Guerra no Oriente Médio pressiona inflação e deve adiar corte de juros nos EUA
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã já começa a produzir efeitos diretos na economia global, impactando também o banco central americano em um momento decisivo para a política monetária.
Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York.
Em meio à escalada do conflito e à alta do preço do petróleo, a expectativa é que o Banco Central dos Estados Unidos mantenha os juros inalterados no anúncio que será feito nesta quarta-feira (18), adiando qualquer perspectiva de alívio para consumidores e empresas.
A decisão ocorre em um cenário de incerteza crescente, no qual fatores geopolíticos passaram a pesar mais do que os indicadores tradicionais da economia.
Segundo avaliação de analistas, a guerra no Oriente Médio alterou significativamente o panorama que vinha sendo monitorado pela autoridade monetária. A alta do petróleo e do gás pressiona a inflação e cria um dilema para o Banco Central: ao mesmo tempo em que há sinais de desaceleração econômica, o aumento dos custos de energia dificulta qualquer movimento de corte de juros.
Na prática, a tendência é que o presidente do Banco Central, Jerome Powell, reforce uma postura cautelosa, mantendo as taxas estáveis enquanto a instituição avalia os efeitos desse novo choque no mercado de energia.
Isso significa que o custo do crédito deve continuar elevado por mais tempo, afetando diretamente financiamentos de imóveis, veículos e outras formas de consumo.
Espera e incerteza
O cenário predominante entre economistas é de manutenção dos juros não apenas nesta reunião, mas também nos próximos meses.
A autoridade monetária ainda tenta medir o impacto real da guerra sobre a economia americana. Se, por um lado, o petróleo caro tende a manter a inflação elevada, por outro, um choque prolongado pode desacelerar a atividade econômica e aumentar o desemprego, o que abriria espaço para cortes de juros no futuro.
Neste momento, as projeções mais recentes indicam que uma eventual redução das taxas deve ocorrer apenas a partir de setembro, ou até mais tarde.
Enquanto isso, os mercados acompanham de perto qualquer sinal do Banco Central sobre o impacto do conflito nas perspectivas de crescimento e inflação. O preço do petróleo segue próximo dos 100 dólares por barril, sem sinais claros de estabilização.
Petróleo no centro da decisão
A alta da energia se tornou o principal fator de preocupação para o Federal Reserve. O aumento dos preços pode elevar a inflação no curto prazo e, dependendo da duração do conflito, atingir também os chamados núcleos inflacionários, que excluem itens mais voláteis.
Esse é justamente o cenário que a autoridade monetária tenta evitar. Caso a pressão se espalhe, o Banco Central pode ser obrigado a manter os juros elevados por ainda mais tempo.
Por outro lado, parte do mercado avalia que se trata de um choque temporário de oferta, ligado diretamente à guerra, e não a um excesso de demanda na economia.
O problema é que tudo depende da duração do conflito. Se a guerra se prolongar, o impacto tende a se acumular: consumidores reduzem gastos, empresas freiam contratações e o risco de desaceleração econômica aumenta.
Nesse contexto, o petróleo deixa de ser apenas um fator de inflação e passa a representar também um risco para o crescimento, tornando a decisão das autoridades monetárias ainda mais complexa.
Crédito imobiliário pressionado
O impacto já é visível no mercado imobiliário. As taxas de hipoteca voltaram a subir, refletindo a expectativa de inflação mais alta e juros elevados por mais tempo. A média para financiamentos de 30 anos está em torno de 6,1%.
Segundo Stephen Kates, analista financeiro do Bankrate, a decisão do banco central em si não deve alterar esse cenário no curto prazo.
"Para quem quer comprar ou já tem imóvel, a reunião do Banco Central não muda a questão da acessibilidade no curto prazo", afirma.
Ele ressalta que o mais importante será o tom da comunicação da autoridade monetária. "O mercado reage mais às sinalizações do Banco Central do que à decisão em si, especialmente no caso das taxas de hipoteca, que acompanham os rendimentos de longo prazo", explica.
Pressão política no radar
Além dos desafios econômicos, o Banco Central também enfrenta um momento de transição e pressão política. O mandato de Jerome Powell termina em 15 de maio, e o presidente Donald Trump indicou Kevin Warsh para assumir o comando da instituição.
A nomeação, no entanto, está travada no Senado em meio a uma investigação do Departamento de Justiça envolvendo Powell, relacionada a declarações sobre a reforma de um prédio do Banco Central.
Na semana passada, um juiz anulou duas intimações contra a instituição, em um revés para a investigação. Ainda assim, a promotora responsável afirmou que pretende recorrer da decisão. O episódio adiciona uma camada extra de incerteza em um momento já delicado.
Entre guerra, inflação e disputas políticas, o Banco Central americano entra em uma de suas decisões mais complexas dos últimos anos, com impactos que devem ser sentidos muito além dos Estados Unidos.
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