Alemanha vive tensão antes de eleições que podem dar vitória à extrema direita
AfD é favorita para vencer pleito no estado da Saxônia-Anhalt
A Alemanha vive clima de tensão diante da eleição na Saxônia-Anhalt, onde o partido de extrema direita AfD lidera as pesquisas com 42% dos votos sob a chefia de Ulrich Siegmund. Caso confirmada a vitória contra os conservadores da CDU, o país terá seu primeiro governador de extrema direita desde a era nazista. O cenário motivou protestos em defesa da democracia e gerou apreensão entre imigrantes, ONGs e jornalistas, ameaçando furar o histórico cordão sanitário político contra a sigla radical.
A véspera das eleições na Saxônia-Anhalt, no centro-leste da Alemanha, foi marcada por clima de tensão e mobilização diante da possibilidade de, pela primeira vez desde a queda do nazismo, um partido de extrema direita conquistar um governo estadual no país.
Cerca de 15 mil pessoas ocuparam a praça ao redor da Catedral de Magdeburgo, capital do estado, neste sábado (5), em um ato classificado por organizadores como "festa pela democracia", em oposição à possível vitória do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) nas urnas neste domingo (6).
A AfD, liderada na Saxônia-Anhalt por Ulrich Siegmund, de 35 anos, encabeça as pesquisas com 42% das intenções de voto, contra 22% da União Democrata Cristã (CDU), partido conservador do chanceler Friedrich Merz. Se confirmado, o resultado elegerá um governador de extrema direita na Alemanha pela primeira vez desde a era nazista.
Em seu comício de encerramento da campanha, realizado em evento fechado, Siegmund foi saudado pela líder nacional da sigla, Alice Weidel. "Amanhã Siegmund escreverá a história. Ulli, você será o primeiro governador da AfD na Alemanha!", discursou Weidel, sob aplausos. No palco, ela acenou a uma criança na plateia: "Três anos e já está aqui! Nós somos o partido dos jovens, das famílias e do futuro".
Siegmund, por sua vez, adotou tom desafiador. "Talvez eu seja o homem mais perigoso da República, como diz a [revista] Spiegel, porque não vamos mais aceitar que nos digam como viver. Certamente não aqui no leste", afirmou. Entre suas promessas de campanha estão o fim de ONGs que atuam com refugiados e a extinção da taxa do serviço público de radiodifusão.
Ulrich Siegmund (ao centro) pode se tornar 1º governador de extrema direita desde fim do nazismoUma funcionária de um conselho de refugiados ouvida pela ANSA disse temer pela própria segurança. "Ameaçaram meu escritório, me insultaram nas redes. Não quero ser identificada", afirmou.
Além disso, jornalistas que cobrem a política estadual relatam hostilidade crescente. "O partido trata a mídia de forma profissional, mas os seguidores são muito agressivos. Temos andado com seguranças", disse Til Shaebitz, repórter da emissora pública MDR.
A ameaça de fechar o canal, feita por Siegmund, é considerada juridicamente inviável, segundo o jornalista. "Mesmo que tentassem nos tirar do ar, a população continuaria obrigada a pagar a taxa. É garantia constitucional. Não se sustenta, é bobagem", explicou Shaebitz.
Entre imigrantes e refugiados, o clima é de apreensão. Mohammed, que observava um comboio de carros da AfD ao lado da esposa e dos dois filhos, resumiu: "Se a situação piorar, vamos embora. Não é uma boa coisa para nós se eles vencerem".
Já Merz reconheceu a gravidade do momento, bem como a necessidade de reagir ao crescimento do AfD. "Não permitiremos que essas pessoas destruam nosso país com suas conversas fiadas, mas, à luz dos resultados das pesquisas, o que fizemos até agora não foi suficiente. Precisamos de uma nova narrativa para a Alemanha", declarou.
Em meio à expansão do AfD nos últimos anos, os outros partidos impuseram uma espécie de "cordão sanitário" para evitar que a extrema direita governasse, porém, se as pesquisas se confirmarem, o partido pode chegar ao poder na Saxônia-Anhalt sem necessidade de alianças e se fortalecer para as eleições federais previstas para 2029.
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