Deputados britânicos rejeitam legalização da ajuda para morrer na Inglaterra e País de Gales
Após um revés em abril, um projeto de lei destinado a legalizar a ajuda para morrer na Inglaterra e no País de Gales foi rejeitado nesta sexta-feira (11) pelos deputados britânicos, após quatro horas de debates marcados pela emoção.
O Parlamento britânico rejeitou, por 286 votos contra 270, o projeto de lei que legalizaria a ajuda para morrer na Inglaterra e no País de Gales para doentes terminais com menos de seis meses de vida. A proposta, que exigia aval médico e autoaplicação da substância letal, acabou arquivada após intensos debates éticos sobre dignidade no fim da vida versus a proteção de vulneráveis. O governo manteve postura neutra, e o resultado distancia o Reino Unido de países que já autorizam a prática.
A votação era considerada apertada. No fim, 286 deputados votaram contra o texto e 270, a favor.
O projeto, agora arquivado, previa tornar a ajuda para morrer acessível a alguns pacientes com expectativa de vida inferior a seis meses. O pedido de um paciente teria de ser aprovado por dois médicos e por um grupo de especialistas, e a própria pessoa teria de ser capaz de administrar a substância letal.
Com a rejeição, o Reino Unido se distancia de vários outros países, como Bélgica, Canadá, Suíça e Uruguai, que adotaram o direito à ajuda para morrer. Na França, o Parlamento aprovou em julho, após anos de debates, essa importante reforma social do governo de Emmanuel Macron.
O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, que chegou a Downing Street em julho, havia declarado que não participaria da votação para não "influenciar o debate". O governo trabalhista adotou posição neutra sobre o projeto, e os deputados foram convidados a votar de acordo com sua consciência.
"Pesadelos"
A proposta, que provocou intensos debates no país e no Parlamento, havia sido aprovada pelos deputados em uma votação apertada em junho de 2025. Mas acabou abandonada em abril, após um longo impasse na Câmara dos Lordes, a câmara alta do Parlamento, que não é eleita.
Uma deputada trabalhista reapresentou o texto, em uma versão quase idêntica, em meados de junho.
Para seus defensores, a legalização da ajuda para morrer permitiria que adultos em fase terminal encerrassem a vida com dignidade. Seus críticos, porém, consideram que a medida poderia pressionar pessoas com deficiência e idosos.
Durante o debate desta sexta-feira, a deputada trabalhista Janet Daby explicou que havia mudado de opinião após as votações anteriores. Ela disse ter tido "pesadelos sobre a morte e o ato de morrer" depois de votar a favor do projeto.
Lauren Edwards, deputada trabalhista autora do projeto, acusou o Parlamento de ter "deixado passar sua chance", afirmando que a legislação atual, que pune a ajuda para morrer com até 14 anos de prisão, era "simplesmente cruel e injusta demais para ser mantida como está".
Para a associação Dignity in Dying, que defende uma lei autorizando a ajuda para morrer, a rejeição representa "um revés devastador para as pessoas no fim da vida".
"Essa questão não desaparecerá. A mudança da legislação sobre a ajuda para morrer continua sendo uma questão de 'quando', e não de 'se'", afirmou a organização.
"Vamos tentar novamente"
Rebecca Wilcox, cuja mãe, Esther Rantzen, é uma estrela da televisão britânica com câncer em fase terminal, compartilhou o mesmo sentimento. "Estou completamente arrasada", disse à AFP. Mas "vamos tentar novamente", prometeu.
Já o coletivo Assist Us To Live, formado por pessoas com deficiência e pacientes com doenças terminais, considerou a votação uma "vitória" para "todos aqueles que esse projeto de lei teria colocado em perigo".
Philip Friend, de 80 anos, ativista pelos direitos das pessoas com deficiência, disse sentir "alívio". "Estávamos realmente preocupados com esse projeto (...) que não tinha as proteções" necessárias, afirmou à AFP.
Segundo uma pesquisa do Ipsos realizada em 7 de setembro, dois em cada três britânicos são, em princípio, favoráveis à legalização da ajuda para morrer.
Até o momento, apenas as ilhas de Jersey e Man, dependências da Coroa britânica com governos próprios, aprovaram textos semelhantes, que ainda aguardam a sanção real para entrar em vigor.
O Parlamento escocês rejeitou em meados de março, por 69 votos a 57, um projeto destinado a legalizar a ajuda para morrer.
com AFP
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