Brics encerra cúpula na Índia com defesa do crescimento global e posição comum sobre Oriente Médio
Os líderes dos Brics encerraram neste domingo (13), em Nova Délhi, dois dias de reuniões marcados pela defesa do multilateralismo, do crescimento econômico inclusivo e da cooperação entre os países do chamado Sul Global. Reunindo Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e os novos integrantes do bloco, a cúpula também registrou um avanço diplomático ao produzir uma posição comum sobre a guerra no Oriente Médio.
A cúpula do Brics na Índia encerrou-se com foco no crescimento global inclusivo, críticas ao protecionismo e defesa do multilateralismo. O bloco alcançou um consenso inédito ao aprovar uma declaração conjunta que pede contenção no conflito do Oriente Médio, superando divisões internas. O evento também marcou o avanço na reaproximação diplomática entre Índia e China para resolver disputas fronteiriças, reforçando o grupo como uma força multipolar frente à influência ocidental.
No último dia de trabalhos, os chefes de Estado e de governo concentraram as discussões nos desafios da economia mundial, no fortalecimento da cooperação entre os países emergentes e na defesa do sistema multilateral de comércio. Anfitrião do encontro, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi destacou o peso crescente do grupo na economia internacional.
"Nossa força está na diversidade e na cooperação", afirmou Modi, lembrando que os membros do Brics respondem por cerca de 40% da riqueza produzida no planeta. O líder indiano convidou os parceiros a promoverem um crescimento econômico global mais inclusivo e afirmou que o bloco representa um "ecossistema de soluções" para os desafios contemporâneos.
Criado em 2009 por Brasil, Rússia, Índia e China, aos quais a África do Sul se juntou no ano seguinte, o Brics buscava inicialmente reunir grandes economias emergentes fora das instituições dominadas pelas potências ocidentais. O grupo ampliou sua influência nos últimos anos com a entrada de novos membros, entre eles Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Ao longo do encontro, os dirigentes defenderam a preservação de um sistema comercial internacional baseado em regras e centrado na Organização Mundial do Comércio (OMC). O presidente chinês Xi Jinping aproveitou a reunião para condenar o protecionismo e reforçar o apoio ao multilateralismo econômico.
"O Sul Global deve defender o direito internacional e proteger as regras básicas das relações entre os Estados", declarou Xi. "Um mundo sem regras é como um cruzamento sem semáforo: o caos e a desordem são inevitáveis", acrescentou.
A mensagem foi interpretada como uma referência indireta à política tarifária adotada pelo presidente americano Donald Trump desde seu retorno à Casa Branca, em janeiro de 2025. Apesar do discurso favorável à cooperação econômica, a crescente presença das exportações chinesas nos mercados dos demais membros continua sendo motivo de desconforto entre alguns parceiros.
O presidente russo Vladimir Putin, por sua vez, afirmou que os Brics se transformaram em uma das principais forças do cenário internacional e contribuem para a construção de uma ordem mundial "mais justa e multipolar".
Consenso inédito sobre o Oriente Médio
O principal resultado político da cúpula, no entanto, havia sido alcançado no sábado (12), quando os líderes conseguiram superar divergências internas e aprovar uma declaração conjunta sobre a guerra no Oriente Médio.
No documento final, os países do Brics apelam para que todas as partes envolvidas exerçam "máxima contenção" e expressam "profunda preocupação" com a escalada das tensões na região.
A declaração marca a primeira posição comum do grupo sobre o conflito desde a intensificação das hostilidades. Nos últimos meses, o tema expôs divisões dentro do bloco. Rússia e China mantiveram suas relações comerciais com o Irã apesar das pressões de Washington, enquanto países como os Emirados Árabes Unidos suspenderam parte de suas relações econômicas com Teerã após serem alvo de ataques iranianos.
As divergências eram tão profundas que, em maio, os ministros das Relações Exteriores do grupo não conseguiram aprovar um comunicado conjunto. O consenso alcançado em Nova Délhi é, por isso, visto como uma demonstração de coesão política em um momento de forte instabilidade internacional.
Aproximação entre Índia e China
A cúpula também foi marcada por avanços nas relações bilaterais entre Índia e China. O encontro entre Narendra Modi e Xi Jinping confirmou a continuidade do processo de reaproximação iniciado após anos de tensão na fronteira do Himalaia.
Seis anos depois dos confrontos mortais entre soldados dos dois países na região disputada, os dois líderes afirmaram a intenção de buscar uma solução negociada para as divergências territoriais.
Segundo a diplomacia indiana, Modi e Xi concordaram em trabalhar por uma solução "honesta, razoável e mutuamente aceitável" para a questão da fronteira. Embora os dois gigantes asiáticos tenham retomado o diálogo e ampliado a cooperação econômica, a desconfiança histórica entre Pequim e Nova Délhi continua presente.
Ao fim da reunião, Narendra Modi declarou esperar que a Declaração de Nova Délhi forneça "uma direção clara para a visão compartilhada e para a cooperação futura" do bloco. A cúpula reforçou o desejo dos Brics de ampliar sua influência na governança internacional e de se apresentar como uma alternativa às instituições dominadas pelas potências ocidentais.
RFI com AFP
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