Estratégia israelense no Líbano replica método usado em Gaza
Arrastado para a guerra após ataques do Hezbollah e a dura resposta de Israel, o Líbano enfrenta uma escalada devastadora: bombardeios se intensificam, milhares fogem e o frágil equilíbrio político do país ameaça ruir, enquanto estratégias usadas em Gaza se repetem no território libanês.
As revistas francesas desta semana trazem reportagens sobre a situação no Líbano em meio ao conflito no Oriente Médio. O país foi arrastado para a guerra após os ataques do Hezbollah, em 2 de março, contra Israel, que retaliou. Em duas semanas, a campanha israelense deixou mais de 800 mortos e cerca de um milhão de deslocados.
Para a L'Express, o Líbano é refém do Hezbollah e vê seu já frágil equilíbrio implodir. Israel ameaçou transformar Beirute em uma nova Faixa de Gaza, exigindo que a população colabore com os serviços israelenses contra o grupo. Segundo a reportagem, a vida na capital libanesa é marcada pelos bombardeios israelenses e pelo trânsito incessante de drones no céu, inclusive sobre o palácio presidencial.
A comunidade xiita representa um terço da população do país e o Hezbollah é, ao mesmo tempo, o principal partido político deste ramo do Islã, um movimento social que administra escolas e hospitais e uma poderosa milícia armada e financiada por Teerã. Desarmá-lo poderia desencadear uma guerra civil, afirma um diplomata libanês entrevistado pela revista.
Personalidades políticas libanesas ouvidas pela L'Express afirmam que toda a população do país é refém da guerra e do grupo armado, e que é necessário negociar e contar com um Exército forte — algo que o país não possui. Para elas, os ataques israelenses reforçam o apoio popular ao Hezbollah e colocam em risco a unidade do Líbano, com a emergência de violências entre comunidades.
Estratégia usada em Gaza
A Nouvel Obs traz entrevistas com refugiados de cidades cristãs do sul do Líbano que fugiram dos bombardeios israelenses. Eles relatam ter recebido alertas em seus telefones, enviados pelo Exército israelense, para que deixassem suas casas. A revista descreve estratégias israelenses para hackear celulares e recrutar informantes — táticas de pressão psicológica que remetem às usadas por Israel em Gaza.
Assim como em Gaza, quatro hospitais foram atingidos e danificados, cinco tiveram de fechar e 49 centros de cuidados primários deixaram de funcionar em 10 de março. O médico britânico-palestino Ghassan Abu-Sittah, que trabalha em Beirute, afirma à revista que a destruição do sistema de saúde costuma ser uma etapa preparatória para esvaziar um território e sua população.
Nos últimos dias, os ataques se multiplicaram em todo o país, enquanto unidades blindadas avançam pelas cidades do sul. Em Jerusalém, autoridades militares falam abertamente sobre a preparação de uma operação terrestre destinada a eliminar o Hezbollah e ocupar o sul do Líbano.
Na guerra de 2024, algumas cidades cristãs foram poupadas, e muitos acreditavam que poderiam ficar afastados do conflito desta vez. Mas os cristãos do sul acusam o Hezbollah de ter arrastado toda a região para uma guerra que não é deles. Outros denunciam a ausência do Estado e de seu Exército, incapaz de protegê-los.