Covid: governo britânico agiu 'tarde' e poderia ter evitado 23 mil mortes com lockdown antecipado, diz estudo
Cerca de 23 mil mortes poderiam ter sido evitadas na Inglaterra se o primeiro confinamento no início da pandemia de Covid-19 tivesse sido determinado mais cedo, apontam os resultados de uma investigação pública divulgados nesta quinta-feira (20). O relatório sugere ainda que o governo britânico, então dirigido pelo premier conservador Boris Johnson, não levou o tema a sério até ser "tarde demais".
Informações de Emeline Vin, correspondente da RFI em Londres, e agências
Ao longo da pandemia, o Reino Unido registrou um dos balanços mais graves da Europa, com cerca de 226 mil mortos pela doença. O levantamento aponta explicitamente a responsabilidade do governo da época, que se mostrava muito "otimista" no começo de 2020.
As conclusões fazem parte do segundo relatório fruto de uma investigação pública conduzida por uma comissão de inquérito, formada por uma juíza e um corpo profissional multidisciplinar, para avaliar a gestão da pandemia pelas autoridades britânicas.
O confinamento obrigatório foi determinado em 23 de março no Reino Unido, cerca de três meses após o início da epidemia, que começou na China e se espalhou pelo mundo. Segundo o estudo, dezenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se o governo britânico tivesse imposto o lockdown dias antes, em março de 2020.
"Essa falta de urgência e o aumento enorme do número de infecções tornaram inevitável um confinamento obrigatório, que deveria ter sido determinado uma semana mais cedo. Modelos mostram que, apenas na Inglaterra, teria havido cerca de 23 mil mortes a menos na primeira onda" da pandemia, ou seja, até julho de 2020, destaca o estudo.
As autoridades não conseguiram avaliar a ameaça à saúde e desperdiçaram todo o mês de fevereiro de 2020, "um mês perdido", e a falta de reação do governo é "imperdoável", sublinham os pesquisadores.
Cultura tóxica em Downing Street
A investigação acrescenta que a atitude de Boris Johnson, entre 2019 e 2022, "prejudicou a mensagem séria que ele deveria ter transmitido à população". O estudo considera que a postura "tóxica e caótica" na Downing Street, residência oficial do chefe do governo britânico, no começo da pandemia dificultou "uma tomada de decisões sensata".
As 750 páginas do relatório são reveladoras para o antigo governo conservador, detalhando também a influência negativa de assessores políticos, a recusa em ouvir os profissionais de saúde e a comunicação confusa.
Além disso, as festas organizadas na residência do primeiro-ministro — apelidadas de "partygate" e que mais tarde contribuíram para a queda de Boris Johnson — "enfraqueceram a confiança do público nas decisões oficiais" e aumentaram o risco de os britânicos deixarem de respeitar as regras do confinamento.
Os governos nacionais da Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte também são criticados por sua lentidão e falta de coordenação com Londres. Erros que se repetiram durante o segundo lockdown, no inverno de 2020.
Um dos objetivos da investigação é aprender com os equívocos da gestão desse período e evitá-los eventualmente no futuro. Entre as recomendações estão: esclarecer o processo de tomada de decisão em caso de emergência nacional, comunicar melhor com o público em geral e levar mais em conta os impactos potenciais sobre a população mais vulnerável.
(RFI com AFP)