Pressão dos EUA intensifica crise em Cuba, marcada por apagões, fuga de turistas e tensão diplomática
Nesta quinta-feira (5), a ilha enfrentou mais um apagão, que afetou dois terços do território, incluindo Havana. Cerca de 1,7 milhão de habitantes estavam sem energia desde o meio-dia de quarta-feira, após uma desconexão parcial da rede devido a uma falha "inesperada" na usina Antonio Guiteras, a principal geradora do país. De acordo com o Ministério de Minas e Energia, a rede elétrica foi restabelecida durante a madrugada. O governo cubano autorizou esta semana a associação entre empresas públicas e privadas pela primeira vez em quase 60 anos, uma alternativa para tentar tirar o país da crise profunda, ampliada desde as pressões dos EUA.
"Às 5h01 (7h01 em Brasília) desta manhã, o Sistema Elétrico Nacional (SEN) foi restabelecido de Guantánamo a Pinar del Río", as duas províncias no extremo leste e oeste da ilha, anunciou o ministério na rede social X.
A ilha, de 9,6 milhões de habitantes, sofre com frequentes e massivas interrupções de energia há mais de dois anos, algumas das quais afetaram todo o território, por vezes durante vários dias. Este último apagão, contudo, ocorreu num contexto particularmente tenso devido à grave crise energética que assola o país, pressionado por Washington.
Além dos cortes de energia regulares, a população sofre com longos períodos diários de racionamento, que se agravaram desde a prisão, em janeiro, do presidente venezuelano Nicolás Maduro e a suspensão, sob pressão de Washington, das exportações de petróleo da Venezuela para a ilha.
A capital cubana registrou cortes de energia superiores a 15 horas nos últimos dias, com duração de mais de um dia nas províncias. Nenhum petroleiro entrou oficialmente em Cuba desde 9 de janeiro, obrigando as autoridades a implementar medidas drásticas de racionamento e a reorganizar as atividades econômicas e sociais.
Para justificar a política de pressão, Washington cita uma "ameaça excepcional" representada por Cuba, uma ilha caribenha localizada a apenas 150 quilômetros da costa da Flórida, à segurança nacional americana.
Havana acusa Donald Trump de querer "sufocar" a economia da ilha comunista, que está sob embargo dos EUA desde 1962 e sofreu com o endurecimento das sanções americanas nos últimos anos.
Autorização para empresas mistas entre Estado e setor privado
Na última terça-feira (3), o governo cubano autorizou pela primeira vez em quase 60 anos a associação entre empresas públicas e privadas, mantendo o monopólio estatal nos setores de saúde, educação e defesa.
O decreto-lei 114/2025 do Conselho de Estado, que entrará em vigor no começo de abril, regula "as associações de entidades empresariais estatais e não estatais" para "a constituição de sociedades de responsabilidade limitada mistas", segundo o texto publicado no Diário Oficial. Diante das dificuldades do Estado em meio a uma crise econômica sem precedentes, marcada pelo reforço do embargo americano, pela queda do turismo, pelo fracasso da reforma monetária e pelas fragilidades estruturais das empresas estatais, o setor privado ganhou espaço na economia cubana nos últimos anos.
Em 2025, as cerca de 9,9 mil empresas privadas do país representavam 15% do PIB e empregavam mais de 30% da população economicamente ativa. No mesmo ano, as vendas do setor privado no varejo superaram pela primeira vez as do setor público, e representaram 55% do comércio total.
Nesse contexto, Washington autorizou a venda de combustível para empresas privadas da ilha, sob a condição de que as transações não beneficiem o governo comunista cubano.
Air France suspende voos
A Air France anunciou que vai suspender seus voos para Havana entre o fim de março e meados de junho devido à escassez de combustível no país.
"Devido à escassez de combustível na ilha de Cuba e ao seu impacto na atividade econômica e turística, os voos da companhia entre Paris-Charles de Gaulle e Havana serão temporariamente suspensos a partir de domingo, 29 de março", especificou a companhia francesa.
A retomada está prevista "a partir de 15 de junho", se a situação melhorar, acrescentou. A Air France opera três voos semanais para a ilha com um avião Boeing 787 de grande capacidade.
Crise diplomática com o Equador
Cuba também atravessa uma crise diplomática com o Equador. Na quarta-feira (4), o governo equatoriano expulsou o embaixador de Cuba em Quito, Basilio Gutiérrez, que recebeu um prazo de 48 horas para deixar o país junto com toda a missão diplomática.
O presidente Daniel Noboa é um aliado próximo dos EUA e na terça-feira ordenou o fim das funções do seu embaixador, José María Borja, em Havana.
Sem detalhar os motivos, a chancelaria equatoriana declarou Gutiérrez persona non grata, segundo um comunicado.
A expulsão ocorre a poucos dias da reunião que Trump terá com os líderes de Argentina, Paraguai, Bolívia, El Salvador, Equador e Honduras em Miami, em 7 de março.
Segundo o comunicado, o Equador ampara sua decisão na Convenção de Viena, que permite a um Estado declarar persona non grata um membro do pessoal diplomático "a qualquer momento e sem ter de expor os motivos de sua decisão".
O ministério das Relações Exteriores de Cuba classificou a decisão do governo equatoriano como um "ato hostil" que "não parece casual".
"Trata-se de um ato hostil e sem precedentes, que prejudica significativamente as relações históricas" entre os dois países, afirma a nota divulgada.
Com AFP