Kast endurece política migratória e interrompe processo que beneficiaria 182 mil imigrantes no Chile
O presidente do Chile, José Antonio Kast, ordenou a suspensão da regularização de 182 mil imigrantes, interrompendo um processo iniciado por seu antecessor, o esquerdista Gabriel Boric. Uma das principais promessas de campanha de Kast era justamente expulsar imigrantes irregulares, em sua maioria venezuelanos, que viviam no país.
Com informações de Carlos Pizzarro, da RFI, e agências
Essa era uma de suas bandeiras eleitorais e uma das reformas consideradas mais urgentes pelo novo governo. A chegada de José Antonio Kast ao poder ocorre em um contexto de forte insatisfação popular com a criminalidade, percepções de insegurança e preocupações com a imigração irregular, temas que dominaram a campanha presidencial e que agora vão orientar as políticas do novo governo.
"Há 338 mil pessoas que sabemos estar em situação irregular. Dessas, 182 mil se registraram, fornecendo endereço e dados biométricos. Muitos de nós agora nos perguntamos o que acontecerá com essas informações se essas pessoas não tiverem sua situação legal regularizada", afirma, em entrevista à RFI, Eduardo Cardoza, secretário-geral do Movimento de Ação Migrante.
"Isso traz consequências enormes. A migração contribui com 10% do Produto Interno Bruto do país, e essa decisão provoca danos significativos, porque estamos falando de pessoas trabalhadoras que, em 99,9% dos casos, vêm ao Chile para trabalhar e que, por estarem com a documentação irregular, acabam privadas de direitos básicos", destaca Cardoza.
Impedir entrada ilegal
A questão migratória no Chile se tornou central no debate nacional. Dados de instituições regionais mostram que a população nascida no exterior cresceu significativamente nos últimos anos, impulsionada principalmente por fluxos vindos da Venezuela e de outros países da América Latina.
Além de suspender a regularização dos 182 mil migrantes, José Antonio Kast apresentará ao Congresso dois projetos de lei para restringir a entrada de imigrantes sem documentos: um para punir quem facilite a entrada irregular no país e outro que transformaria a entrada ilegal em crime.
"Está acontecendo um fenômeno muito particular: as pessoas manifestam preocupação com essa situação, mas muitos imigrantes sem documentos, que trabalham e já criaram raízes no país, não querem — e não irão — embora. Isso pode gerar um cenário complexo, no qual se torna impossível deportar 338 mil pessoas em quatro anos", observa Cardoza.
"O máximo que qualquer governo conseguiu deportar foram 8 mil pessoas por ano, somando expulsões administrativas e judiciais. Portanto, ou implementamos políticas realistas, ou continuaremos alimentando uma situação que condena essas pessoas à pobreza. Esse é o desafio que o novo governo terá de enfrentar", conclui.
Apenas cinco dias após assumir o cargo, Kast lançou o chamado "Plano Escudo de Fronteira", uma das iniciativas mais emblemáticas de seu programa. O plano prevê a construção de barreiras físicas, trincheiras, sistemas de vigilância por câmeras e o envio permanente de forças de segurança para a fronteira com o Peru e para trechos considerados críticos na divisa com a Bolívia.