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Após quatro anos de guerra, a solidariedade da Polônia com os ucranianos enfraquece

Quatro anos após o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, o apoio dos vizinhos europeus nas fronteiras está enfraquecendo. Na Polônia, a enorme onda de solidariedade de fevereiro de 2022 deu lugar a uma nova política menos aberta para receber os ucranianos, deixando as ONGs desamparadas, enquanto as cidades fronteiriças, que também marcam a entrada no território da União Europeia, não modernizaram suas estruturas de acolhimento.

23 fev 2026 - 14h54
(atualizado às 15h12)
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Com os correspondentes da RFI Emmanuelle Chaze, em Kiev, e Adrien Sarlat, em Varsóvia

Na estação de Chelm, os ucranianos em trânsito precisam agora enfrentar também o frio dos poloneses.
Na estação de Chelm, os ucranianos em trânsito precisam agora enfrentar também o frio dos poloneses.
Foto: © RFI / Emmanuelle Chaze / RFI

Neste mês de fevereiro, a noite cai cedo na estação de Chelm, na fronteira entre a Polônia e a Ucrânia. Devido a uma onda de frio polar que provocou o caos nas infraestruturas ferroviárias do país, o trem proveniente de Varsóvia chega com quase uma hora de atraso na estação, localizada no coração de uma pequena cidade de 60.000 habitantes.

Os plataformas estão cobertas por uma espessa camada de neve e para sair delas é preciso subir as escadas. Apenas o burburinho dos viajantes e o barulho de suas malas quebra o silêncio do local.

Desde 2024, a estação passa por reformas, e seu edifício central deixou de oferecer qualquer proteção aos viajantes. Ao lado dele, um contêiner pré-fabricado de poucos metros quadrados e sem aquecimento concentra, ao mesmo tempo, os banheiros, a sala de espera e dois guichês de venda de bilhetes. No interior, o cheiro intenso de urina domina o espaço, que ainda abriga duas pessoas em situação de rua.

Além das condições da estação, ao chegar a Chelm, os ucranianos em trânsito também são confrontados com o acolhimento frio dos poloneses. A cidade é um local estratégico de trânsito, tanto para o transporte de cargas quanto para os viajantes da Ucrânia, que liga as cidades de Dnipro, Kharkiv e Kiev às de Varsóvia e Berlim, entre outras. No início da noite, a localidade não oferece nada além de uma pequena loja de conveniência, onde não há cadeiras, nem outro lugar para esperar sua conexão.

A algumas centenas de metros dali está um símbolo do passado que ainda pesa muito nas relações entre os dois países. Um memorial cuidadosamente limpo e cercado de velas lembra o massacre de Volínia: assassinatos em massa de dezenas de milhares de poloneses, cometidos pelo exército insurgente ucraniano contra civis poloneses durante a Segunda Guerra Mundial.

No final de janeiro, Lyuba Yakimchuk, uma autora ucraniana, comentou em suas redes sociais sobre as condições da estação.

"No meio da guerra, enquanto o fluxo de passageiros aumentou, as autoridades polonesas desmantelaram a estação de Chelm [...] Aparentemente, a manutenção da estação está incluída no preço dos bilhetes, mas pelo preço que pagamos, não há estação, e também não há alternativa, talvez para que nos sintamos como em casa: a temperatura externa é a mesma que a de nossas casas durante o genocídio russo", escreveu. A ironia não agradou os poloneses, que despejaram uma onda de insultos na publicação.

Até o prefeito da cidade, Jakub Banaszek, respondeu ao que chamou de acusações "nocivas e infundadas" de Lyuba Yakimchuk sobre o acolhimento reservado por Chelm aos viajantes. "Eu me pergunto se a cidade de Chelm também deve fornecer a ela um carregador pessoal. Os poloneses também viajam pelo mundo e ninguém carrega suas bagagens", disse. 

O prefeito ressaltou também que os habitantes de Chelm "abriram seus corações e suas casas para os ucranianos [...] apesar da história dolorosa que une [as duas] nações, especialmente o massacre de Volínia", bem como o papel dos voluntários e funcionários poloneses que ajudaram os refugiados "frequentemente em detrimento de sua saúde e do tempo passado com a família", e reivindicou o direito de realizar obras na estação.

Diante da situação, a Ukrzalisnytsia, a companhia ferroviária ucraniana, empreendeu algumas iniciativas. Dois vagões ucranianos foram enviados, financiados por ela, e estacionados na estação de Chelm. Eles foram convertidos em um lugar onde os viajantes, em sua maioria ucranianos, podem se aquecer, beber um chá ou café quente, recarregar seus aparelhos eletrônicos, tudo gratuitamente, para esperar sua conexão em melhores condições.

A estação de Chelm não é o único ponto de trânsito e fronteira europeia que sofre com a falta de infraestruturas de acolhimento. A algumas horas de carro dali, na estação fronteiriça de Przemysl, os viajantes também se veem obrigados a esperar no frio. A cidade oferece mais estabelecimentos hospitalares e um edifício de estação em condições corretas, com sala de espera aquecida, banheiros e restaurante, mas, todos os dias, na partida e na chegada dos trens da Ucrânia, centenas de viajantes devem esperar às vezes várias horas no frio para passar pela alfândega.

Ao fingir ignorar o caráter crítico de suas estações fronteiriças para seus vizinhos fugindo da guerra, o Estado polonês apenas prolonga sua política cada vez menos aberta aos refugiados ucranianos.

Governo nacionalista

Em setembro, a lei sobre o status especial dos ucranianos não pôde ser renovada como estava, como desejavam os deputados, devido a um veto do presidente. Com essa manobra, Karol Nawrocki quis pôr fim ao que considerava "uma situação completamente incompreensível e inaceitável", permitindo que "estrangeiros se beneficiem de uma ajuda às custas dos contribuintes sem contribuir eles mesmos".

Durante a campanha presidencial, conduzida sob o slogan "A Polônia primeiro, os poloneses primeiro", ele martelou, surfando no sentimento anti-ucraniano crescente na Polônia: "É preciso parar de gastar e pagar as aposentadorias dos ucranianos. E os benefícios sociais devem ser, antes de mais nada, destinados aos poloneses."

Os deputados não tiveram outra escolha senão votar a versão da lei proposta pelo presidente nacionalista para que os ucranianos possam continuar a beneficiar-se de um status especial. Mas agora eles não podem mais usufruir de benefícios sociais se não estiverem empregados.

O governo de Donald Tusk votou um projeto de lei que suprime completamente o status especial dos ucranianos a partir do mês de março de 2026. "A maioria dos que residem na Polônia trabalha; seus filhos vão à escola. Podemos, portanto, eliminar gradualmente essas medidas extraordinárias e passar de soluções temporárias para soluções sistêmicas", justificou o porta-voz do governo.

O objetivo é coerente com o do presidente: acabar com o status de supostos "privilegiados" dos refugiados ucranianos, que agora seriam tratados da mesma forma que os outros estrangeiros no país. Assim, aqueles que não contribuem para o seguro social não terão mais direito a qualquer benefício de saúde. A disposição que os colocava em pé de igualdade com os poloneses, facilitando sua contratação e permitindo-lhes montar empresas com a mesma facilidade que qualquer empreendedor, também chegará ao fim, enquanto novas medidas devem aparecer nas escolas para ajudar na assimilação das crianças.

Voluntários desamparados

A medida provocou protestos de organizações de defesa dos direitos humanos, que estimam que ela representa uma ameaça direta às populações refugiadas mais vulneráveis.

Kajetan Wroblewski é voluntário em uma associação que cuida da transferência de refugiados que continuam chegando à Polônia. Alguns chegam com a ideia de ficar, esperando que a proximidade entre as línguas polonesa e ucraniana simplifique a integração. Mas Kajetan se apressa em dissuadi-los. "É melhor não entender nada na Finlândia, mas dormir em uma cama e ter o que comer, do que dormir sob uma ponte na Polônia", diz o voluntário, que lamenta o abandono da questão pelo Estado.

Os ucranianos representam 66% da massa salarial imigrante no país, por isso, os sindicatos de empregadores também se alarmam, denunciando condições que não permitem contratar estes trabalhadores tão facilmente.

Já as frentes mais nacionalistas do país veem uma vitória na apatia geral com que a sociedade polonesa recebeu esse enfraquecimento da ajuda. 

De acordo com uma pesquisa Centre for Public Opinion Research (CBOS) publicada no início de janeiro de 2026, 46% dos poloneses dizem que se opõem ao acolhimento de refugiados ucranianos, contra 3% no início da invasão do país. De acordo com os autores da pesquisa, trata-se do pior resultado que puderam observar desde o lançamento do relatório em 2014, e a anexação da Crimeia pela Rússia.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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