Línguas indígenas do mundo inteiro se revitalizam com uso de dicionários multimídia
Muitas das mais de 7 mil línguas indígenas faladas no planeta correm risco de desaparecer. E, com elas, muitos conhecimentos podem também morrer
A importância de se preservar, revitalizar e promover as línguas indígenas no mundo, tanto para os povos falantes quanto para a humanidade, ganhou uma chancela significativa em 2019, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o período de 2022 a 2032 como a Década Internacional das Línguas Indígenas.
A iniciativa pretende aumentar a conscientização global sobre a importância dessas línguas para o bem viver dos povos ao redor do globo e para o risco iminente de desaparecimento de muitas das 7.674 línguas identificadas atualmente como línguas faladas tradicionalmente por uma comunidade de falantes como sua primeira língua.
Perda de saberes únicos
Muitas dessas línguas estão em vias de desaparecer, na medida em que as novas gerações não aprendem a língua de seus ancestrais. Assim, apenas os mais idosos mantêm vivas suas línguas e os saberes a elas associados.
Saberes que representam conhecimentos, observações e experiências sobre fauna, flora, serviços ecossistêmicos, cosmologias, ritos e práticas culturais. Conhecimentos específicos são associados a línguas específicas, de modo que a extinção de uma língua pode levar, por exemplo, à perda de conhecimentos medicinais únicos.
Uma investigação realizada em três regiões do mundo com alta diversidade biocultural e elevada diversidade linguística (América do Norte, Noroeste da Amazônia e Nova Guiné) constatou que mais de 75% dos 12.495 serviços relacionados a plantas medicinais estão vinculados a uma única língua.
E esse conhecimento está fortemente ameaçado, na medida em que a maioria das línguas nas quais esses conhecimentos estão presentes está ameaçada, mesmo que as plantas medicinais sobre a que se referem não estejam. Isso sugere que a perda de línguas produz um efeito mais crítico para a extinção do conhecimento medicinal do que a perda de biodiversidade.
Com permanentes pressões econômicas, ambientais e sociais, os povos indígenas no Brasil sofrem o mesmo risco de extinção de suas línguas. A Amazônia concentra o maior número de povos originários no país, e a região é um território merecedor de atenção cuidadosa: ela abriga atualmente aproximadamente dois terços de um universo que varia entre 150 e 170 línguas indígenas ainda faladas no Brasil, considerando critérios linguísticos.
O Censo Nacional de 2022 apresenta um amplo panorama dos povos e línguas indígenas e aponta um número de 295 línguas indígenas autoidentificadas no país. Esse número pode incluir línguas de memória ou de pertencimento (lembradas mas já não mais faladas), variações de uma mesma língua, mais de um nome para uma mesma língua, línguas em processos de retomada, etc.
Dicionários que revitalizam línguas
O cenário de ameaça de desaparecimento que envolve a maioria das línguas indígenas no Brasil tem mobilizado esforços dos povos indígenas e da comunidade científica para ações voltadas à documentação, manutenção linguística e práticas de revitalização.
O trabalho desenvolvido por linguistas do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e de instituições científicas parceiras se insere neste cenário há mais de 50 anos, sempre direcionando esforços para a Amazônia Legal. O trabalho está em constante revisão de suas metodologias, e já ofereceu contribuições como a recente construção participativa dos Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas, selecionados para a etapa final do 13° Prêmio da Fundação Banco do Brasil de Tecnologias Sociais.
Estes dicionários, realizados em parceria com o Departamento de Linguística da University of New Mexico, constituem um modelo de ferramenta digital que pode ser utilizada em ações de manutenção e revitalização de línguas minorizadas.
Sete dicionários bilíngues com o Português estão disponíveis na plataforma, contemplando as línguas Kanoé, Oro Win, Puruborá, Sakurabiat, Salamãi e Wanyam, além do dicionário de lugares sagrados dos Medzeniakonai. Outros quatro dicionários estão em fase de finalização, para as línguas Makurap, Djeoromitxi, Wayoro e Kuyubim.
O uso de tecnologia como smartphones, tablets ou computadores, ainda que incipiente, é uma realidade em muitas comunidades indígenas, o que favorece a implementação de dicionários em formatos digitais, cujas entradas lexicais podem ser ilustradas com recursos multimídia. O Portal Japiim, desenvolvido no âmbito do Projeto de Documentação de Línguas Indígenas (ProDoclin) do Museu Nacional dos Povos Indígenas, disponibiliza outro modelo de dicionários multimídia para línguas indígenas no Brasil.
Os dicionários incorporam recursos de áudio, vídeo e imagem, incluindo a pronúncia das palavras e ilustrações de seu uso em frases. Esses recursos permitem registrar e transmitir de forma mais fiel aspectos orais da língua, de modo que o dicionário possa funcionar como fonte de referência e, especialmente, como instrumento de manutenção, fortalecimento e revitalização linguística. No contexto de alta vulnerabilidade das línguas indígenas brasileiras, os recursos multimídia tornam-se especialmente valiosos.
Aliança refinada entre povos indígenas e comunidade científica
A elaboração desta ferramenta é resultado, por um lado, da rica trajetória do Museu Goeldi, centro de pesquisa mais antigo da Amazônia, fundado em 1866, e que detém o único acervo permanente de línguas e culturas indígenas na Região Norte do Brasil. Por outro lado, é fruto do esforço conjunto de indígenas que constituem a comunidade de fala e de linguistas da instituição. Cada vez mais, as comunidades falantes têm convocado os pesquisadores a assumir a tarefa junto com elas.
A produção dos Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas desenvolvida no Museu Paraense Emílio Goeldi é um processo cíclico e colaborativo. O trabalho se inicia invariavelmente por demanda da comunidade, que participa de todo o processo, do planejamento participativo e documentação em campo até o processamento tecnológico e a validação final.
Esta sofisticada aliança permitiu a elaboração de dicionários bilíngues com tecnologias de código aberto (open source), de fácil acesso a informações e sem necessidade de conexão com a internet para uso dos aplicativos. Essas tecnologias podem ser adotadas e mesmo aprimoradas em larga escala pelas comunidades.
O Instituto de Tecnologia Social define tecnologia social como "um conjunto de técnicas, metodologias transformadoras, desenvolvidas e/ou aplicadas na interação com a população e apropriadas por ela, que representam soluções para a inclusão social e melhoria das condições de vida". Os dicionários multimídia configuram uma tecnologia social inovadora para revitalização de línguas na Amazônia.
A aliança entre acadêmicos e as comunidades indígenas que dá origem aos Dicionários responde a demandas e necessidades específicas, no que se refere à manutenção, fortalecimento e revitalização linguísticos, com o desenvolvimento de produtos que possam servir à comunidade para atividades de aprendizagem e revitalização de suas línguas tradicionais.
Em comunidades com poucos falantes fluentes, especialmente onde não há registros de transmissão linguística, os dicionários multimídia de línguas indígenas funcionam como uma ferramenta inicial, permitindo que o povo estabeleça um contato mais próximo com sua língua de tradição.
Em comunidades onde existe uma parcela de indivíduos fluentes na língua, o material pode ser utilizado como um reforço didático, promovendo a continuidade do aprendizado por meio da integração da tecnologia.
O alcance dos dicionários é perceptível na fala de Dona Margarida Macurap, da aldeia Ricardo Franco, em Rondônia, uma das pesquisadoras indígenas participantes da produção do dicionário Macurap, ao comentar sua reação diante da primeira versão do dicionário: "Assim, os meus filhos vão aprender, meus netos, bisnetos. Vão saber que a gente tem uma história. Enquanto eu tô viva, vou ensinando o que que é, que palavra é, significa o quê, o nome das coisas (…) Quando cheguei em casa, falei 'filho, eu trouxe um presente pra você bem bonito, bem bonito mesmo. Pode vim aqui pra escutar'. Ele tava deitado na casa dele. Ele foi lá. Primeira coisa que ele abriu, a voz da vó dele. Eu gostei. Falei, 'poxa, tá tão bom'. Tá escrito em Português e na língua".
Ana Vilacy Galúcio recebe financiamento do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq) através de Bolsa de produtividade em pesquisa (PQ - 304766/2022-4) e do projeto de pesquisa "Conexões Amazônicas: centros avançados para documentação, fortalecimento e revitalização de línguas e culturas indígenas na Amazônia" (CNPq Processo 445415/2024-0) e do Endangered Languages Documentation Programme, através do projeto (MDP0435 Documentation of the severely endangered languages Makurap and Wayoro (Brazil): material and non-material traditional culture, and its associated knowledge).
Erika Morhy recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), como bolsa de pesquisa junto ao projeto "Conexões Amazônicas: centros avançados para documentação, fortalecimento e revitalização de línguas e culturas indígenas na Amazônia".
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