrapassará a catedral de Ulm, na Alemanha, tornando-se a igreja mais alta do mundo. A definição da altura integra o conjunto de decisões simbólicas concebidas por Gaudí. O arquiteto projetou deliberadamente a torre principal para que não superasse o monte Montjuïc, estimado em cerca de 180 metros, refletindo sua convicção de que a obra humana não deveria ultrapassar a criação natural.

A visita papal ocorre em meio a um momento de forte visibilidade internacional da basílica. Em 2025, cerca de cinco milhões de pessoas visitaram o local, consolidando-o como o monumento pago mais frequentado da Espanha. O fluxo diário gira em torno de 13 mil visitantes, o que impõe desafios constantes à operação e à preservação do espaço.

Apesar dos avanços, a construção permanece inacabada. A obra continua financiada exclusivamente por ingressos e doações privadas, sem recursos públicos, o que condiciona diretamente o ritmo de execução à atividade turística.

Um turista tira fotos da Basílica da Sagrada Família, que se torna a igreja mais alta do mundo em 10 de junho de 2026 após a instalação de uma seção de sua torre central, em Barcelona, na Espanha. Imagem de 30 de outubro de 2025.
Um turista tira fotos da Basílica da Sagrada Família, que se torna a igreja mais alta do mundo em 10 de junho de 2026 após a instalação de uma seção de sua torre central, em Barcelona, na Espanha. Imagem de 30 de outubro de 2025.
Foto: RFI

Conclusão da torre central marca avanço histórico

A finalização da torre de Jesus Cristo é considerada um dos marcos mais relevantes da fase contemporânea da obra. Responsável por essa etapa, o arquiteto Mauricio Cortés afirmou que o momento tem peso técnico e simbólico. "Culminar as torres centrais é um feito muito importante para nós", disse, destacando a coincidência com o centenário da morte de Gaudí.

Segundo ele, a materialização da torre superou as expectativas criadas em modelos digitais. "A realidade é mais bonita do que esperávamos", afirmou, ao comentar o impacto visual da estrutura no conjunto da basílica.

O arquiteto diretor Jordi Faulí ressaltou que o projeto atual segue fiel às diretrizes deixadas por Gaudí, ainda que tenha sido necessário reconstruir parte do material original destruído durante a Guerra Civil espanhola. Em 1936, o ateliê do arquiteto foi incendiado, e milhares de fragmentos de maquetes precisaram ser reconstituídos.

Ao todo, cerca de 8.000 peças foram recuperadas e reinterpretadas por discípulos e sucessores, permitindo preservar a lógica estrutural da obra. Esse processo garantiu a continuidade do projeto, mesmo após a perda de parte significativa da documentação original.

No interior, a nave central sintetiza os princípios arquitetônicos de Gaudí. As colunas se ramificam como árvores, criando a sensação de um bosque.

A ausência quase total de linhas retas traduz a concepção do arquiteto, que defendia que "a linha reta é do homem, enquanto a curva pertence a Deus"

A proposta estética, baseada em formas orgânicas e movimento, distingue a basílica de modelos tradicionais e continua a surpreender visitantes, mais de um século após o início da construção.

A montagem da cruz tridimensional que coroa a Torre de Jesus da Sagrada Família.
A montagem da cruz tridimensional que coroa a Torre de Jesus da Sagrada Família.
Foto: RFI

Vida e legado de Gaudí moldam o projeto

A trajetória de Antoni Gaudí está diretamente associada à Sagrada Família. A partir de 1914, ele abandonou outros trabalhos para se dedicar exclusivamente ao templo, passando a viver no local e acompanhando de perto cada etapa da obra.

Em 1926, foi atropelado por um bonde em Barcelona enquanto se dirigia a uma igreja. Vestia-se de forma simples e não portava documentos, o que dificultou sua identificação imediata. Foi levado a um hospital para pessoas sem recursos e morreu três dias depois, aos 73 anos.

Gaudí foi enterrado na cripta da própria basílica, onde permanece. Antes de morrer, deixou planos, maquetes e orientações que permitiram a continuidade do projeto, mesmo sem sua presença. Ao mesmo tempo, o arquiteto concebia a obra como um organismo em evolução. Para ele, a Sagrada Família deveria permanecer aberta a transformações ao longo do tempo, o que contribuiu para as adaptações realizadas por gerações posteriores.

Seu reconhecimento também avançou no campo religioso. O Vaticano declarou Gaudí "venerável", etapa inicial de um processo que pode levar à beatificação. Atualmente, mais de 130 operários trabalham diariamente na construção, muitas vezes em áreas não acessíveis ao público, incluindo níveis elevados da estrutura alcançados por elevadores de serviço.

Turismo sustenta obra, mas pressiona entorno urbano

A dependência de recursos privados faz do turismo o principal motor financeiro da Sagrada Família. A venda de ingressos sustenta diretamente a continuidade das obras, criando uma relação direta entre visitação e avanço do projeto.

O modelo, entretanto, amplia a pressão sobre o entorno urbano. A região ao redor da basílica enfrenta desafios ligados à concentração de visitantes, mobilidade e organização do espaço público. Ao mesmo tempo, a obra se consolidou como um dos principais símbolos internacionais de Barcelona. Iniciada em 1882, a igreja se tornou referência global por sua duração, complexidade técnica e dimensão simbólica.

A moradora Manuela Pompo hesita entre celebração e o avanço do turismo na região. "Não digo que não seja bom, mas é que já temos muita gente aqui e o bairro está lotado. Eu moro logo ali, tem tantos turistas… e com o papa imagino que haverá ainda mais", afirmou à RFI. Mesmo sem esperar pelo papa, ela se declarou feliz em ver a nova torre. "Eu a vejo ali em cima e fico muito contente. Eu gosto muito da Sagrada Família porque é um símbolo de Barcelona, do meu bairro e do mundo inteiro."

Do outro lado da basílica, a também moradora Lourdes Perez se declarou satisfeita com o parque recém-limpo. "Eu estou contente porque, além disso, eu frequento a paróquia, então a vinda do papa é algo a mais! E também, desde que sabemos que ele viria, eles limparam o bairro, refizeram a esplanada", disse. 

Mesmo que só seja oficialmente inaugurada nesta quarta-feira, a torre de Jesus já é visível ao pé da Sagrada Família. Uma ótima notícia para Alex Ceballos, responsável por um restaurante cuja varanda está sempre cheia. "Aqui as pessoas querem ver a Sagrada Família, mesmo quando faz calor, 40 °C, todo mundo quer admirar o monumento. E cada avanço da basílica faz com que o turismo aumente dia após dia. Todo mundo quer saber quando ela ficará pronta, é a pergunta de um milhão!", declarou à RFI.

Quando concluída, a Sagrada Família contará com 18 torres dedicadas a figuras centrais do cristianismo, incluindo apóstolos, a Virgem Maria e Jesus Cristo. Mais de um século após o início das obras, o templo segue como um projeto em transformação. A combinação entre tradição religiosa, inovação arquitetônica e financiamento independente mantém a basílica como um caso único na história contemporânea.

A celebração que será conduzida por Leão XIV deverá marcar não o fim, mas uma nova etapa desse processo, simbolizando ao mesmo tempo avanço físico e permanência de seu significado cultural.

RFI com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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