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Morte de professor de Cambridge chama atenção para uso político de alegações de plágio

As recentes renúncia e morte de Jason Arday, jovem professor negro da Universidade de Cambridge, constituem o capítulo mais recente de uma disputa secular sobre originalidade e propriedade intelectual

24 ago 2026 - 18h58
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Resumo
A morte de Jason Arday, jovem professor de Cambridge que renunciou após denúncias de plágio, expõe como a originalidade acadêmica se tornou uma arma em guerras culturais e disputas políticas. Enquanto a noção de autoria evoluiu da imitação clássica para a proteção legal, alegações de cópia são hoje usadas por ambos os lados ideológicos para destruir reputações e atacar instituições, um cenário que ganha novos dilemas éticos diante do avanço da inteligência artificial generativa.
O professor Jason Arday, da Universidade de Cambridge, foi encontrado morto em sua casa em Londres no dia 14 de agosto de 2026, dias depois de ter renunciado ao cargo em meio a acusações de plágio, que havia negado. Nordin Catic/Getty Images
O professor Jason Arday, da Universidade de Cambridge, foi encontrado morto em sua casa em Londres no dia 14 de agosto de 2026, dias depois de ter renunciado ao cargo em meio a acusações de plágio, que havia negado. Nordin Catic/Getty Images
Foto: The Conversation

Após uma ascensão meteórica aos mais altos escalões do meio acadêmico britânico, Jason Arday foi encontrado morto em sua casa em Londres, em 14 de agosto de 2026.

Arday passou semanas se defendendo de acusações de plágio. A maneira como essas acusações ganharam vida própria no ecossistema da mídia é um forte lembrete do alto preço que as pessoas podem pagar em uma cultura que transformou a originalidade em uma espécie de virtude moral.

Em 2023, aos 38 anos, o acadêmico havia sido nomeado professor de sociologia da educação na Universidade de Cambridge, tornando-se o professor negro mais jovem nos 800 anos de história da instituição.

Nove dias antes de sua morte, Arday havia renunciado ao cargo de professor. Ele enfrentava críticas crescentes sobre detalhes improváveis e inconsistentes que apareciam em suas memórias, com lançamento previsto para as próximas semanas pela editora Simon & Schuster. A editora de Arday o apoiou, elogiando o "profissionalismo e a integridade" do acadêmico.

Mas a originalidade da tese de Arday e de seus outros trabalhos acadêmicos também estava sendo questionada, levando a várias acusações de plágio.

Arday negou veementemente as acusações, sugerindo que quaisquer erros fossem resultado de seu autismo. Ele também alegou que seus acusadores eram motivados por racismo.

A controvérsia em torno do trabalho de Arday reflete uma tendência contínua de opositores ideológicos lançarem acusações de plágio para se prejudicarem mutuamente. Acho que também vale a pena explorar por que tais ataques continuam sendo tão atraentes - e tão eficazes.

Padrões de originalidade em constante mudança

O plágio pode ser definido como a apropriação das palavras ou ideias de outra pessoa sem reconhecimento ou compensação.

No mundo antigo, o plágio era visto de forma bastante negativa: a palavra "plágio" significa, na verdade, "sequestrador" em latim, e o poeta romano Horácio descreveu o roubo literário como um corvo que se enfeita com penas roubadas.

Mas no meu livro de 2026, "Strikingly Similar" ("Incrivelmente Similar", em tradução livre, e ainda não publicado no Brasil), exploro como, ao longo do período medieval, do Renascimento e até o início da era moderna, prevaleceu um ethos de "imitatio" ("imitação" em latim). Chaucer, Shakespeare e Milton são exemplos de autores que seguiram de perto os escritores que os precederam. Esses escritores tomavam emprestados livremente enredos, personagens e recursos retóricos a serviço de suas próprias obras.

A verdadeira originalidade passou a ser vista sob uma luz positiva apenas gradualmente e, com o tempo, evoluiu para o conceito moderno de propriedade intelectual, no qual os produtos criativos da engenhosidade humana são considerados ativos tangíveis. Tratar as obras criativas como propriedade, por sua vez, criou o marco jurídico para protegê-las.

O artista alemão Albrecht Dürer deu início a um dos primeiros processos judiciais conhecidos relacionados à propriedade intelectual. Em 1506, ele solicitou ao governo veneziano que impedisse o gravador italiano Marcantonio Raimondi de copiar suas xilogravuras. Dürer teve apenas sucesso parcial: Foi decidido que Raimondi poderia continuar copiando a obra de Dürer, mas foi proibido de copiar também o monograma característico do artista.

No século XIX, como resultado da pressão de autores como Charles Dickens, o Parlamento britânico promulgou a Lei de Direitos Autorais de 1842. Essa lei ampliou consideravelmente as proteções concedidas aos autores. No entanto, levaria mais 50 anos para que autores estrangeiros como Dickens passassem a desfrutar de proteções semelhantes sob a legislação de direitos autorais dos Estados Unidos.

Hoje, a situação que existia durante o Renascimento se inverteu quase totalmente.

Na Europa, grupos de estudiosos se uniram para investigar alegações de plágio. Utilizando técnicas de crowdsourcing, o VroniPlag Wiki na Alemanha e o Dissernet na Rússia revelaram inúmeros casos de plágio cometidos por servidores públicos em suas dissertações e publicações acadêmicas.

Somente o trabalho do VroniPlag Wiki já levou várias universidades alemãs a revogarem títulos de doutorado que haviam concedido a autoridades governamentais eleitas e nomeadas.

O plágio se torna uma questão política

Hoje, acusações de plágio se tornaram uma forma potente de minar a credibilidade de alguém. Se uma alegação for comprovada, o plagiador é visto, na melhor das hipóteses, como descuidado ou preguiçoso e, na pior, como fundamentalmente desonesto.

Como resultado, partidários da esquerda e da direita política usam rotineiramente alegações de plágio para difamar seus adversários ideológicos. Isso serve aos seus objetivos de desvalorizar tanto o trabalho de seus alvos quanto as instituições que eles representam.

Em 1991, Nina Totenberg, da NPR, divulgou a notícia das alegações de assédio sexual de Anita Hill contra o indicado à Suprema Corte, Clarence Thomas, atraindo a ira da direita. À medida que a controvérsia tomava conta do processo de confirmação, o Wall Street Journal, de tendência conservadora, ressuscitou uma acusação de plágio contra Totenberg, de quase duas décadas atrás, que remontava à época em que ela era repórter do National Observer.

O exemplo recente mais notável seria a denúncia de 2023 feita pelo ativista conservador Christopher Rufo de que Claudine Gay, então reitora de Harvard, teria cometido vários atos de plágio.

Em 2024, Gay renunciou ao cargo de reitora da instituição, embora continue fazendo parte do corpo docente. (Em uma reviravolta irônica, a esposa de um dos críticos mais proeminentes de Gay, o gestor de fundos de hedge Bill Ackman, foi acusada de ter plagiado sua própria tese de doutorado.)

Vozes conservadoras também têm se encontrado rotineiramente na mira.

Em 2013, vários meios de comunicação acusaram Rand Paul, senador republicano do Kentucky, de plágio em seus discursos, colunas de jornal e em seu livro de 2012 de diversas fontes, incluindo a Wikipédia. E durante as audiências de confirmação de 2017 do juiz da Suprema Corte Neil Gorsuch, alguns veículos de comunicação alegaram que o indicado pelo presidente Donald Trump havia plagiado partes de seu livro de 2006 sobre suicídio assistido. Gorsuch acabou sendo confirmado pelo Senado.

Neil Gorsuch presta juramento no primeiro dia de sua audiência de confirmação para a Suprema Corte dos EUA perante a Comissão de Justiça do Senado, em 20 de março de 2017. Justin Sullivan/Getty Images
Neil Gorsuch presta juramento no primeiro dia de sua audiência de confirmação para a Suprema Corte dos EUA perante a Comissão de Justiça do Senado, em 20 de março de 2017. Justin Sullivan/Getty Images
Foto: The Conversation

As acusações contra Arday não surgiram no vácuo político. Elas foram moldadas pelas guerras culturais em torno de questões raciais, do meio acadêmico e das políticas de diversidade, equidade e inclusão.

Em 21 de julho de 2026, Nathan Cofnas, um filósofo americano que trabalha na Universidade de Ghent, na Bélgica, escreveu uma postagem no Substack detalhando como enviou a tese de Arday de 2015 ao Copyleaks, uma plataforma de detecção de plágio. Ele encontrou "sobreposição substancial" com uma tese escrita por outro acadêmico em 2009.

Cofnas acrescentou que "muitas passagens foram copiadas com edições mínimas, às vezes mantendo erros de revisão da fonte original", e encontrou problemas semelhantes em outros artigos escritos por Arday.

No passado, Cofnas já havia expressado dúvidas sobre as capacidades intelectuais dos negros em comparação com os brancos. Ao desacreditar o trabalho de um professor negro, explicou ele, também poderia desacreditar a universidade que havia contratado Arday por promover "a ideologia da DEI".

A Universidade de Ghent suspendeu Cofnas em 20 de agosto de 2026, enquanto conduzia uma investigação sobre suas ações.

A IA complica a noção de plágio

O surgimento da inteligência artificial generativa provavelmente tornou ainda mais pronunciado o desejo do público por obras humanas originais. Apenas um ano após o lançamento do ChatGPT 3.5, em 2022, o Merriam-Webster escolheu "autêntico" como sua palavra do ano.

As leis de direitos autorais também ressaltam a importância que atribuímos à originalidade ao conceder aos criadores — e até mesmo aos seus herdeiros — longos períodos de direitos exclusivos para livros, músicas e outras obras artísticas.

Quando um aluno entrega um trabalho escrito por um chatbot em vez de seu próprio trabalho, isso deve ser considerado plágio? Tenho defendido que isso se assemelha mais à "escrita fantasma", já que o aluno não está copiando de uma fonte original. Em vez disso, a IA generativa está encadeando palavras de maneira probabilística que se assemelha muito à escrita humana.

Isso não é o mesmo que gerar um texto a partir de uma única fonte. Dito isso, usar um chatbot para escrever sem revelar seu uso ainda pode ser uma forma de trapaça. E a maioria das pessoas afirma que plágio, trapaça e escrita fantasma são todas más condutas do mesmo tipo, pois carecem da centelha que atribuímos ao pensamento e à escrita verdadeiramente originais.

O público, em última análise, espera que jornalistas, acadêmicos e autoridades eleitas ajam de forma ética. No meio acadêmico, não há pecado maior do que passar o trabalho de outra pessoa como se fosse próprio. E as violações da confiança do público costumam ser julgadas com bastante severidade.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Roger J. Kreuz não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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