Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Água potável vira alvo estratégico no conflito do Oriente Médio

O regime iraniano declarou que poderia atacar as usinas de dessalinização dos países do Golfo caso suas instalações energéticas fossem alvo de ataques. Teerã poderia, assim, intensificar a guerra e ampliar seus bombardeios para incluir essas infraestruturas civis vitais.

23 mar 2026 - 12h03
(atualizado às 12h06)
Compartilhar
Exibir comentários

Os países do Golfo dependem em grande parte dessas usinas de dessalinização para o consumo de água potável: até 90% no Kuwait, 86% em Omã, 70% na Arábia Saudita e 42% nos Emirados Árabes Unidos. O mesmo vale para o Bahrein e para o Catar, "que não tem aquífero, não tem rio nem curso d'água em seu território", lembra o historiador Jonathan Piron. "Portanto, o abastecimento de água por meio das usinas de dessalinização é fundamental." No total, essas instalações fornecem água para cerca de 100 milhões de pessoas e para amplos setores da indústria.

Foto tirada em 2023 mostra a usina de dessalinização de água de Ras al-Khair, propriedade da Saline Water Conversion Corporation (SWCC) do governo saudita, situada no Golfo, na Arábia Saudita. (Imagem de ilustração)
Foto tirada em 2023 mostra a usina de dessalinização de água de Ras al-Khair, propriedade da Saline Water Conversion Corporation (SWCC) do governo saudita, situada no Golfo, na Arábia Saudita. (Imagem de ilustração)
Foto: AFP - FAYEZ NURELDINE / RFI

Acima de tudo, essas usinas são alvos relativamente fáceis: são construídas acima do solo e não possuem defesas aéreas próprias, ao contrário de outros locais sensíveis. No entanto, se as usinas de dessalinização dos países do Golfo fossem bombardeadas, certamente seria ultrapassada uma linha vermelha, segundo especialistas da região.

A resposta da Guarda Revolucionária Islâmica e do Exército iraniano não poderia ficar sem uma reação proporcional, porque atacar a água significa privar as populações de um recurso essencial à vida, além de impedir o funcionamento de hospitais e atingir a indústria petrolífera, que tem uma pegada hídrica significativa.

O Irã sabe que é muito vulnerável em termos de abastecimento de água. Bastaria muito pouco para que a coalizão israelense-americana aniquilasse seus recursos hídricos, já fragilizados por vários anos consecutivos de seca. "No Irã, sabemos que uma série de ciclos de seca impactou severamente o país por muitos anos, e a destruição da infraestrutura de dessalinização, bem como dos sistemas de gestão de água, poderia ter consequências muito significativas", enfatiza o especialista em Oriente Médio, Jonathan Piron.

Os ataques contra a água são pouco frequentes em tempos de guerra, mas passaram a aparecer no conflito no Oriente Médio. Uma estação de dessalinização no Bahrein foi danificada em 8 de março por um ataque de drones iranianos, segundo as autoridades, um dia após o Irã acusar uma ofensiva semelhante na ilha de Qeshm, em território iraniano, que teria afetado o abastecimento de água de 30 vilarejos.

Um papel vital

Em uma das regiões mais secas do mundo, onde a disponibilidade de água é dez vezes menor que a média global, de acordo com o Banco Mundial, as usinas de dessalinização desempenham um papel vital na economia e no abastecimento de água potável para seus milhões de habitantes.

"Lá, sem água dessalinizada, não há nada", resume Esther Crauser-Delbourg, economista especializada em recursos hídricos. O sistema é particularmente estratégico em grandes cidades como Dubai e Riad. "Quem ousar atacar a água primeiro desencadeará uma guerra muito maior do que a que temos hoje", alertou Crauser-Delbourg, em entrevista à AFP no início de março.

Principalmente porque o conflito já está tendo consequências na qualidade da água, destaca Jonathan Piron. "O Golfo Pérsico é um mar onde a renovação da água leva tempo, e os vários incidentes de poluição que ocorrem atualmente, com a destruição de navios, estão impactando as usinas de dessalinização, que são muito sensíveis aos poluentes de hidrocarbonetos que acabam na água e, portanto, inevitavelmente, na água potável consumida por esses diferentes países."

Em 2010, uma análise da CIA afirmou que "a interrupção das usinas de dessalinização na maioria dos países árabes poderia ter consequências mais graves do que a perda de qualquer outra indústria ou matéria-prima". E em 2008, o WikiLeaks revelou um telegrama diplomático dos EUA afirmando que "Riad deveria ser evacuada em uma semana se a usina de dessalinização de Jubail, que a abastece, ou seus oleodutos, fossem gravemente danificados ou destruídos".

Consequências desastrosas

Existem medidas de segurança, explica Philippe Bourdeaux, diretor do escritório regional para África e Oriente Médio da empresa francesa Veolia: as usinas de dessalinização são frequentemente interligadas, o que pode limitar as consequências da paralisação de uma única usina, detalha ele. Ele acrescenta que, em geral, elas possuem reservas de água suficientes para vários dias, de dois a sete, o que pode suprir eventuais faltas, desde que as interrupções não sejam muito longas.

Além de ataques, essas usinas são vulneráveis a cortes de energia e à potencial contaminação da água do mar, principalmente por derramamentos de petróleo, afirmam diversos especialistas. Alguns ataques contra usinas de dessalinização ocorreram ao longo dos últimos dez anos: o Iêmen e a Arábia Saudita se atacaram mutuamente, e Gaza sofreu bombardeios israelenses, relata o think tank californiano Pacific Institute, que mantém um registro de conflitos relacionados à água. Antes de 2016, esse tipo de ataque só ocorreu em 1991, durante a Guerra do Golfo.

Com RFI e AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade