Diplomacia frágil e pressões políticas internas em Israel impedem desescalada no Líbano
Israel intensificou nos últimos dias a ofensiva terrestre no Líbano, onde realiza a incursão militar mais profunda em 26 anos. A fragilidade dos esforços diplomáticos liderados pelos Estados Unidos e o endurecimento interno em Israel, tanto no plano político quanto militar, reduz o espaço para uma desescalada no curto prazo no conflito contra o Hezbollah, avalia a imprensa francesa desta terça-feira (2).
Para o "Le Parisien", o conflito entrou em uma lógica de expansão permanente, com Israel ultrapassando as linhas tradicionais de combate e avançando profundamente no sul do Líbano, com o objetivo de criar uma zona tampão até o rio Litani.
O jornal enfatiza o elevado custo humano da ofensiva, com mais de 3.400 mortos e mais de um milhão de deslocados libaneses desde março, além da evacuação de civis israelenses no norte do país sob ataques constantes do Hezbollah.
Apesar das tentativas de mediação dos Estados Unidos, nenhuma das partes dá sinais de recuo, e a guerra segue alimentada tanto por imperativos de segurança quanto por pressões políticas internas sobre o governo de Benjamin Netanyahu.
O foco do "Libération" é o impacto imediato sobre os civis e o clima de apreensão em Beirute diante da ameaça de novos bombardeios. O diário descreve retiradas em massa da população na periferia sul da capital libanesa, reduto do Hezbollah, em meio a alertas israelenses e negociações conduzidas sob pressão em Washington.
Segundo o jornal, a população vive em um ciclo repetitivo de fuga e retorno, enquanto a ofensiva israelense se intensifica no sul e ignora, na prática, os apelos internacionais por contenção. A intervenção de Donald Trump evidencia a centralidade decisiva dos Estados Unidos, mas também a fragilidade de qualquer tentativa de estabilização.
Guerra religiosa
Já o "Le Figaro" chama atenção para a evolução interna das Forças de Defesa de Israel, marcada pela crescente influência de correntes nacional-religiosas e messiânicas no exército.
O jornal aponta que essa corrente ideológica, cada vez mais presente entre soldados e oficiais, promove uma visão da guerra como missão religiosa e histórica, o que contribui para legitimar um uso mais amplo e menos restrito da força militar. Essa transformação estrutural ajuda a explicar a persistência da estratégia de confrontação e a dificuldade de aceitar soluções diplomáticas.
Para o "Le Monde", esse quadro se articula à pressão direta dos Estados Unidos sobre Israel. A ordem de Donald Trump para suspender um ataque a Beirute reforça a percepção de que Washington é o único ator capaz de conter a escalada israelense.
Ao mesmo tempo, a decisão expõe fissuras políticas internas e enfraquece Netanyahu, pressionado tanto por aliados da extrema direita, favoráveis a uma ofensiva mais dura, quanto por opositores que o acusam de ceder à influência externa. Nesse cenário, marcado por impasse diplomático, radicalização ideológica e intensificação militar, a guerra se consolida como o principal, e talvez único, horizonte estratégico no curto prazo.
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