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América Latina

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Acordo petrolífero bilionário entre EUA e Venezuela ainda deixa muitas perguntas sem resposta

Quase oito meses após a captura de Nicolás Maduro, os governos dos EUA e da Venezuela anunciaram nesta sexta-feira (28) um acordo petrolífero apresentado pelos dois lados como histórico. Segundo o presidente americano Donald Trump, o entendimento poderá dar acesso a campos com potencial comprovado de 65 bilhões de barris de petróleo e contribuir para reduzir os preços dos combustíveis no mercado americano. Apesar do anúncio ambicioso, muitos aspectos do acordo ainda permanecem indefinidos.

29 ago 2026 - 04h52
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Resumo
EUA e Venezuela anunciaram um acordo histórico para desenvolver 17 campos petrolíferos venezuelanos, prevendo atrair até US$ 100 bilhões em investimentos privados. O plano busca recompor as reservas de energia americanas e recuperar a economia de Caracas. Contudo, analistas pedem cautela, apontando que os resultados levarão anos e que as petroleiras mantêm receio da precária infraestrutura local, da instabilidade política e do histórico de expropriações no país.

Em mensagem publicada na rede Truth Social, Trump classificou o pacto como "o maior acordo petrolífero da história mundial". O presidente afirmou que o entendimento foi negociado em colaboração com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, e com a participação de empresas privadas.

Pouco depois, Caracas confirmou o anúncio. Em comunicado, Delcy Rodríguez agradeceu a Trump e descreveu o acordo como "histórico".

O que prevê o acordo

Segundo os dois governos, o plano prevê o desenvolvimento de 17 campos petrolíferos considerados estratégicos, com reservas estimadas em 65 bilhões de barris. Em troca de participação acionária dos Estados Unidos, empresas privadas, incluindo companhias americanas, desenvolveriam esses campos e destinariam uma parcela maior das receitas do petróleo à Venezuela.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, estima que o acordo poderá atrair cerca de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 520 bilhões) em investimentos privados, gerar milhares de empregos e contribuir para a recuperação da economia venezuelana. Delcy Rodríguez afirmou ainda que o projeto poderá render mais de US$ 209 bilhões em receitas para o Estado venezuelano.

Trump vem incentivando empresas americanas a ampliar sua presença na Venezuela, embora muitas ainda demonstrem cautela diante da deterioração da infraestrutura do país e do histórico de expropriações de ativos de investidores estrangeiros durante os governos chavistas.

A Chevron, única petroleira americana que continuava operando na Venezuela quando Nicolás Maduro foi derrubado, informou em julho que elevou sua produção para 280 mil barris por dia e pretende aumentar esse volume em 50% até o fim de 2028.

Por que o petróleo venezuelano interessa aos EUA

A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, estimadas em mais de 300 bilhões de barris.

O interesse americano ocorre em um momento de tensão no mercado internacional de energia. Desde o início da guerra contra o Irã, há seis meses, o fornecimento global de petróleo enfrenta turbulências e o trânsito de navios pelo Estreito de Ormuz segue afetado pelo conflito.

Ao mesmo tempo, as reservas estratégicas de petróleo dos Estados Unidos estão em um dos níveis mais baixos das últimas quatro décadas. Segundo o site Axios, o acordo anunciado por Washington e Caracas poderia mais do que dobrar as reservas petrolíferas americanas.

Com índices de aprovação em queda e eleições legislativas marcadas para novembro, Trump sustenta que a exploração de novos campos na Venezuela ajudará a ampliar a oferta de petróleo e a reduzir os preços da gasolina, um tema sensível para os eleitores americanos.

Especialistas pedem cautela

Analistas, porém, consideram improvável que os efeitos sejam sentidos no curto prazo. Em entrevista à AFP, o especialista em petróleo Oswaldo Felizzola afirmou que os projetos anunciados deverão levar anos até se transformarem em produção efetiva.

Para Elias Ferrer, diretor do centro de estudos Orinoco Research, o anúncio também faz parte de uma disputa de narrativas políticas em torno de negociações que já vinham sendo discutidas anteriormente entre Washington e Caracas.

Na avaliação dele, a compra de petróleo venezuelano pelos Estados Unidos já estava sendo considerada independentemente do anúncio desta sexta-feira.

As zonas de sombra do acordo

Outra dúvida envolve a participação efetiva das empresas privadas. Desde janeiro, Washington vem defendendo uma retomada da exploração de petróleo e gás na Venezuela sob supervisão americana. No entanto, grandes grupos do setor demonstram cautela diante do estado precário da infraestrutura petrolífera venezuelana, após anos de subinvestimentos.

Empresas estrangeiras também continuam lembrando das expropriações promovidas por governos chavistas no passado. A petroleira americana ExxonMobil, por exemplo, perdeu ativos no país em mais de uma ocasião.

Para o analista financeiro John Kilduff, da Again Capital, um dos objetivos do acordo pode ser justamente oferecer garantias especiais para reduzir os riscos aos investidores americanos.

"O principal problema na Venezuela dizia respeito à segurança", comentou à AFP. Segundo ele, os Estados Unidos poderiam buscar, com esse acordo, "criar uma espécie de zona estatal onde as empresas americanas possam se estabelecer, exercer suas atividades sem sofrer repercussões e eliminar o risco político que normalmente acompanha os investimentos na Venezuela".

Para Jorge R. Pinon, pesquisador do Energy Institute da Universidade do Texas em Austin, no entanto, ainda persistem muitas "zonas de incerteza", principalmente o risco de que um futuro governo venezuelano mude abruptamente "as regras do jogo", colocando em causa os termos do acordo atual.

Por enquanto, o anúncio representa mais uma promessa de transformação do setor petrolífero venezuelano do que uma mudança imediata no mercado internacional de energia. O tamanho dos investimentos, a participação das empresas privadas e os prazos para o início efetivo da produção permanecem em aberto.

Com agências

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