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Contra Trump, Macron e premiê do Canadá devem reafirmar coesão em reunião

O presidente francês, Emmanuel Macron, inicia neste sábado (19) uma visita a Saint-Pierre et Miquelon, território francês situado a 25 quilômetros da ilha canadense de Terra-Nova. O líder se reunirá no domingo (20) com o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney. Os dois pretendem demonstrar coesão diante das controversas declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que considera essa região do mundo sua área de influência e ameaça anexar o Canadá.

18 set 2026 - 13h03
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Resumo
Em resposta às tensões com Donald Trump, França e Canadá reforçam sua aliança estratégica no Atlântico Norte. Durante visita ao arquipélago francês de Saint-Pierre et Miquelon, Emmanuel Macron busca consolidar a presença geoestratégica francesa perto do Ártico e apoiar o desenvolvimento local, afetado pelo declínio populacional e pelo aquecimento global. A iniciativa coincide com a aproximação histórica entre o Canadá e a União Europeia, desafiando abertamente as pressões comerciais de Washington.

Segundo comunicado divulgado pelo Palácio do Eliseu, em meio a novas "rivalidades", a França pretende reafirmar sua "presença geoestratégica" próxima dos Estados Unidos e do Ártico. As rotas marítimas da região também despertam o interesse da Rússia e da China, destaca o governo francês. 

O premiê canadense acaba de retornar de Estrasburgo, no leste da França, onde formalizou uma importante aproximação entre seu país e a União Europeia. A decisão irritou Donald Trump, que já travava uma intensa guerra comercial contra Ottawa.

"Os canadenses estão unidos na convicção de que ninguém ditará a língua que falamos. Ninguém ditará nossa cultura nem com quem podemos firmar acordos internacionais", declarou Carney à imprensa, após um discurso solene diante do Parlamento Europeu. 

O presidente americano publicou no início de setembro um mapa na internet cobrindo com a bandeira dos Estados Unidos o Canadá, a Groenlândia, o México e as Antilhas, incluindo também Saint-Pierre et Miquelon. "O Canadá e a Europa são mais fortes juntos", reiterou Mark Carney no Parlamento Europeu, elogiando a proposta da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, de tornar o Canadá o primeiro "membro associado" do bloco europeu. 

A última visita de um presidente francês ao arquipélago ocorreu em 2014, durante o mandato de François Hollande. Saint-Pierre et Miquelon foi o primeiro território francês a passar para o controle da França Livre em 1941, por ordem do general Charles de Gaulle e contra a posição dos Estados Unidos, que defendiam uma administração sob tutela aliada. 

Após a viagem, Macron viaja para Nova York, onde participará da Assembleia Geral das Nações Unidas. Segundo o Eliseu, a visita tem o objetivo de "abrir uma nova trajetória" para o arquipélago nos próximos 10 a 15 anos e transformá-lo na "base de apoio de uma cooperação polar em parceria com o Canadá e a Groenlândia". 

Menor território ultramarino francês, com menos de 6.000 habitantes distribuídos por 240 km², Saint-Pierre et Miquelon enfrenta diversos desafios: alto custo de vida, distância da França continental, porto envelhecido e declínio demográfico devido à falta de renovação econômica. "Precisamos dar um novo impulso com projetos ambiciosos nas áreas digital, aérea e marítima", disse Annick Girardin, senadora do arquipélago e ex-ministra dos Territórios Ultramarinos de Emmanuel Macron, afirmando esperar declarações "fortes" do presidente. 

Saint-Pierre, principal cidade do arquipélago francês de Saint-Pierre e Miquelon, fica próxima da costa de Terra-Nova, no Canadá. O território sediará conversas entre Emmanuel Macron e o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, enquanto França e Canadá buscam aprofundar seus laços.
Saint-Pierre, principal cidade do arquipélago francês de Saint-Pierre e Miquelon, fica próxima da costa de Terra-Nova, no Canadá. O território sediará conversas entre Emmanuel Macron e o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, enquanto França e Canadá buscam aprofundar seus laços.
Foto: RFI

Resistência à realocação 

O chefe de Estado estará acompanhado de dirigentes das empresas espaciais francesas Skynopy e Look Up, além da SCLES, que desenvolve um projeto de cabo digital entre a Bretanha e Nova York, com uma possível ramificação para Saint-Pierre. 

Macron deverá fazer anúncios sobre a renovação do porto de Saint-Pierre, por onde passa o abastecimento do arquipélago e que corre risco de colapso. Outros temas em pauta são a substituição do patrulheiro Fulmar, um antigo barco de pesca adaptado e atualmente o único navio da Marinha francesa no arquipélago, além do financiamento da segunda fase da transferência do vilarejo de Miquelon, onde vivem cerca de 600 pessoas e que será visitado pelo presidente. 

A obra acaba de ser iniciada com a construção de cerca de uma dúzia de casas em uma nova área situada 1,5 quilômetro adiante. O processo promete ser longo e está longe de obter apoio generalizado no território.

"O vilarejo original ainda estará lá daqui a 50 anos", afirma Stéphane Lenormand, deputado de Saint-Pierre et Miquelon. Segundo ele, "é cedo demais" para a mudança e "metade da população do vilarejo é contrária" ao projeto. 

Queda da população e alto custo de vida

O arquipélago registra declínio populacional, retração da atividade pesqueira e consequências do aquecimento global. A elevação do nível do mar obrigará à realocação de um dos vilarejos do território. O arquipélago tinha 5.790 habitantes em 1º de janeiro de 2023, segundo o instituto francês de estatísticas Insee, menos do que os 6.316 registrados em 1999. 

Desde 2016, o número de mortes supera o de nascimentos todos os anos, com exceção de 2021. Em 2025, foram registrados 51 óbitos e 36 nascimentos, de acordo com o Instituto de Emissão dos Departamentos Ultramarinos (IEDOM). Mesmo assim, o deputado Stéphane Lenormand demonstra otimismo. "Em 2026, teremos mais de 64 nascimentos", disse.

Em relação à atividade pesqueira, a imposição de uma moratória canadense sobre a pesca do bacalhau e uma decisão arbitral de 1992 limitaram a zona econômica exclusiva francesa a 12.400 km². As medidas afetaram a produção, que em 2017 e 2022, foi de 367 toneladas por ano, contra 974 toneladas entre 2010 e 2017, segundo o IEDOM.

Oito espécies estão sujeitas a cotas na zona econômica exclusiva francesa e na área 3PS compartilhada com o Canadá: caranguejo-da-neve, pepino-do-mar, alabote-da-Groenlândia, búzios, bacalhau, peixe-vermelho, solha-cinzenta e vieiras. 

Em 2014, a França solicitou à ONU a ampliação de seus direitos sobre o leito marinho da região, pedido contestado pelo Canadá. "Não se trata de um obscuro dossiê técnico, mas da afirmação de nossa soberania", afirma Girardin. "A França precisa decidir se quer ser uma potência subártica ou apenas uma espectadora." 

O arquipélago compra do Canadá quase metade de suas importações. O custo de vida também é elevado: os alimentos eram, em 2022, 70,1% mais caros do que na França continental, segundo o Insee. 

Com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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