Acordo tarifário entre Trump e UE é 'uma capitulação' dos europeus, dizem economistas
Descrito pelo presidente republicano como "o maior acordo já fechado" em matéria de comércio, o novo pacto entre Estados Unidos e União Europeia prevê tarifas de 15%, em vez de 30%, sobre parte dos produtos europeus exportados para o mercado americano. O primeiro-ministro francês, François Bayrou, lamentou nesta segunda-feira (28) o que classificou como "um dia sombrio" para a Europa, que "se resigna à submissão" ao aceitar esse acordo comercial.
Descrito pelo presidente republicano como "o maior acordo já fechado" em matéria de comércio, o novo pacto entre Estados Unidos e União Europeia prevê tarifas de 15%, em vez de 30%, sobre parte dos produtos europeus exportados para o mercado americano. O primeiro-ministro francês, François Bayrou, lamentou nesta segunda-feira (28) o que classificou como "um dia sombrio" para a Europa, que "se resigna à submissão" ao aceitar esse acordo comercial.
Informações de Alexis Bédu da RFI em Paris, com agências
"É um dia sombrio aquele em que uma aliança de povos livres, reunidos para afirmar seus valores e defender seus interesses, se resigna à submissão", reagiu o chefe de governo francês em publicação na rede X.
Em um comentário corrosivo sobre a presidente da Comissão Europeia, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, aliado de Trump, disse nas redes sociais: "Donald Trump não negociou com Ursula von der Leyen — ele a devorou no café da manhã", qualificando o tratado como pior do que o fechado com o Reino Unido em maio.
Discutido em Turnberry, na Escócia, o acordo foi concluído após uma reunião de uma hora entre Trump e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e tem gerado fortes críticas no bloco europeu.
Segundo o jornal Le Monde, os líderes europeus cederam uma vitória política a Trump com o objetivo de evitar uma guerra comercial. O pacto foi selado após dezenas de horas de negociações e apenas cinco dias antes de entrar em vigor a ameaça de Washington de aplicar tarifas de até 30% sobre bens europeus.
O economista Thierry Mayer, professor da Universidade Sciences Po de Paris, afirmou à RFI que a União Europeia poderia ter alcançado um acordo mais vantajoso.
"Desde o início, a administração Trump tinha como objetivo uma tarifa mínima de 10%. É surpreendente que a UE tenha aceitado uma taxa de 15%, superior à obtida pelo Reino Unido [de 10% para a maioria de produtos britânicos]. Dado o peso comercial do bloco europeu, esperava-se uma posição de negociação mais forte. Alguns setores serão afetados, mas, no geral, o impacto pode ser limitado, já que grande parte do comércio europeu ocorre dentro do próprio bloco", explicou.
Ainda faltam detalhes sobre a abrangência do acordo, mas o texto já estabelece o percentual de 15% sobre a maioria dos produtos, com exceções para setores estratégicos como o aeronáutico, alguns compostos químicos e matérias-primas específicas. As taxas de 50% seguem valendo para exportações de aço e alumínio.
Sem garantias de novos aumentos
O economista Eric Dor, diretor de Estudos Econômicos da Escola de Administração IESEG, considera este pacto "extremamente negativo" para os europeus. "É um acordo que mais parece uma capitulação da União Europeia aos Estados Unidos."
Ele destaca que, antes do início do segundo mandato de Trump, "no começo do ano, as tarifas americanas sobre produtos europeus eram, em média, de 4,8%. Subiram para 15%. Portanto, mais que triplicaram", observa. Em relação ao setor automotivo, que será tributado em 15% segundo Trump, Eric Dor se mostra pessimista. Ele observa que "os carros não têm uma cota de isenção tarifária, como os britânicos têm".
Trump também afirmou que os produtos farmacêuticos "não farão parte" do acordo. "Os setores farmacêutico e aeronáutico estão inicialmente isentos, mas sem qualquer garantia de Trump de que esses setores serão protegidos de futuros aumentos de tarifas", alerta Eric Dor. Segundo ele, "as investigações americanas sobre esses produtos continuam e podem levar a tarifas mais altas".
O acordo "implicará a transferência de fábricas europeias para os Estados Unidos para abastecer o mercado europeu", nota o economista com preocupação. Ele ressalta que, "em troca", os europeus irão isentar de tarifas os produtos americanos que entram na Europa. Portanto, é "extremamente desigual".
O diretor da IESEG alerta ainda para as consequências relativas à independência da Europa, já que o bloco se comprometeu com compras vultosas de equipamentos militares americanos. "Isso agravará ainda mais nossa dependência estratégica", acredita o economista.
Acordo "desequilibrado"
O comissário europeu de Comércio, Maros Sefcovic, defendeu o pacto afirmando que "a estabilidade é preferível à imprevisibilidade total". A mesma avaliação foi feita pelo primeiro-ministro belga, Bart de Wever, que considerou o momento como "de alívio, mas não de comemoração".
O tom de resignação pontuou as declarações de outros líderes. O chanceler alemão, Friedrich Merz, reconheceu que o acordo evitou "uma escalada inútil nas relações comerciais transatlânticas" e destacou a redução das tarifas no setor automotivo — de 27,5% para 15% — como um ganho importante. Já a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, celebrou a estabilidade proporcionada pelo pacto, embora tenha declarado que aguardaria os detalhes para formar uma opinião mais ampla.
O ministro francês encarregado de Assuntos Europeus, Benjamin Haddad, condenou o acordo como "desequilibrado", acusando Washington de recorrer à "coerção econômica" e ignorar as normas da Organização Mundial do Comércio.