Legado "Mulher, Vida, Liberdade" resiste no Irã, mesmo com a guerra
Desencadeado pela morte de Jina Mahsa Amini em 2022, o movimento "Mulher, Vida, Liberdade" gerou uma profunda transformação sociocultural no Irã. Apesar da repressão violenta do regime, que discute penas ainda mais severas para a obrigatoriedade do hijab, o legado dos protestos persiste. A dissidência feminina, que tem décadas de história e ativistas premiadas com o Nobel, reflete-se hoje em jovens que desafiam as leis abertamente em busca de maior autonomia social.
A morte de Jina Mahsa Amini sob custódia policial em 2022 desencadeou um movimento de resistência no país. Quatro anos depois, o regime iraniano continua no poder, mas o legado dos protestos feministas também permanece.Em 16 de setembro de 2022, Jina Mahsa Amini, uma curda de 22 anos, morreu em um hospital de Teerã. Ela havia deixado sua casa no noroeste do Irã para visitar a capital quando foi abordada pela polícia da moralidade de Teerã, que alegou que ela estava violando a exigência de cobrir os cabelos com véu. Ela foi presa e, três dias depois, declarada morta.
Para muitos iranianos, a brutalidade dos agentes da lei contra mulheres acusadas de violar as regras do hijab não era novidade. Ainda assim, a morte de Amini desencadeou uma explosão sem precedentes de indignação. Manifestantes em todo o país foram às ruas sob o slogan "Mulher, Vida, Liberdade". Eles protestaram durante meses, mas o regime acabou conseguindo reprimir o movimento com uma repressão violenta.
"Do meu ponto de vista, o movimento 'Mulher, Vida, Liberdade' é a maior transformação social e cultural no Irã em décadas", disse à DW a escritora, poeta e ativista Pouran Nazemi.
O trabalho de Nazemi como ativista dos direitos das mulheres a levou a ser presa várias vezes nos últimos anos. Ainda assim, ela se recusa a se deixar intimidar.
Segundo ela, o movimento tinha objetivos claros desde o início: acabar com a obrigatoriedade do hijab e com a violência estatal contra a população iraniana. Embora esses objetivos não tenham sido alcançados, os protestos levaram muitas pessoas a reconhecerem seu próprio poder dentro da sociedade.
"As instituições ainda usam violência física e detenções arbitrárias contra nós", afirmou Nazemi. "Mas algo fundamental mudou."
Lei do hijab continua em debate
Mesmo agora, em meio à guerra com os Estados Unidos, partes do regime iraniano continuam concentradas na obrigatoriedade do hijab. Muitos políticos apoiam um novo projeto de lei que introduziria punições significativamente mais severas para mulheres que violarem a exigência do véu em locais públicos.
Um parlamentar descreveu a ausência da cobertura da cabeça como "uma ferida profunda no corpo da sociedade".
A proposta está em discussão há anos e tem sido marcada por disputas entre diferentes instituições do Estado.
Em uma sessão parlamentar virtual realizada em 6 de setembro, diversos deputados pediram ao presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, que encaminhasse o projeto ao presidente da República para sanção.
Novo normal para as jovens iranianas
Uma estudante de 17 anos disse à DW que nem pensa em usar hijab em público. Como muitas outras jovens, ela publica fotos e vídeos seus nas redes sociais usando saias coloridas e roupas de verão. Para ela, esse é o novo normal.
"Minha mãe também não usa hijab", disse a estudante. "Ela ainda sente um pouco de medo e sempre carrega um lenço para poder se cobrir em uma emergência."
Mesmo esse grau de liberdade seria difícil de imaginar poucos anos atrás. Somente após os protestos de 2022 muitas mulheres passaram a desafiar abertamente as regulamentações governamentais e a decidir por conta própria se querem ou não se cobrir.
Décadas de resistência feminina no Irã
A resistência das mulheres iranianas ao regime não começou com os protestos "Mulher, Vida, Liberdade". Uma fase importante da longa história de dissidência ocorreu há 20 anos, disse à DW a ativista e escritora Mansoureh Shojaee.
Junto com outras ativistas e feministas iranianas, Shojaee lançou a campanha "Um Milhão de Assinaturas" em 2006. O objetivo era reunir um milhão de assinaturas em uma petição para mudar leis que discriminam as mulheres. A campanha tornou-se um importante modelo para o ativismo feminista e para a mobilização social no Irã.
As ativistas foram às ruas, às universidades, aos bairros e às casas das pessoas. Conversaram sobre divórcio, guarda dos filhos, herança, testemunho em tribunais e poligamia. Também promoveram oficinas, grupos de estudo e outros eventos culturais e midiáticos.
Vencedoras do Nobel entre ativistas que enfrentaram repressão
Desde cedo, a iniciativa enfrentou forte repressão do Estado. Ativistas foram convocadas pela polícia, presas e levadas aos tribunais. Nos anos seguintes, as autoridades invadiram e fecharam uma ONG de direitos humanos administrada por Shirin Ebadi, advogada e defensora dos direitos das mulheres e das crianças que, em 2003, tornou-se a primeira iraniana a receber o Prêmio Nobel da Paz.
A vice de Ebadi no Centro de Defensores dos Direitos Humanos, Narges Mohammadi, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2023, foi presa diversas vezes ao longo dos anos. A ativista e jornalista Mansoureh Shojaee deixou o país em 2011, assim como muitos dissidentes ao longo dos anos.
Shojaee vive atualmente na Holanda.
As ativistas nunca alcançaram a meta de reunir um milhão de assinaturas. Ainda assim, conseguiram mudar a forma como a sociedade discute a posição legal e social das mulheres. Por isso, Shojaee não vê o movimento "Mulher, Vida, Liberdade" como uma ruptura completa com o passado, mas apenas como um dos capítulos de uma história muito mais longa da resistência no Irã.
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