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Após crise em Ceuta, europeus defendem 'resposta comum' do bloco para reforçar fronteiras

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, defendeu nesta segunda-feira (3) uma "resposta europeia comum" após a entrada ilegal de dezenas de milhares de pessoas em Ceuta, enclave espanhol no norte da África. Os ministros do Interior da União Europeia se reunirão nesta terça-feira (4), por videoconferência, para discutir a situação.

3 ago 2026 - 13h01
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A reunião foi organizada a pedido da Espanha e apoiada por um grupo de 22 países, entre eles Itália e Dinamarca. Durante a crise, ao menos 72 migrantes morreram do lado espanhol da fronteira e outros 11 do lado marroquino.

A chegada em massa de jovens a Ceuta, na quinta-feira (30) e na sexta-feira (31), desencadeou uma crise diplomática entre a Espanha e alguns de seus parceiros europeus mais críticos da política migratória de Madri.

Itália e Dinamarca chegaram a defender a suspensão da Espanha do Espaço Schengen, embora Ceuta não faça parte da área de livre circulação da União Europeia devido a uma exceção jurídica. As declarações irritaram Madri, que pediu a organização de uma reunião dos ministros do Interior do bloco.

O episódio em Ceuta "mostra claramente que precisamos ir além para reforçar nossas fronteiras nos pontos mais sensíveis", escreveu Von der Leyen em carta enviada ao primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.

Entre as medidas citadas estão "maior vigilância e, quando necessário, o uso de barreiras físicas". A presidente da Comissão Europeia ressaltou, porém, que "a proteção das fronteiras externas é uma responsabilidade europeia compartilhada".

O ministro do Interior da França, Laurent Nuñez, descartou qualquer possibilidade de retirada da Espanha do Espaço Schengen. "Está absolutamente fora de questão", afirmou. Segundo ele, a França mantém uma cooperação "muito boa" com a Espanha. Questionado sobre o reforço dos controles na fronteira franco-espanhola, Nuñez respondeu que eles serão mantidos "pelo tempo que for necessário".

Cerca de mil menores permanecem em Ceuta

Segundo o governo espanhol, a "quase totalidade" das cerca de 60 mil pessoas que cruzaram ilegalmente a fronteira, em sua maioria jovens marroquinos, já retornou ao país. No entanto, quase mil menores de idade continuam no enclave, de acordo com a ONG Save the Children.

No fim de semana, centenas de menores desacompanhados dormiam na rua em uma área industrial abandonada de Ceuta. Muitos ainda esperam conseguir chegar ao continente europeu. "Todos os menores aqui vieram para chegar à Espanha", afirmou à AFP Aziz Dabch, um dos poucos adultos presentes no grupo.

Alguns migrantes disseram ter ouvido rumores de que a fronteira estava aberta. A informação se espalhou rapidamente pelas redes sociais. A Espanha atribuiu o fenômeno à atuação de "máfias de tráfico de pessoas".

No Marrocos, as autoridades demoraram a se pronunciar sobre o fluxo migratório, descrito pelo governo de Ceuta como o maior já registrado no enclave. O Ministério do Interior marroquino informou apenas no domingo (2) que 11 pessoas morreram tentando alcançar Ceuta. Somadas às 72 mortes registradas oficialmente do lado espanhol, o número de vítimas chega a pelo menos 83. A maioria morreu afogada. Como as buscas continuam, o número de mortos pode aumentar.

Migrantes são conduzidos por soldados espanhóis em direção à fronteira com Marrocos após entrarem em Ceuta; Espanha afirma ter devolvido a maioria das pessoas que cruzaram ilegalmente para o enclave.
Migrantes são conduzidos por soldados espanhóis em direção à fronteira com Marrocos após entrarem em Ceuta; Espanha afirma ter devolvido a maioria das pessoas que cruzaram ilegalmente para o enclave.
Foto: RFI

"Catástrofe humanitária"

Especialista em migrações no sul da Europa, o jornalista Ignacio Cembrero afirmou à RFI que a tragédia em Ceuta tem dimensões históricas. "A cidade de Ceuta tomou medidas, com ajuda do Exército, porque está completamente sobrecarregada, para receber até 200 corpos. A maioria dos migrantes morreu afogada. É uma catástrofe humanitária, uma tragédia", disse.

Segundo ele, as forças de segurança marroquinas deixaram de impedir as travessias. "Se agiram assim, só há uma explicação: receberam ordens de alto escalão. Como consequência, muita gente atravessou. É um recorde mundial em tão pouco tempo", afirmou.

Cembrero destacou ainda que chegar a Ceuta não significa automaticamente entrar na Europa continental.

"Quando alguém sai de Ceuta, enfrenta controles alfandegários e policiais. Quem não possui a documentação necessária não pode embarcar nos navios com destino à Península Ibérica. Chegar a Ceuta está longe de significar colocar os pés no continente europeu", afirmou.

Pressão sobre Madri?

A Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH) cita quase 130 vítimas e dezenas de desaparecidos. A entidade pediu a abertura de uma investigação independente sobre as causas do fluxo migratório entre a cidade marroquina de Fnideq e o enclave espanhol.

A associação também criticou o que chamou de "silêncio preocupante" das autoridades marroquinas, argumentando que a falta de esclarecimentos contribuiu para a crise.

Uma fonte ligada ao movimento associativo afirmou que "a forma como os acontecimentos ocorreram" sugere o consentimento das autoridades marroquinas. A hipótese levantada é a de que Rabat tenha usado a questão migratória para pressionar o governo espanhol.

Segundo Matthieu Tardis, pesquisador especializado em migrações europeias, ao transformar o controle migratório em uma "questão central", os países europeus dão a seus vizinhos um importante instrumento de pressão política.

"A instrumentalização das migrações não é nova e tende a se multiplicar à medida que a Europa transfere a países terceiros parte da gestão dos fluxos migratórios", afirmou. Ele citou episódios semelhantes envolvendo Grécia e Turquia, além de Polônia e Belarus.

RFI com agências

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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