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Mais deputadas de direita do que de esquerda: o que o recorde feminino na Câmara diz ao campo progressista

Urnas deram às mulheres o maior número de representantes na Câmara dos Deputados na história. Pela primeira vez também, maioria é de partidos de direita, reproduzindo a expansão desse campo nestas eleições

9 out 2026 - 07h27
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Resumo
A Câmara dos Deputados atingiu o recorde de 109 mulheres eleitas, com a direita obtendo mais cadeiras (56) que a esquerda (45), embora esta seja proporcionalmente mais feminina. Esse avanço conservador reflete uma onda global que usa a presença feminina para promover a família e a moral religiosa, rejeitando a ideia de vitimização. O cenário desafia o campo progressista a conectar suas pautas materiais a essas eleitoras sem reduzi-las ao papel de vítimas ou ao ideal tradicional da direita.

Os resultados das urnas do dia 4 de outubro deram às mulheres 12 das 54 vagas em disputa no Senado, o que leva a 16 senadoras entre 81. Nas assembleias e na Câmara Legislativa do Distrito Federal, foram 218 das 1.059 vagas. Na Câmara dos Deputados, serão 109 mulheres, 21% das cadeiras. É o maior número da história e um salto de 18 cadeiras em relação a 2022.

Desse total, 56 deputadas vêm de partidos de direita e 45 de partidos de esquerda. Mas, proporcionalmente, a esquerda tem mais mulheres: 38,5% dos seus eleitos, contra 16,7% na direita e 13,1% no centro. O PT elegeu 25 deputadas, mais que as 22 do PL, com uma bancada 40% menor. PSOL e PCdoB são os partidos mais femininos da Casa, com 57% e 64% de mulheres.

Os dados são fiéis à História. O protagonismo da mulher na vida pública vem do feminismo, historicamente ligado ao grande campo das lutas pela igualdade da esquerda. Já o número maior da direita é coerente com a expansão desse campo nestas eleições e com a onda conservadora que atravessa quase toda a América Latina e boa parte do mundo.

Décadas de organizações de mulheres e feministas, que culminaram na primavera feminista de 2015 e se refletiram em normas de financiamento, fizeram o lema "mulher na política" virar senso comum. Uma vitória do feminismo para além dele.

Como a direita elege tantas deputadas?

A direita - campo que tem, entre as suas correntes, a ideia da mulher voltada ao lar e submissa ao marido - elegeu 56 deputadas. Não é um paradoxo novo nem brasileiro. Phyllis Schlafly fez carreira política nos Estados Unidos dos anos 1970 pregando que o lugar da mulher era em casa; Giorgia Meloni governa a Itália com o lema "sou mulher, sou mãe, sou cristã". Depois que o feminismo legitimou a mulher na vida pública, a reação a ele só é crível com rosto feminino.

No feminismo a emancipação significa dividir responsabilidades e poder em pé de igualdade. Já para as mulheres da direita e extrema direita, homem e mulher têm funções diferentes que se completam; a mulher pode liderar na política, desde que como extensão da sua função de cuidar e proteger a família. O padrão é internacional.

Michelle Bolsonaro é o caso típico: fala de política como "mãe", "mulher de fé" e "esposa" - ainda que a essa altura ela provavelmente já seja mais poderosa que o marido.

Esquerda, direita, Estado, família

As divergências entre as deputadas dos dois campos se organizam em dois eixos: quem provê as necessidades das pessoas e quem decide sobre o corpo e a vida da mulher.

No primeiro eixo, na esquerda, o Estado é quem distribui bens e oportunidades: educação e saúde públicas com gasto mínimo garantido pela Constituição, salário-mínimo e direitos trabalhistas.

Na direita, é a família que deve prover seus membros. Na ausência dela, a caridade. Jamais o Estado. Os "valores da família" são peça da arquitetura neoliberal porque a responsabilidade privada da família substitui o Estado.

No Brasil, a família virou narrativa central nos governos Temer e Bolsonaro justamente quando se retomou a agenda do Consenso de Washington: voluntariado no lugar de recursos para assistência e desenvolvimento social e a própria família tratada como política pública. Nos setores mais extremos, a família substitui até mesmo a escola, por meio do homeschooling.

O segundo eixo é o do conflito aberto: aborto, direitos sexuais e reprodutivos e a definição de mulher.

A violência contra a mulher é o caso de consenso parcial. Nenhuma deputada da legislatura que termina nega o problema. A divergência está na resposta: de estender a Lei Maria da Penha aos homens ("violência não tem sexo") ao armamento e à castração química. Eduarda Campopiano (PL), eleita para a Assembleia de São Paulo com quase 2 milhões de votos, chega a dizer que feminicídio não existe e que a legislação a respeito é um privilégio.

Uma lição para o feminismo

Nomear o patriarcado é essencial para entender que a violência de gênero não é mera soma de casos individuais. Mas há um risco, que Wendy Brown chamou de apego à ferida: a ferida vira o que define o grupo, e a política se organiza mais em torno da denúncia e da proteção do que da ação.

O discurso da direita opera aí. Defende o "empoderamento sem vitimismo": não sou oprimida, sou forte, sou mãe. É assim que as candidatas de direita se apresentam pelo menos desde 2018.

Como mostram - com razão - várias autoras, a crítica ao "vitimismo" serve para deslegitimar o feminismo e esvaziar a necessidade de políticas públicas. O discurso da família serve também para excluir o casal homossexual, a mulher que aborta, quem não cabe no modelo. Mas não é só isso.

Para imensos contingentes de trabalhadoras, a família é o lugar onde o seu trabalho aparece e a sua palavra vale. Quando a esquerda fala da família só como lugar de opressão, essa mulher ouve que o que ela construiu não vale.

O discurso da direita também pega porque a mulher que trabalha fora, sustenta a casa e, muitas vezes, cria os filhos sozinha não se vê como vítima. Ela se vê forte, e isso é documentado em pesquisas.

Pela Quaest de 28 de setembro, Lula tinha 46% das mulheres no segundo turno e Flávio Bolsonaro, 37%. A esquerda ainda vence entre elas, mas 37% de um eleitorado de mais de 80 milhões de mulheres são dezenas de milhões. Dentre as quatro candidatas ao Senado no Distrito Federal, as duas eleitas são de direita. As eleitoras não votam contra si por engano.

A mulher entrou na política no Brasil, ainda que em proporção menor do que no mundo e na América Latina. Mas, para que a política feita por mulheres seja também uma política para as mulheres, a presença não basta. É preciso trazer essas mulheres para um projeto de bem-estar que lhes interessa materialmente - sem o preço que a direita cobra, o lugar fixo na família, e sem o lugar que parte da esquerda lhes reserva: o de vítima.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Marina Basso Lacerda não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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