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Alianças internacionais de Israel com governos de extrema direita dão sinais de fragilidade

Nos últimos anos, Israel se aproximou de governos e partidos de extrema direita na Europa e nas Américas. O alinhamento com Donald Trump permitiu ao Executivo israelense, por exemplo, que obtivesse apoio firme de Washington. Mas essa estratégia mostra hoje certas limitações.

22 abr 2026 - 11h44
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Guilhem Delteil, enviado especial da RFI a Jerusalém

Na noite desta terça-feira (21), o presidente da Argentina, Javier Milei, participou de uma cerimônia nacional oficial em Israel e acendeu uma das tochas que celebram a independência do país. O gesto reforça a proximidade entre o governo israelense e o dirigente argentino de extrema direita, que realiza sua terceira visita ao país em menos de três anos.

Desde que assumiu o cargo, em dezembro de 2023, Milei reconheceu o Corpo da Guarda Revolucionária do Irã e o Hamas palestino como organizações terroristas. Ele também confirmou a inclusão do Hezbollah libanês nesta lista e prometeu transferir a embaixada argentina para Jerusalém.

Com essas posições, o presidente argentino rompeu com uma tradição histórica da diplomacia de seu país, que evita reconhecer Jerusalém como capital de Israel, e passou a multiplicar gestos de alinhamento à política conduzida pelo primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu. A ponto de a ministra responsável pela cerimônia, Miri Regev, tê‑lo classificado como "um dos amigos mais próximos de Israel (…) um dos maiores amigos do povo judeu".

"Aliados, não amigos"

Nos últimos anos, o governo israelense intensificou a aproximação com governos e partidos de extrema direita no continente americano e na Europa.

"Quanto mais os governos israelenses se inclinaram à direita, maior foi a tendência de estabelecer vínculos com governos, coalizões e partidos conservadores ao redor do mundo", observa Shmuel Rosner, pesquisador do Instituto de Políticas do Povo Judeu (JPPI, na sigla em inglês), em Jerusalém.

Esse movimento se traduziu, na diplomacia, na aproximação com líderes populistas, de direita ou de extrema direita, como Jair Bolsonaro no Brasil, Viktor Orbán na Hungria e Giorgia Meloni na Itália, além do estabelecimento de contatos regulares com o Reunião Nacional, na França.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, aparece ao lado da mulher, Sara, e do deputado brasileiro Eduardo Bolsonaro durante a inauguração do escritório comercial do Brasil em Jerusalém, em 2019.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, aparece ao lado da mulher, Sara, e do deputado brasileiro Eduardo Bolsonaro durante a inauguração do escritório comercial do Brasil em Jerusalém, em 2019.
Foto: RFI

Para Rosner, no entanto, essa orientação não configura uma ruptura na política externa israelense.

"Do ponto de vista histórico, Israel sempre conduziu uma política externa muito pragmática e busca aliados. Não busca amigos. E, quando encontra aliados entre partidos que podem gerar controvérsia, privilegia esses aliados em vez da controvérsia."

Essa lógica pragmática também se reflete na relação com o principal aliado de Israel, os Estados Unidos. Durante décadas, a diplomacia israelense buscou garantir apoio bipartidário, de republicanos e democratas, de modo a preservar a aliança, independentemente de quem estivesse no poder em Washington.

Esse equilíbrio, porém, se alterou nos últimos anos. Benjamin Netanyahu passou a se alinhar mais estreitamente a Donald Trump, que, em contrapartida, multiplicou gestos de apoio a Israel. Em seu primeiro mandato, o ex-presidente americano reconheceu Jerusalém como capital israelense e a soberania de Israel sobre o planalto do Golã, território sírio ocupado segundo o direito internacional.

"Durante a recente onda de violência entre Israel e o Irã, os Estados Unidos deixaram de ser um parceiro passivo ou simples espectador. Tiveram um papel ativo, de primeiro plano", observa Rosner. "É preciso ao menos reconhecer a Netanyahu o mérito de ter obtido o apoio dos Estados Unidos dessa forma para a guerra contra o Irã."

Polarização

Em contrapartida, as críticas a Israel dentro do Partido Democrata têm se multiplicado, e o apoio da legenda já não é tão sólido quanto no passado. Benjamin Netanyahu é, inclusive, alvo frequente da oposição israelense, que o acusa de ter enfraquecido deliberadamente esse apoio bipartidário, tradicionalmente considerado um dos pilares da relação entre Israel e os Estados Unidos.

Para Rosner, no entanto, essa inflexão reflete menos uma escolha ideológica e mais uma leitura realista do cenário político americano.

"Os Estados Unidos estão hoje muito mais polarizados do que no passado. E é preciso escolher um lado. Porque tudo nos Estados Unidos se tornou partidário. A realidade americana talvez obrigue Israel a fazer uma escolha."

Ao se engajar de forma declarada ao lado de determinadas forças políticas, Israel passou a adotar uma diplomacia mais politizada, o que aumenta os riscos em contextos de alternância de poder e dificulta a preservação de relações estáveis no médio e longo prazo.

O caso da Hungria ilustra essa vulnerabilidade. Três dias após a vitória de Peter Magyar nas recentes eleições legislativas, Netanyahu conversou com o sucessor de seu aliado Viktor Orbán. O gabinete do primeiro‑ministro israelense afirmou que a conversa foi "calorosa" e que o futuro premiê húngaro convidou Netanyahu para as cerimônias do 70º aniversário da revolta contra a URSS, previstas para outubro, em Budapeste.

Sem negar o convite, no entanto, o novo dirigente húngaro indicou nesta segunda‑feira que, diferentemente de seu antecessor, cumprirá os mandados de prisão emitidos pelo Tribunal Penal Internacional, incluindo o que visa Netanyahu por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Estratégia de curto prazo

O pragmatismo reivindicado pela diplomacia israelense tem levado, assim, à priorização de escolhas de curto prazo.

"É um pouco arriscado", reconhece Rosner, "mas Israel tem considerações de longo prazo e necessidades imediatas. E, às vezes, diante dessas necessidades imediatas, pensamos: 'vou pegar o que é possível agora e lidarei com os problemas futuros quando surgirem'".

Trata‑se de uma estratégia reforçada pelo contexto dos conflitos atuais. Israel, afirma o cientista político, precisa de apoio para enfrentar uma guerra imediata, e "as considerações de curto prazo acabam se impondo às preocupações e desafios de longo prazo".

A evolução mais problemática, segundo ele, está no enfraquecimento desse apoio inclusive dentro das próprias direitas e extremas direitas. Nos Estados Unidos, figuras influentes que orbitam o trumpismo, como o comentarista Tucker Carlson, passaram a defender uma revisão da relação entre Washington e Israel.

Na Itália, a primeira‑ministra Giorgia Meloni também tomou distância do governo Netanyahu. Roma criticou os bombardeios israelenses no Líbano e anunciou a suspensão da renovação automática do acordo de defesa entre Israel e Itália.

"É motivo de preocupação", admite Rosner. Mas, pondera, "o futuro reserva tantas incertezas que seria prematuro para Israel se preocupar agora com desafios que talvez só se apresentem daqui a cinco ou dez anos".

O contexto geopolítico acaba, assim, reforçando a opção por uma estratégia centrada no curto prazo.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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