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Aliança liderada por China e Rússia enfrenta teste diplomático após ataque ao Irã

A Organização para a Cooperação de Xangai (OCS), um bloco político, econômico e de segurança liderado por China e Rússia, celebra este ano seu 25º aniversário. Criada em 2001 por Pequim, Moscou e três países da Ásia Central (Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão), a organização se expandiu ao longo das últimas décadas e hoje reúne potências como Índia, Paquistão e Irã.

31 ago 2026 - 10h13
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Resumo
A cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (OCS), no Quirguistão, reúne líderes como Xi Jinping e Vladimir Putin para consolidar um bloco alternativo ao Ocidente. Contudo, o grupo enfrenta um teste crucial de coesão diplomática após recentes ataques dos EUA contra o Irã, recém-integrado ao bloco. Especialistas apontam que a organização lida com limitações práticas, rivalidades internas históricas e uma crescente dependência dos interesses geopolíticos da China.

Nicolas Rocca, da RFI

O presidente chinês, Xi Jinping, foi recebido pelo presidente do Quirguistão, Sadyr Zhaparov, no Aeroporto Internacional de Bishkek, no Quirguistão, onde está sendo realizada a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, em 31 de agosto de 2026.
O presidente chinês, Xi Jinping, foi recebido pelo presidente do Quirguistão, Sadyr Zhaparov, no Aeroporto Internacional de Bishkek, no Quirguistão, onde está sendo realizada a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, em 31 de agosto de 2026.
Foto: Kyrgyzstan's Presidential Press - Sultan Dosaliev / RFI

A cúpula anual do grupo acontece nesta segunda e terça-feira (31 de agosto e 1º de setembro) em Bishkek, capital do Quirguistão. Cerca de uma dúzia de chefes de Estado e de governo participam do encontro, entre eles o presidente chinês Xi Jinping, o presidente russo Vladimir Putin, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi e o presidente iraniano Massoud Pezeshkian.

O encontro ocorre em um momento particularmente delicado. Na véspera da cúpula, o Irã, um dos membros mais recentes da organização, foi alvo de ataques dos Estados Unidos, colocando à prova a capacidade da OCS de demonstrar unidade diante de uma das principais crises internacionais da atualidade.

No ano passado, imagens da cúpula da OCS, com Xi Jinping ao lado de Vladimir Putin e do líder norte-coreano Kim Jong-un, foram interpretadas como uma demonstração da crescente influência diplomática da China em um cenário internacional marcado pela disputa com os Estados Unidos. Neste ano, embora Kim esteja ausente, a reunião em Bishkek reafirma a ambição de Pequim e Moscou de consolidar um espaço de cooperação alternativo às alianças lideradas pelo Ocidente.

Desde sua criação, a organização se transformou em uma ampla coalizão que não inclui países europeus nem os Estados Unidos.

"Para Pequim, Moscou e outros países influentes dentro da organização, a OCS demonstra a capacidade de reunir regularmente um grande número de países em torno de uma agenda comum, algo que hoje não acontece com facilidade no chamado bloco ocidental", afirma Emmanuel Véron, pesquisador do centro de geopolítica associado à escola HEC.

Sucesso diplomático para China e Rússia

A edição deste ano reforça o poder de atração do grupo. Os líderes dos membros mais recentes, Irã e Belarus, participam da cúpula, assim como representantes de 15 países parceiros de diálogo, entre eles Turquia, Arábia Saudita e Catar.

O Togo, convidado pela primeira vez, é representado pelo presidente do Conselho de Ministros, Faure Gnassingbé.

Outro feito frequentemente destacado pela organização é a presença simultânea de Índia e Paquistão, rivais históricos que se enfrentaram em diversas guerras desde a independência dos dois países. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, e Narendra Modi participam do encontro em Bishkek.

"A Índia demonstrava interesse pela OCS muito antes de sua adesão, em 2017", lembra Christophe Jaffrelot, diretor de pesquisa do Centro de Pesquisas Internacionais (CERI) da Sciences Po Paris e do CNRS (principal órgão de fomento à ciência na França). "Isso faz parte da estratégia de Narendra Modi de ampliar ao máximo a presença da Índia nos fóruns internacionais", observa.

Reunir tantos países em torno da dupla sino-russa representa uma vitória diplomática para Xi Jinping e Vladimir Putin. No entanto, especialistas ressaltam que a organização ainda enfrenta limitações importantes e não pode ser comparada à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

"A comparação com a Otan não se sustenta", afirma Emmanuel Lincot, professor do Instituto Católico de Paris e pesquisador do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas da França (IRIS).

"A Otan é uma aliança militar vinculante, baseada no princípio de defesa coletiva previsto no Artigo 5. A Organização para a Cooperação de Xangai não possui nada semelhante. Trata-se de uma organização que formula propostas, mas que realizou relativamente pouco na prática", completa. 

Limitações diante das crises regionais

As dificuldades da organização ficaram evidentes durante o conflito entre Índia e Paquistão em 2025. Um atentado na região da Caxemira administrada pela Índia escalou para um confronto aberto entre dois países que pertencem ao mesmo bloco.

Lincot também cita a incapacidade da organização de intervir na disputa de fronteira entre Quirguistão e Tadjiquistão, que provocou o deslocamento de dezenas de milhares de pessoas em 2022.

Além disso, especialistas observam que a OCS se tornou cada vez mais dependente da liderança chinesa. Enquanto a China amplia sua influência econômica e diplomática, outros integrantes importantes enfrentam dificuldades.

A Rússia continua desgastada pela guerra na Ucrânia, enquanto a Índia busca equilibrar suas relações com diferentes parceiros internacionais.

"Houve uma evolução da retórica da organização nos últimos anos, que se tornou mais alinhada aos interesses chineses", avalia Emmanuel Véron. "Pequim passou a ter influência crescente sobre a agenda e sobre o processo de ampliação do grupo."

Mesmo a entrada do Irã em 2023 foi resultado de uma articulação defendida por Moscou.

"A presença do Irã dentro da organização está diretamente ligada à vontade da Rússia", afirma Clément Therme, autor do livro Tomorrow Iran: The Future of a Nation (O Irã de Amanhã: o Futuro de uma Nação, em tradução livre do inglês).

O teste iraniano

Para o presidente iraniano Massoud Pezeshkian, a participação na cúpula tem uma importância estratégica.

Segundo Therme, Teerã busca fortalecer sua parceria com Moscou, especialmente nas áreas de energia nuclear civil, inteligência e cooperação militar. Ao mesmo tempo, procura demonstrar aos Estados Unidos que não está completamente isolado no cenário internacional.

O fórum também oferece uma oportunidade de aprofundar os laços com a China, principal parceiro comercial do Irã, e com os países da Ásia Central, cuja importância logística aumentou diante das dificuldades enfrentadas pelo transporte marítimo iraniano.

No entanto, nem todos os participantes da cúpula estão dispostos a se aproximar de Teerã.

"A República Islâmica entrou em conflito ou atacou mais de uma dezena de países da região, incluindo Azerbaijão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos", afirma Therme. "Isso gerou desconfiança, inclusive dentro de fóruns que tradicionalmente eram mais favoráveis ao Irã", destaca.

A reunião de Bishkek ocorre, portanto, em um momento decisivo para a organização. Diante dos ataques norte-americanos ao Irã, das ameaças de sanções contra a China e das tensões crescentes no Oriente Médio, a capacidade da OCS de apresentar uma posição comum poderá determinar sua credibilidade internacional.

O desafio é ainda mais importante porque ocorre poucas semanas antes da cúpula dos BRICS, prevista para meados de setembro em Nova Délhi, e da visita anunciada de Xi Jinping a Washington em 24 de setembro. Para uma organização frequentemente criticada por analistas como uma "casca vazia", a crise iraniana representa um teste de fogo para sua relevância geopolítica.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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